Não existe muito consenso na literatura quanto ao resultado que dietas com restrição de carboidrato possam ter sobre a performance de força e potência. O principal efeito potencialmente negativo da restrição de carboidrato para atletas é a obstrução da reposição dos estoques de glicogênio intra-muscular. Dietas com proporções mais baixas de carboidrato resultam em deficiências na reposição de glicogênio, se comparadas com dietas mais ricas neste nutriente.

Quase todos os estudos foram feitos para esportes de endurance. Burke et al (1993) mostraram que dietas ricas em carboidratos de alto índice glicêmico são mais eficientes do que dietas ricas em carboidratos de baixo índice glicêmico na reposição dos estoques de glicogênio em fundistas. Esse resultado contrasta com aquele obtido cerca de dez anos antes por Costill et al (1981), onde foi verificado que refeições contendo uma mistura de carboidratos complexos (com mais baixo índice glicêmico) resultava na mesma taxa de reposição de glicogênio que refeições contendo carboidratos simples no período de 24h, sendo que em 48h, as refeições com carboidrato complexo eram superiores nesta reposição. O estudo foi feito em corredores de longa distância.

Um estudo de Ivy et al (1988) com exercício de bicicleta mostrou que doses muito diferentes de suplementação com polímeros de glicose resultavam na mesma taxa de reposição de glicogênio.

Além dos dados contraditórios sobre as doses de carboidrato necessárias para a reposição dos estoques de glicogênio, existem problemas relativos às evidências quanto ao timing da suplementação de carboidrato para esta finalidade. Alguns estudos mostram que não faz muita diferença o momento da suplementação pós-esforço de endurance (Parking et al 1997).

Pesquisas relacionadas a doses e timing de carboidrato nas refeições e suplementação de carboidrato têm sido feitas nos últimos 60 anos pelo consenso de que a reposição e manutenção de bons estoques de glicogênio são fundamentais à prática prolongada de exercício intenso de endurance (Ivy 1991).

Até esse momento, o consenso era de que o principal suplemento esportivo deveria consistir de carboidrato, uma vez que era este nutriente que determinava a reposição de glicogênio. Em 1992,  Zawadski et al relataram evidências de que a suplementação de carboidrato com proteína é superior à suplementação apenas com carboidrato para a reposição dos estoques de glicogênio. Em 2001, Jentjens et al mostraram evidência contrárias a isso, alegando que acrescentar proteínas ou aminoácidos a um suplemento de carboidratos não teria efeito sobre a reposição de glicogênio. Em 2002, o grupo de Ivy (Ivy et al 2002) reforçou as alegações feitas por Zawadski et al dez anos antes.

Nesta década, boa parte das pesquisas realizadas sobre o efeito da suplementação sobre a reposição dos estoques de glicogênio se complexificou, envolvendo aspectos hormonais e amino-ácidos específicos, creatina e outras substâncias potencialmente ergogênicas.

Enquanto estas pesquisas focadas principalmente em esportes de endurance caminhavam, a falta de consenso se ampliava no que diz respeito aos esportes de força. Em 1989, Symons e Jacobs mostraram que exercícios de alta intensidade não são afetados pelos níveis baixos dos estoques de glicogênio. Tesch (1988) mostrou que atletas de esportes de força, especialmente basistas e levantadores olímpicos, possuem maior capacidade de estoque de glicogênio, porém menor potencial oxidativo de maneira geral. Roetert (1999) relatou evidências na literatura quanto à falta de efeito que a depleção ou baixa disponibilidade de carboidratos tem sobre a performance de força. Leveritt e Abernethy (1999) mostraram que a restrição de carboidratos na dieta afetava a performance em séries de agachamento até falha de mais de 12 repetições, mas não de exercícios isocinéticos de extensão de pernas. Os autores especularam que possivelmente o teste com exercícios isoinerciais (agachamento) mostre que esta forma de força depende de uma atividade glicolítica mais intensa do que isocinética, mais rápida e intensa. Esta última seria fundamentalmente sustentada pela quebra de precursores fosforilados.

Finalmente, o estudo mais recente de todos, feito pelo grupo de Kraemer (Hatfield et al 2006), demonstrou que o consumo de dietas mais altas em carboidrato não afeta a performance de potência. Sabe-se que potência e força máxima estão bastante relacionadas e que, nos esportes de força particularmente, dependem uma da outra.

Haff e Whitley (2002) revisaram a literatura no que diz respeito às evidências acumuladas em relação ao papel da composição glicídica da dieta de atletas de força. A conclusão não é muito diferente daquela que apresento aqui, ou seja: existe uma enorme inconsistência de resultados e pesquisas futuras são necessárias para esclarecer a relação entre performance de força e potência e conteúdo glicídico da dieta, mediado, e como, pela reposição dos estoques de glicogênio.

 

 

Burke, L. M., G. R. Collier and M. Hargreaves. Muscle glycogen storage after prolonged exercise: effect of the glycemic index of carbohydrate feedings. J Appl Physiol 75: 1019-1023, 1993.

Costill, DL, WM Sherman, WJ Fink, C Maresh, M Witten and JM Miller. The role of dietary carbohydrates in muscle glycogen resynthesis after strenuous running. American Journal of Clinical Nutrition, Vol 34, 1831-1836, Copyright © 1981

Haff, G. Gregory, PhD, CSCS, and Adrian Whitley, MS. Low-Carbohydrate Diets and High-Intensity Anaerobic Exercise. Strength and Conditioning Journal. Volume 24, Number 4, pages 42–53. August 2002

Hatfield, Disa L., 1 William J. Kraemer,1,2 Jeff S. Volek,1 Martyn R. Rubin,1 Bianca Grebien,3 Ana L. Go Mez,1 Duncan N. French,1 Timothy P. Scheett,4 Nicholas A. Ratamess,5 Matthew J. Sharman,2 Michael R. Mcguigan,2 Robert U. Newton,2 And Keijo Ha Kkinen6. The Effects Of Carbohydrate Loading On Repetitive Jump Squat Power Performance . Journal of Strength and Conditioning Research, 2006, 20(1), 167–171

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Ivy, J. L., H. W. Goforth Jr., B. M. Damon, T. R. McCauley, E. C. Parsons, and T. B. Price. Early postexercise muscle glycogen recovery is enhanced with a carbohydrate-protein supplement. J Appl Physiol, October 1, 2002; 93(4): 1337 – 1344.

Jacobs I. High-intensity exercise performance is not impaired by low intramuscular glycogen. Med Sci Sports Exerc. 1989 Oct;21(5):550-7.

Jentjens, R. L. P. G. , L. J. C. van Loon, C. H. Mann, A. J. M. Wagenmakers, and A. E. Jeukendrup. Addition of protein and amino acids to carbohydrates does not enhance postexercise muscle glycogen synthesis. J Appl Physiol, August 1, 2001; 91(2): 839 – 846.

LEVERITT, MICHAEL AND PETER J. ABERNETHY Effects of Carbohydrate Restriction on Strength Performance. Journal of Strength and Conditioning Research, 1999, 13(1), 52–57

PARKIN, JO ANN M.; CAREY, MICHAEL F.; MARTIN, IVA K.; STOJANOVSKA, LILLIAN; FEBBRAIO, MARK A. Medicine & Science in Sports & Exercise. 29(2):220-224, February 1997.

Roetert, E. Paul. How Is Resistance Exercise Performance Affected by Different Levels of Carbohydrate Intake? National Strength & Conditioning Association. Volume 21, Number 1, page 47. February 1999

Tesch PA. Skeletal muscle adaptations consequent to long-term heavy resistance exercise. Med Sci Sports Exerc. 1988 Oct;20(5 Suppl):S132-4.

Zawadzki, K. M., B. B. Yaspelkis 3rd and J. L. Ivy Carbohydrate-protein complex increases the rate of muscle glycogen storage after exercise. Journal of Applied Physiology, Vol 72, Issue 5 1854-1859, Copyright © 1992 by American Physiological Society

 

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