EU QUERIA RESPONDER NO THREAD, MAS MEU TEXTO É MAIS LONGO DO QUE O QUE PERMITE A JANELINHA. COMO ACHO QUE PRECISO ABORDAR COM CERTO DETALHE OS ARGUMENTOS DO MEU COMENTADOR, ACHO MELHOR COLOCAR AQUI MESMO.

Pois é, “anônimo”, você criou um problema para mim: recebi um monte de e-mails revoltados com seu post, de pessoas que não acharam adequado fazer o mesmo que você: esgrimir sem identidade intelectual. Eu tinha certeza de que era uma brincadeira de um de dois amigos que eu tenho e cheguei a entrar em contato com ambos. Se não era nenhum deles, então não era brincadeira de amigo e eu questiono fortemente seu anonimato. Como cientista com uma formação meritocrática ortodoxa, acredito que o momento mais crucial da construção das idéias é o “claim staking” (afirmação, defesa de ponto de vista), o único onde a identidade do autor é rigorosamente indispensável. Você descumpriu essa regra do debate acadêmico – e, o que você fez certamente foi abrir um debate acadêmico, ainda que num blog pessoal (é um blog de uma acadêmica).
Você tem acesso à minha identidade, você pôde deliberadamente ignorar minha reflexão sobre a dificuldade metodológica inerente a uma pesquisa sobre a adesão à estética musculosa porque sabe qual é a minha formação e perspectiva e até brincou com a sugestão de teses nas disciplinas que fazem uso dos métodos que mencionei (sociologia, antropologia, etc.). Eu não tenho acesso à sua.
O debate fica truncado.
Ainda assim, vamos aos argumentos.
Eu gostaria muito de saber qual é a base empírica da seguinte afirmação: “Há exceções, mas o componente da dominação do homem pela mulher musculosa é invariável.” Ao contrário do que eu procuro fazer, você não oferece um único URL para esses incríveis sites onde INVARIAVELMENTE os amantes de musculosas se revelam submissos.
Infelizmente, ao contrário do seu levantamente aparentemente quantitativo, o único de que disponho é de uma coleção de depoimentos de duas categorias de sujeitos: 1. homens amantes de mulheres musculosas que me procuram por e-mail ou msn para conversar; 2. outras mulheres musculosas como eu que trocam experiências. Essas duas fontes produzem evidências discrepantes com sua observação: de cerca de uma dúzia de homens que me abordaram e levaram o diálogo a níveis relativamente profundos nas últimas semanas, apenas dois revelaram algo que eu particularmente estranhei – até que ponto as expressões do desejo são “desviantes” é uma questão que deixo para a Mary discutir. Dois me disseram que gostariam de “lamber meus bíceps” e um desses dois me perguntou se eu já ergui algum homem como se faz com um leg press. Portanto, não consigo perceber esse elemento INVARIAVELMENTE SUBMISSO dos amantes de musculosas.
Percebi que muitos deles tinham as seguintes preocupações: 1. que nós, musculosas, não daríamos nenhuma atenção a eles porque nós teríamos uma preferência muito marcada por homens igualmente musculosos. Eles têm razão: mulheres musculosas são raras porque só se consegue um corpo assim com muita dedicação a treino e dieta e anos de experiência. Isso é raro, como qualquer expressão de alta performance. Essas raras mulheres quase sempre são apoiadas por companheiros da mesma “cultura”, frequentemente seus técnicos. No último campeonato de bodybuilding que eu assisti, seis atletas participaram da modalidade “Figure”. Três delas eram casadas ou namoradas de seus técnicos. O componente de dominação no sexo entre as mulheres musculosas não é predominante – sob o ponto de vista de seu comportamento sexual, segundo a minha experiência, não vejo diferença alguma entre a pequena população de musculosas e a população maior do próprio gênero. Mas mulheres realmente musculosas são atletas e atletas frequentemente namoram e casam com outros atletas, assim como pessoas da área da saúde muitas vezes acabam juntas, cientistas sociais, etc.; 2. que nós, musculosas, não nos sentiríamos adequadamente “contidas” como fêmeas por homens “normais” porque, enfim, somos muito fortes. E, portanto, perderíamos interesse por eles.
Será que eles realmente têm problemas em revelar sua identidade? Só para me situar, entrei na comunidade mais explicitamente associada ao culto às musculosas: ADORO MULHERES MUSCULOSAS, com 249 membros. Na primeira página, há seis homens com seus nomes próprios e dois com apelidos. Um deles é um artista gráfico, cujo “nick” nada tem a ver com seu gosto por musculosas. De onde você tirou essa generalização? URLs, por favor.
Enfim, como eu disse, esse tema é complicado porque o objeto é difícil de descrever de forma consensual. O que você diz não bate com o que eu vejo.
Você diz: “Creio também no componente homossexual da atração por mulheres de músculos bem definidos ou desenvolvidos. (…) Por que creio nesse componente? Porque o que é valorizado nas musculosas são atributos tradicionalmente masculinos em nossa cultura: força física, atitudes viris e dominadoras, iniciativa, independência, poder e potência.” Bem, você cai na frase de conclusão do meu post, quase que ilustrando meu ponto de vista sobre o preconceito! Não, o que se valoriza nas musculosas não é o componente dominador, não há evidência para isso! E eu honestamente acredito que a musculatura da mulher musculosa não é, de maneira nenhuma, vista como uma característica masculina por esses homens – é certamente vista assim por você, que se revela maravilhosamente preconceituoso em sua afirmação. Músculo é uma coisa macia e redonda e isso é extremamente feminino, você já pensou nisso? Claro que não. Você já viu como são as fotos de revistas de musculação com mulheres na capa? Quase iguais às da Playboy! Bundão em evidência! Por que? Porque é mulher, e mulher tem bunda atraente para homem!
Isso sim se presta a uma bela análise quantitativa por alguém bom em semiótica: capas de revista de musculação. Teses como a sua iriam por água abaixo sem muito problema.
Finalmente, gostaria de acrescentar algo sobre o contato que tenho com esses amantes de musculosas. A maior parte dos que de fato se dedica a esse culto coleciona diligentemente fotos e vídeos de suas “amigas” virtuais, alguns organizam essas imagens em sites e blogs e com isso cumprem sua “missão” de estimular e divulgar a estética. A relação mais importante que eles estabeleceram comigo tem a ver com esse senso de missão do qual estão imbuidos, e que você não consegue identificar nos nichos que você investigou.
Bottom line: não é o desejo deles (e nosso) que é marginal e sim nossa percepção. Nossa percepção do belo e do feminino é certamente alternativa, marginal, pois transgride as convenções do preconceito “anti-força” e “anti-músculo” (e, acrescentariam minhas amigas: do machismo também…).

Marilia


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