Feliz Pesach, Páscoa e Ostara para todo mundo.

Ontem conversei com um amigo que têm me fornecido rico substrato para reflexão na forma de escolhas que me incomodam. Obviamente incomodado, num certo ponto da conversa ele disse:

– eu tenho essa benção ou maldição de ter nascido líder. As pessoas me escutam

Eu estava tão mais preocupada em demonstrar a falácia lógica do argumento militante do “barco” que ele não podia abandonar, que me escapou o fato de que ele se via timoneiro do mesmo.

Só que esse é um componente fundamental do militantismo que ando combatendo. Uma parte dos ativistas, como argumentei anteontem, o é por culpa. Outra parte o é porque é uma estratégia de um segmento medíocre de qualquer campo de alcançar poder sem legitimidade ou competência concorrencial (esse argumento não é meu, é do Bourdieu).

Tanto uns quanto outros passam a vida inteira sem condições de olhar para o espelho e enxergar a origem de sua motivação para o papel que assumiram. Obviamente, a dor que isso causa não é desprezível. Tirando a origem “de rua” da culpa e seus desdobramentos, restam os buracos e horrores da própria alma.

Pensei que a minha ferida secaria um dia, mas não é verdade. O máximo que consegui foi reconhecer que é uma ferida, e não uma virtude. Eu vim com culpa de fábrica. Fui uma concepção indesejada e depois uma criança indesejada. Fui um fardo na vida dos meus pais. Passei a vida tentando justificar meu direito a existir. Se isso custasse abrir mão de tudo para me tornar genericamente útil diante do argumento marxista do socialismo ou barbárie, que fosse. Essa culpa original deu inúmeros filhotinhos, como os vários modelos de amor. Por exemplo ser útil para impulsionar a causa de alguém ou alguéns onde afeto e identificação se misturam. Impulsionei “causas” de pessoas que amei muito para, sem saber, compensar um mal que ainda faria contra eles, como se a única coisa que eu pudesse fazer fosse isso. Não surpreendentemente, foram exatamente estas pessoas que eu mais machuquei e cujas causas eu mais comprometi.

Moral da história: qualquer forma de mentira para si mesmo, mesmo a mais benigna, mesmo a mais inevitável, dá merda.

O argumento de que viemos ao mundo com uma ou outra missão é perigoso ao cubo. Assim, abrimos mão de olhar esses horrores internos e “naturalizamos” algo que é inteiramente construído. O exemplo clássico é o argumento do meu amigo de que ele nasceu com essa maldição-barra-benção de ser líder e, portanto, era obrigação dele liderar um grupo de atletas em direção a… a que? Canaã?

Chamo isso de síndrome de Moisés.

Moisés é a figura mítica e fundacional das religiões de origem judaica. Sua história é o fio condutor do script da mais importante passagem do Exodus. Moisés é a criança judia nascida em plena escravidão de seu povo no Egito. Quando o faraó, temeroso do potencial de revolta dos judeus, mandou matar todos os recém-nascidos, a mãe de Moisés colocou-o num barquinho improvisado no Nilo, de onde ele foi pescado pela família real egípcia. Criado como egípcio nobre, ignorante de sua verdadeira identidade, eventualmente Moisés teria sinais da mesma. Primeiro, algo nele o fez sentir revolta contra o tratamento dado aos escravos judeus, algo pouco esperado de um aristocrata egípcio. Como resultado de sua reação nada bem vinda (matar o mal feitor), Moisés se afastou/foi afastado da família e sociedade egípcias. Foi então adotado pela segunda vez, agora por um clã de pastores judeus onde casou-se e teve um filho. Neste momento, já no contexto de sua identidade “natural”, Moisés recebeu uma mensagem de Deus para desempenhar o conhecido papel de líder dos judeus na libertação da escravidão. Moisés liderou seu povo numa rota pontuada por riquíssimas imagens simbólicas, como a abertura do mar e os quarenta anos vagando pelo deserto em busca da terra prometida.

Moisés é um mito fundador e, nessa qualidade, nos fala de verdades muito íntimas. A não ser que sejamos fundamentalistas, a leitura deste belo mito é tão libertadora quanto sua história. O mito não fala de nenhuma missão para com terceiros e muito menos de escravidão social. O mito nos fala das prisões internas e da possibilidade ou esperança de liderarmos nossa própria alma para fora destes grilhões.

Cada um de nós pode ser seu próprio Moisés e liberar a si mesmo da escravidão das dores cuja origem se desconhece. Fala também da possibilidade de conhecer cada vez mais os elementos escondidos da nossa identidade e, com este conhecimento, se assenhorar de nosso processo, liderando nosso próprio espírito.

Eu poderia discorrer infinitamente sobre as possibilidades interpretativas deste belo mito, coisa que grandes teólogos e psicanalistas já fizeram com muito mais competência.

O que importa para mim é que ninguém nasce com nenhuma missão de liderar. Liderar é uma opção que se faz em função de escolhas racionais ou pirações e nóias, nome genérico para os tais buracos da alma, também conhecidos como neuroses.

Quando eu tinha cinco anos, vinha na porcaria do relatório da merda da escolinha um diagnóstico de que eu era uma “líder nata”. Mal sabia a professorinha que ela tinha lido diretamente as piores dores de uma criança aterrorizada e traduzido em forma de sanção a uma sentença que eu já tinha recebido.

Meu amigo não nasceu líder, eu não nasci líder e nem tampouco o homem cujo liderança eu tentei tanto apoiar que destruí seus sonhos, permiti que fossem destruídos ou sei lá. Ninguém pode ser feliz administrando buracos – só machucamos e somos machucados.

Que essa Pesach nos liberte a todos.