Essa seria uma boa.

Certamente é importante para portadores de identidades minoritárias ter espaço social para assumirem-se como tais, lutar contra o preconceito e construir uma auto-representação positiva. Os dias e semanas do orgulho gay, da consciência negra, da pessoa indígena, da mulher, entre outros, têm essa função. Festividades específicas como as de Nossa Senhora da Achiropita, no Bixiga (bairro de São Paulo originalmente ocupado por imigrantes italianos pobres), o Ano Novo Chinês, no bairro da Liberdade, em São Paulo, desempenham funções semelhantes, com menos conteúdo político por motivos óbvios: não se trata de etnias ou ancestralidades étnicas/nacionais perseguidas HOJE (já foram).

No entanto, enquanto todas as celebrações forem EM DETRIMENTO DE outra identidade, carregadas de revanchismo, infelizmente muitas vezes o saldo em intolerância é maior do que antes da celebração.

Todos temos um monte de identidades. Uma ou outra se torna mais relevante, dependendo das circunstâncias e momento da vida. Uma das minhas identidades é a de portadora de desordens neurológicas e psiquiátricas, também conhecida como “louca”. Essa é uma das identidades mais oprimidas, estigmatizadas e violentadas em qualquer sociedade. Pertenço a uma organização chamada “Mind Freedom International”, que congrega pessoas dedicadas a lutar contra isso. Um dos movimentos ligados ao Mind Freedom é o MAD PRIDE: orgulho louco.

Disse isso tudo para me colocar no debate sobre identidades oprimidas e massacradas.

Você, que não é louco, acompanhe-me num experimento. Suponha dois discursos de pessoas loucas e pense que reações emocionais e atitudinais que eles deflagram em você.

DISCURSO A – Loucos são portadores de adaptações neurológicas preservadas na espécie humana por conferirem maior capacidade de reprodução, bem como administração de ambientes inóspitos. Entre os hoje chamados “loucos” estão os indivíduos com maior criatividade, iniciativa (hoje caracterizada pejorativamente como “impulsividade”), inteligência, libido e inovatividade. O louco só foi patologizado numa circunstância em que as relações de poder tornaram estas aptidões desnecessárias para a sociedade. Mais que isso, tornaram-se perigosas para as relações de poder. O aprisionamento, cassação do direito à palavra e desqualificação do louco é um ato de reação do segmento que deseja conservar os piores elementos das relações de poder contra os que expõem suas contradições. Nós, loucos, reivindicamos o direito à auto-determinação e a regulamentação de condições adequadas às nossas características no trabalho e na vida social em geral. Consideramos toda a apologia à normalidade mental um insulto à nossa condição. Somente impondo aos assim chamados normais que admitam seus privilégios numa sociedade opressora é que atingiremos uma condição de maior igualdade.

DISCURSO B – Louco é o termo utilizado para designar a pessoa que é portadora, hoje, de um diagnóstico positivo para alguma desordem neurológica ou psiquiátrica. As desordens neurológicas ou psiquiátricas não tornam a pessoa incapaz ou irracional. Poucos loucos sofrem de alucinações. Os que sofrem não estão “mentindo”: estão sofrendo uma alteração perceptiva. O louco não mente mais, nem menos, do que o resto da população não diagnosticada. O louco é tão capaz de amar, colaborar e trabalhar quanto qualquer outra pessoa. Acredita-se que loucos são portadores de adaptações neurológicas preservadas na espécie humana por conferirem maior capacidade de reprodução e administração de ambientes inóspitos no início da evolução humana. Hoje, numa sociedade onde estas demandas ambientais não existem mais, aquelas adaptações criam condições de conflito para o louco, que geram grande sofrimento. No entanto, geram também coisas boas, como uma sensibilidade artística diferenciada. Existe uma maior proporção de loucos entre os grandes artistas e cientistas do que na população em geral, o que não quer dizer que loucos serão artistas ou que o bom artista ou cientista necessariamente tenha que ser louco. Algumas pessoas loucas não têm mais condições de participar dos rituais da sociedade moderna e necessitam de cuidados especiais. O louco não é melhor e nem pior do que qualquer outra pessoa: só diferente, e, freqüentemente, mais vulnerável. Nós, loucos, acreditamos que podemos ser membros mais ativos e felizes da sociedade se estes fatos forem divulgados e amplamente comunicados à sociedade. Gostaríamos que todas as pessoas tivessem oportunidade de ver o mundo, ainda que muito rapidamente, através de nossos olhos loucos. Há beleza nisso.

E aí, qual foi a sua reação a um e a outro discurso?