Sim, pois existem as grandes. Essas são as pequenas, que podem ser apenas mais uma expressão das grandes.
Refiro-me à generalizada incompetência feminina em relação a tarefas práticas em eletricidade doméstica, encanamento, pintura, e todas essas necessidades de reparos que toda casa tem.
Anteontem deixei o Mauro na academia com um enorme sentimento de culpa: ele ia fazer coisas como passar a fiação da catraca pelo conduit, trocar chuveiros nos vestiários e fixar persianas. Eu não sei fazer essas coisas. Na verdade, nunca tentei. Na verdade mesmo, nem sei por onde se começa.
A lógica do Mauro é perfeita: “ora, se os profissionais que geralmente executam essas tarefas não têm qualificação, por que eu não posso fazer a mesma coisa, já que não requer formação especializada?”. Não requer, é verdade. Mas requer outra coisa: familiaridade.
Lembro-me de um filme hilário em que uma top model muito jovem se viu numa situação em que precisava fazer uma ligação de um motel vagabundo de beira de estrada nos Estados Unidos. O telefone era analógico e discado. “Discar” significa girar um disco cheio de furinhos, onde ficavam os números desse tipo de aparelho. Ela nunca tinha visto um. Ficou olhando, virou o aparelho ao contrário e por fim perguntou: “onde se digita nessa merda?”.
É mais ou menos isso.
Vou confessar coisa pior: se o pneu do carro furar, não sei nem onde ficam os instrumentos para trocá-lo. Sempre, SEMPRE, houve um cavalheiro disposto a fazer isso por mim, não importa onde.
Nos vários anos em que eu morei nos Estados Unidos, aprendi algumas coisas. Não tenho problemas com computadores, por exemplo. Monto móveis, desde que haja um manual de instruções. Aliás, monto qualquer coisa, desde que haja um manual de instruções.
No entanto, onde está o manual de instruções para trocar torneira? Fixar lustres? Trocar fiação telefônica? Não tem.
E aí, nenhum dos meus títulos e vasta experiência cultural me tiram da patética condição de mulher inepta. Quanta incompetência…

Marilia


BodyStuff

  • Da série: coisas que não confesso por aí…

    Sou inepta em muitas coisas: algumas típicas da minha formação de gênero. Outras típicas da minha condição de filha-única-que-teve-tudo-na-mão. As expressões do primeiro grupo são basicamente as mesmas que você citou. Móveis, entretanto, depois da minha última mudança de casa, descobri que posso montar, não necessariamente tendo visto o manual. Acho que tenho “olho bom” pra essas coisas, simplesmente. Do segundo grupo fazem parte minha enorme falta de habilidade e jeito pra cozinhar, e o fato de que entrei na auto-escola aos 31 anos…