(dedicado ao Mendinho e ao Renato)

Renato é meu colega de treino, educador físico, atleta de levantamento olímpico e powerlifting, na prática meu técnico, hoje, e parceiro nas solitárias viagens sobre treinamento mental. Partilho com pouca gente minhas idéias nessa temática, vista ainda com suspeita e incredulidade pela maioria. Rompido o pudor com as idéias, o resto vem de lambuja. Foi assim que um dia chutei o balde e expus minha tipologia afetiva dos levantamentos com Renato: o Terra é o levantamento do lutador, para o qual vou com o foco de guerra. É um tipo de foco específico em que junto com a interiorização do movimento há a determinação de executar, vencer e se impor. O supino é pura meditação. É um movimento para dentro, onde a fase excêntrica é um mergulho dentro de si, onde encontramos nós mesmos e nossa fonte inesgotável de força, e na fase concêntrica nos expandimos para além de nossas fronteiras, numa ação de transcendência. O agachamento é uma celebração da vida, é pura explosão, é como uma declaração de amor ao mundo.

Todo treino de agachamento me gera uma sensação duradoura de um estranho bem-estar que mistura euforia, paz, alegria, confiança e otimismo. Em geral euforia não combina com paz, mas no agachamento sim. O mundo é o que é, mas parece que existem soluções. Que vale a pena acreditar. Que há pessoas incríveis no planeta e que as que conheço todas têm aspectos fascinantes. Sinto um profundo amor pela Terra, pela humanidade e especialmente por meus entes queridos. Acima de tudo, me sinto um ser humano melhor e capaz de acrescentar algo melhor ao Universo.

Falei isso para o Renato, durante um treino. Como sempre, ele me olhou meio inexpressivamente e me mandou fazer alguma coisa como “vai, concentra e presta atenção na direção do cotovelo”. Tudo bem, boa parte do que eu falo é bobagem mesmo e não espero muita atenção.

Quando nos encontramos novamente, num certo momento Renato comentou: “estive pensando naquilo que você disse…” Demorou um pouco para eu entender que era a tipologia afetiva dos levantamentos. “Sabe que em parte você tem razão? É mais ou menos isso, mesmo”.

Naquele dia, apagaram a luz na academia antes que a gente terminasse o treino. Juntamos as coisas rápido e saimos resmungando baixinho. Era um dia em que todo mundo estava muito mau-humorado em volta de nós. No caminho, Renato falou: “o mundo seria bem mais legal se todo mundo agachasse”.

Eu acho que ele tem absoluta razão.

Por que o texto é dedicado ao Mendinho? Porque é o melhor agacho que conheço, é quem melhor conhece o agachamento e, por isso, sei que entende o que eu sinto. Quando ele for reconhecido como o melhor do mundo, quem sabe as pessoas entendam isso melhor, agachem mais e sejam mais felizes.