Hoje me deparei com um comentário interessante na Internet a respeito de um livro: Pagan Fleshworks: The Alchemy of Body Modification, autora Maureen Mercury. Só li esse pedaço – precisava pagar para ler o resto e eu decidi que não valia a pena. Mas a idéia é interessante: ela diz que o fator motivacional primário para se tatuar ou fazer piercing é a “separação mente-corpo”. Ela argumenta que essas modificações corporais podem “acordar o funcionamento de sensações” e “curar a cisão mente-corpo”. Eu gostei da idéia de que a cisão mente-corpo precisa ser curada, porque se há algo que considero socialmente patológico, esse algo é a alienação corporal. Só não sei se modificações corporais realmente conduzem a isso.
Uma outra autora, Kim Hewitt, que escreveu o livro Mutilating the Body: Identity in Blood and Ink, argumenta que as modificações corporais carregam um significado muito maior do que um simples adorno. Para a autora, representam um processo iniciático. Ela enfatiza que os participantes de fato se estigmatizam para demonstrar uma atitude confrontacional e desafiadora em relação às normas sociais, além de reivindicar abertamente uma identidade pública. Essa autora tem uma história de auto-mutilação, pelo que parece, não muito iniciática, na juventude.
Eu tenho piercings. Tenho doze na orelha, um no nariz e um no umbigo. Ainda não tenho nenhum tatoo porque não consegui me decidir sobre o desenho, mas farei. Também farei mais piercings.
Notei que meus amigos mais educados convencionais reprovaram unanimemente minha iniciativa de obter o piercing do umbigo – não tiveram chance de reclamar da orelha porque são antigos e adquiridos ao longo de anos. Sem nenhuma preocupação de levantamento sistemático, observei que, quanto mais sedentários e ortodoxos, intelectualmente, maior é a aversão às modificações corporais. Quando perguntei por que eles reprovavam tão fortemente o piercing, me disseram que era porque representava uma auto-mutilação. O mesmo argumento da minha tia bem velha e conservadora de 80 anos.
Parece que Maureen Mercury pode ter uma certa razão. Eu acredito fortemente que esses meus colegas do mundo acadêmico, a intelectualidade contemporânea, representam o discurso oficial da alienação corporal. Acho que eles corroboram a tese de Mercury. Fiz um rápido levantamento no PubMed sobre “body piercing” e recuperei uma grande lista de artigos descrevendo desde complicações clínicas de piercing até análises complexas do aspecto patológico do comportamento de modificação corporal. Conclui, acho que com bastante propriedade, que, “oficialmente”, a intelectualidade tem aversão a isso.
Minha reação foi achar mais bacana ainda meus piercings e ficar entusiasmada em obter vários outros, bem visíveis. A idéia de me afastar e combater a alienação corporal me agrada muito.
Sem muita certeza, pensando agora, pela primeira vez, tenho a impressão de que também a segunda autora pode ter razão. Que há um componente ritualístico na obtenção de tatoos e piercings. E – agora eu refletindo – talvez sejam o outro lado, o lado construtivo, da moeda auto-mutilatória. Enquanto a auto-mutilação por sofrimento mental está associada a um processo de desintegração e destruição da identidade, o ritual de modificação corporal pode ser uma reação construtiva a ela. Modificando, deliberadamente, o corpo, o indivíduo reclama seu direito de controle sobre ele e sobre si mesmo. Reclama seu poder sobre a própria natureza. Eu sou a cultura, e eu mando na natureza. E acho que é assim que tem que ser.

Marilia


BodyStuff