Existem as coisas da vida que não dependem de se viver a mesma de um jeito ou de outro, de se adotar uma postura ou outra ou das opções que se faz. São as perdas. Estas, meu amigo, são inevitáveis e inexoráveis. Elas vêm, e não podemos fazer nada a respeito.

A pior do ano aconteceu dia 31 de março. Nesse dia, morreu meu amigo, meu companheiro canino, meu filho peludo, o Akela. Através da cânula espetada na veia dele, o alívio para a dor fluiu. Vi o corpo do meu cão relaxando, a expressão ficando calma, entendi que a dor acabou e os olhos dele se fecharam, para sempre.

Voltei para a casa vazia, cansada de tanto chorar e chapada com 20mg de valium.

Não tem o que dizer sobre isso exceto que dói horrivelmente. Dói até hoje, talvez doa para sempre. Mas se eu tivesse que viver os 15 anos que vivi na companhia do Akela novamente com ele ao lado, mesmo sabendo que ele envelheceria mais rápido que eu e eu o perderia, faria tudo outra vez.

Eu acho que isso vale para tudo que envolve amor. O amor é a coisa mais perigosa que existe. É uma ação de altíssimo risco, de risco crônico e catastrófico. Todo mundo é mortal e toda relação é perecível. Toda perda dói.

Tive grandes amores que só puderam se concretizar em poucos dias. Depois, nunca mais. Em alguns casos isso era um fato estabelecido, mesmo que o outro e eu vivêssemos um eterno imaginário. Em outros casos, no fundo, era óbvio. O fim sempre dói, mas amar vale a pena, mesmo assim.

Dia 23 eu ganhei a Sara, um filhote de perdigueiro que me enche de lambidas, mordidas e amor. Eu sei que ela amadurece mais rápido do que eu e que há uma chance de que ela morra antes de mim. Nem por isso vou economizar amor.

Esse ano eu perdi o convívio com pessoas que me foram importantes. Não os coloco no rol de falsos amigos. Cada um tem seu jeito de amar. Alguns jeitos machucam. Me afastei, sem rancor, mas com alguma dor. Vivi aventuras muito legais com essas pessoas, mas o ciclo acabou. A vida daquele formato de relação, talvez o único possível com aquelas pessoas, chegou ao fim como a vida do Akela. Me despedi com serenidade.

Ganhei outras. Ganhei pessoas fáceis de conviver mas também pessoas difíceis, não sei se mais ou menos do que eu.

Não vou economizar amor, como não economizo Força.

Pessoas (de duas ou quatro patas) morrem e relações também. Mas o amor e a Força são eternos e sempre valem a pena.