(Para a galera da Arte da Força)

Silas me encontrou numa pequena praça do Alto de Pinheiros, em São Paulo, às três da tarde de hoje. Qualquer lugar servia, então foi ali. Trouxe consigo dois kettlebells: um de 12kg e um de 16kg. Nos conhecemos ali. Ele me perguntou o que eu sabia sobre KBs.

“Nada: só de ler e assistir vídeos. Ou seja: nada.”

Fora isso, umas horinhas há dois anos com o Ivan de Marco, que serviram para me dar muita vontade de aprender mais, e recentemente umas aulas de Turkish Gettup (com meu tênis allstar…) com o Rafa Susigan.

Como toda nobre arte, no entanto, os movimentos com KBs não se aprendem rápido, nem na teoria e nem sem uma longa e árdua prática de treinamento. É assim com o wushu, com o boxe, com a esgrima, com as várias danças, com o levantamento de peso olímpico, com a minha arte do levantamento básico e é assim com a antiga e tradicional arte dos KBs. Só existe uma forma de se aprender uma arte, método este consagrado desde que a cultura é cultura: é na transmissão de conhecimento tácito entre mestre e aprendiz.

Mestre é todo aquele que recebeu a incumbência de passar adiante um conhecimento tradicional. Quando a arte floresce e é valorizada, mestres serão aqueles não apenas incumbidos, mas os mais proficientes na arte, proficiência esta avalizada por pares legítimos. A estes indivíduos cabe formar as novas gerações de praticantes de uma arte.

A definição de arte é das mais controvertidas e fugidias da cultura. A arte é uma expressão da cultura humana, em geral entendida como uma prática em que elementos da realidade sejam manipulados e organizados de maneira a produzir um sentido. Arte tem significado simbólico e impacta um ou vários de nossos sentidos, mobiliza a emoção e a cognição. O significado de arte vem sendo re-definido ao longo dos séculos. Originalmente, não era diferenciada de uma habilidade ou competência específica. Mais tarde veio a ser entendida como uma forma de expressão ou comunicação de idéias e emoções.

Seja lá como for, o leitor já deve estar curioso sobre o encontro deste conceito com o relato da minha primeira experiência de treino com KBs.

A execução proficiente de movimentos codificados com KBs pertence à mesma categoria de práticas culturais que as diversas artes marciais, os levantamentos de peso (básico e olímpico), os saltos ornamentais, a ginástica olímpica, o surf e inúmeras outras atividades também freqüentemente classificadas como esportes. Essa classificação, porém, é bem mais moderna do que se imagina: os esportes, como os conhecemos hoje, devidamente institucionalizados, datam do século XIX. As práticas corporais que deram origem a eles, no entanto, se perdem na antiguidade.

Quase todas foram um dia artes da guerra – artes marciais. Arte, no sentido antigo do termo: a maestria e proficiência em uma prática codificada. Os valores tradicionais da lealdade e respeito, bem como a ética da honra são parte da “marcialidade”.

No entanto, todas estas práticas, mesmo quando devidamente encaixadas nas relações institucionais dos esportes modernos, com suas federações, relações econômicas com atores sociais diversos, relações de poder entre praticantes e sobre eles, retém sua qualidade essencial de arte no sentido mais abstrato. Ainda que não manifestem isso em todos os seus praticantes, todas elas são formas de expressar algo profundamente sublime da essência e excelência humana.

As artes corporais comunicam a idéia do Homem “essencial”, e, nessa condição, desejos e expectativas.

No indivíduo praticante, as artes corporais vão além: são discursos eloqüentes sobre suas emoções e relações mais profundas, freqüentemente sobre a transcendência.

Quase todas as artes do corpo contém um denominador comum: a Força. O corpo não se move sem força. Assim, a arte mais básica, mais fundamental, mais basilar à expressão humana é a ARTE DA FORÇA.

Hoje eu aprendi e executei (desajeitadamente, como todo iniciante) swing, swing unilateral (muito lúdico passar o KB de uma mão para outra, divertidíssimo), snatch e agachamento com KBs. É uma arte completamente nova para mim. Um universo a ser explorado. Mas como artista de outra arte da força, sei reconhecer nela, mesmo que apenas nestes primeiros e desajeitados movimentos de uma aprendiz, a rota da transcendência. Como reconheci, ainda engatinhando também, no levantamento olímpico.

Me senti mais ou menos ressuscitada de uma pequena morte produzida por um afastamento involuntário da minha arte, durante as últimas duas semanas. Lembrei daquilo que disse, repeti, escrevi e gravei no aço: minha vida é essa rota. Só existe isso. A vida é isso. O resto é conseqüência.

Mas hoje me dei conta de que a Arte desta rota é uma só, uma grande arte em diferentes expressões. Aquela pequena bola de ferro com alça que consumiu toda a minha atenção e esforço, que desafiou todas as minhas capacidades, me fez rir e retornar a um estado básico qualquer, foi o canal para essa epifania.

No fim, só existe a Força.

 

Obs: no filme “The Perfect Storm” (Mar em Fúria), o personagem Bobby “fala” telepaticamente com sua companheira quando está morrendo, no meio do maremoto: “… there’s no goodbyes, Christina, there’s only Love – in the end, there’s only Love”. O que isso tem a ver com o texto? Deixo para você meditar.