Agora essa eu não partilho nos grupos nem na página. Uma semana depois de publicar meu desligamento de funções organizativas, três semanas após a maior agressão e traição sofridas no esporte por conta de uma simples negociata ilegal de terceiros, eu estive ali, ao lado dos amigos, na Seletiva do Strongman para o Arnolds (já amplamente comentada). Fiz o que acho que é minha função: desempenhei meu

papel técnico ao lado de Dione Wessels. Eu gostei desse lugar. Ele é a fusão dos paradoxos da minha pessoa. Eu pude ser objetiva e distanciada para ser útil, mas mergulhar no fundo da minha emoção para vivenciar o momento. Entre o Miguel brincando com meu pentagrama e o Marcão (Marcos Ferrari Strong Monsters ) ajoelhado no chão, com os filhos em volta, eu me senti viva. Sim, é uma família por quem eu tenho muito afeto e todos me deram muito ali. A Re (Renata Silva ) é esse eixo de serenidade que nos garante o vínculo entre o Céu e a Terra. Mãe Terra. Os olhos da Manu, obviamente reinterpretando um monte de coisa no super-computador de três anos dela enquanto o pai, todo cheio de sangue e hematomas transmitia a ela a energia da vitória. E eu ali, parte de mim interpretando os efeitos de queda de performance da temperatura e falta de umidade ao ver meu amigo, que corre com uma cangalha de 400kg, parar no meio do caminho. Parte de mim análise, parte de mim querendo me projetar embaixo da barra e carrega-la. Eu vi os olhos do Lu (Luciano Dias ) sentado sobre o log (log lift). Memória antiga: o passarinho deixado sem água. Minha mãe colocando rápido a água para o passarinho. Quem deixou o passarinho sem água? Os olhos do passarinho. Os olhos do Luciano. Minúsculos, olhos de desidratação. Exato, pensa Dr. Coutinho: falta cálcio, magnésio, sódio e potássio – não há como manter a hidratação.
A cara marota do Luciano quando concluimos: “até que deu certo: ninguém morreu!”. Sim, ninguém morreu, que legal. E muitos desclassificaram. Mas desclassificaram, pela primeira vez na história desse esporte, SOB REGRAS INEGOCIÁVEIS E INQUESTIONÁVEIS.
Verdade: ninguém se preparou para o clima, não temos essa experiência. Verdade, temos falhas técnicas. Mas tudo isso é facilmente superável. O que é difícil de superar, e conseguimos – ELES conseguiram – foi esmagar a tendência à instalação do Strongman de Fundo de Quintal, versão Strong do powerlifting de fundo de quintal. Onde todo mundo ganha, todos ficam felizes, em especiais os amigos dos organizadores.
Nada disso. Eu tive que sofrer, como os irmãos, cônjuges, pais e filhos de quem competia ali sofreram também. Obvio que eu queria ver o Marcão correr com a cangalha, assim como os demais. Mas como todo mundo ali, fui embora com uma vitória: a vitória contra o faz de conta e a mentirinha. E a enorme e assustadora estrada em direção à EXCELÊNCIA, à seriedade e à transcendência.
Escrevi isso correndo quase a uma da manhã. Ponho no blog, amanhã comento tecnicamente a perda de performance pelo calor. Hoje… hoje o que fica é o hiato entre as mãozinhas do Miguel no meu pentagrama e a cabeça molhada do Marcão meio inconsciente no chão, perto do meu pé, ao lado da Re e dos filhos.
Paz.
Serenidade.
Plenitude.