Introdução

Todo relato passado é uma construção. Todo fato passado é fruto de uma escavação seletiva. O passado é um recurso heurístico: ele não é um lugar que está lá para visitas a vivências.

O passado está em movimento.

A história desta aventura, contada hoje, não é a mesma se relatada ao longo do caminho. Ao longo do caminho é impossível ter uma noção precisa da importância de qualquer coisa. Ocorrências que parecem dramáticas perdem importância, enquanto um giro sutil de rota pode mudar o nosso destino.

Estou em DC e Diego em Miami. Nossa aventura pode ser contata a partir de diferentes pontos de partida. Se contada a partir do momento da minha decisão quanto a Las Vegas, envolveria outros sonhos, outras perspectivas quanto ao esporte – outro powerlifting, um que nem existe mais no meu imaginário. Se assim é para mim, imaginem para o Diego, que entrava em contato naquele momento com a idéia do powerlifting competitivo.

Apoio e patrocínio: nunca contar com o ovo na cloaca da galinha

Na minha reconstrução seletiva, eu parto do momento em que nós dois decidimos ir juntos. Eu tinha um patrocínio/parceria garantidos cobrindo tudo: tratava-se de completar a verba da equipe. Ao longo da busca, promessas de vários lados se acumularam. Num determinado momento, achamos até mesmo que realizaríamos um sonho muito maior, de fazer um documentário, tamanha a resposta de potenciais investidores.

Lição número um: empresário brasileiro com credibilidade se conta nos dedos. No nosso caso, nos dedos de uma mão. Um a um, os parceiros foram dando para trás, desaparecendo ou deslavadamente sendo inadimplentes, descumprindo contrapartidas em permutas acordadas. Lembro do dia, não da data, em que dissemos: “foda-se, vamos assim mesmo”. Acho que foi nesse dia ou pouco depois que Adriano Faccio, da Fast Nutrition, me escreveu se propondo a cobrir a minha participação. Eu não pedi: ele se adiantou. A Fast já tinha cumprido a parte dela, que foi me manter bem suplementada o tempo todo.

Lição número dois: para cada 10 ou 100 inadimplentes e oportunistas em graus diversos , haverá um de confiabilidade absoluta que nos surpreenderá. A Fast é uma empresa pequena. Em verdade, perto das mega corporações da área, minúscula. Eu vi a Fast nascer. Enquanto o apoio integral a um atleta de nível internacional é bico para uma dessas mega corporações, é uma decisão difícil para uma empresa que está crescendo num meio bastante complicado. Engraçado que tenha sido justamente com uma pequena empresa em crescimento que eu tenha contado sempre. Eu gostaria de acreditar na justiça, que a ética empresarial traz vantagens e médio e longo prazo e que a qualidade do produto e serviço rendem vantagem competitiva no Brasil. Queria muito. Porque queria muito que a Fast crescesse e desse um pau nas concorrentes.

Tivemos o apoio de sempre da Jorge Reis ManipulaçãoFarmacêutica, de nossos médicos, Paulo Muzy e Rafael Knack, da academia Esporte Concentração e da Crossfit Brasil. Fora isso, tivemos o apoio real e presença permanente de nossos amigos e família.

Eu vou pular toda a parte do “desapoio”, do massacre de Veranópolis, de ter ido ao encontro da delinquência com uma distensão, voltado com dois tendões rompidos e uma performance arruinada, pular para sempre os horrores dos joguinhos do Fundo de Quintal, infelizmente ainda imprevisíveis para uma ingênua intelectual como eu. Isso tudo eu comento segundo a minha reconstrução, depois, sob o título de “O que aconteceu lá? Aconteceu algo chamado justiça”.

Vou direto para a parte em que tanto Diego como eu estávamos com nossos números em ordem. Os últimos acertos foram feitos e chegou a última semana de pré-contest. De fazer nada ou quase nada e deixar a casa em ordem para sair.

 

 

Polimento (tapering)

O polimento, ou tapering, no powerlifting, é diferente de outros esportes. Por que o estímulo neural é extremo e o tempo de supercompensação e recuperação tão lentos, ou você está pronto, ou não está um mês antes do campeonato. A semana anterior é de descanso e recuperação.

Para quem sai do país, a semana anterior é a de fazer arranjos. No nosso caso, passaríamos um bom tempo fora do país: depois da competição, os planos incluíam uma visita a Columbus, Ohio e depois a nossos parentes que vivem aqui.

Eu acho que tanto para mim quanto para o Diego, a última semana foi de despedida de um mundo que deixamos para sempre para trás. De um jeito ou de outro, todo mundo sabe quando vai de encontro a algo que vai transformar seu destino.

Cena na memória: André, Diego e eu fazendo arrancos e arremessos na powerhouse na sexta-feira, dois dias antes do meu embarque, três antes do embarque do Diego. Do nosso círculo interno, ele foi a última pessoa a nos ver e é a primeira que vou re-ver ao chegar. O André é o elo de um mundo em transição.

 

A viagem e cutting weight

Engraçado que vários amigos acharam tranqüilo que a gente cortasse peso na viagem (cortar peso é a desidratação que é prática comum em vários esportes de luta e força, organizados por categoria de peso corporal). Isso é porque essas pessoas não lembram, nesse momento do conselho, do tempo que levam as filas de entrar e sair do avião, de imigração, de alfândega, de segurança, das imensas extensões que têm que ser percorridas em geral correndo entre um terminal e outro para não se perder a conexão nos aeroportos internacionais e de outras coisas que impedem o acesso imediato à privada para um xixi de emergência. Falando sério: NEM PENSAR cortar peso em viagem internacional. Acho bem possível alguma lesão à bexiga, como eu já tive tendo que segurar xixi.

Cortar peso envolve ingerir enormes quantidades de água e interromper a ingestão para que a eliminação “supercompense” o ganho. Corta-se muito peso assim. Eu cortei algo como 1,5kg apenas, mas o Diego conseguiu cortar bastante. Fizemos isso no hotel, já instalados e em condições de basicamente morar dentro do banheiro.

Por que fazemos isso? Vários motivos: ou não estamos no peso ou para simplesmente melhorar nosso índice de força relativa.

 

Chegando lá: o que é um campeonato mundial de grande porte

Um campeonato de grande porte é bem diferente dos familiares encontros de amigos com os quais estamos acostumados. Não sei o quão bom e ruim é isso – assunto para outro post. O fato é que assim é. São centenas de atletas de dezenas de países. No nosso caso, eram mais de 700 atletas de cerca de 30 países.

O momento mais “familiar” para mim foi a chegada, quando desci e fui encontrar os dirigentes do WPC. Depois disso, era um desfile de caras desconhecidas e idiomas incompreensíveis. Eu acho que mais da metade dos atletas era da Europa Oriental – não sei, não verifiquei os números.

A área de aquecimento tem meia dúzia de cada equipamento (monolift, banco de supino, tablado e peso). O campeonato foi realizado em dois tablados simultaneamente, o que foi criticado por alguns e elogiado por outros. Sim, ocorre atraso, o que enlouquece os organizadores e aperta o andamento geral, pois tudo tem que ser controlado. Afinal, são seis dias de competição.

Os organizadores precisam ser diplomáticos e compor um quadro de árbitros com diversidade nacional para cada round. Afinal, é o título mundial em jogo. A disponibilidade de árbitros é sempre uma questão.

Para alguns atletas, o ambiente é intimidador. Eles andam grudados em suas equipes e fica difícil interagir. Para outros, como foi para nós, é um parque de diversão. No fundo, tudo depende da capacidade de cada um de administrar a relação com um “outro”. Outras nacionalidades são condições de alteridade que muita gente nunca experimentou. Não esquecer, no entanto, que outros marcadores culturais podem ser mais significativos do que nacionalidade, tais como classe e nível educacional. Um russo monoglota é tão monoglota e isolado quanto um brasileiro monoglota. Um checo poliglota é tão hábil e entrosado quanto um colombiano poliglota. Sim, refiro-me respectivamente a Dan Dvorak e Saul Salazar, duas figuras interessantíssimas do powerlifting mundial.

Talvez uma das coisas mais enriquecedoras de um campeonato de grande porte seja precisamente a chance de ter esse tipo de interação e perspectiva multi-cultural. Não conseguimos conversar sobre protocolos de treino das diferentes equipes: por incrível que pareça, não houve tempo. Mas nossa observação dos hábitos de cada grupo não tem preço.

Finalmente, é óbvio que premiação e fila de pesagem são um porre em campeonatos de grande porte.

 

“Where are you from?” “She’s got an issue with that”

Eu saí do Brasil depois de uma decisão que levei cinco anos para tomar: a de abandonar definitivamente qualquer papel organizativo no esporte. Se eu já tinha uma perspectiva bastante negativa sobre o patriotismo e nacionalismo, ela se agravou. De uma reflexão acadêmica, ela afundou com a âncora da desilusão. É a cultura da desonestidade deste país, a conivência dos atletas com as práticas desonestas, que sustenta no Brasil tanto o terrorismo corrupto de uns como a praga do fundo de quintal. Os mais de 10 anos em que voltei a viver aí não me ganharam de volta e eu vim para cá nessa condição de “pessoa de lugar nenhum”. The lifter from Nowhere. Toda vez que nos perguntavam “where are you from?”, eu respondia “I was born in Brazil” (eu nasci no Brasil). A pessoa invariavelmente perguntava “… so, then you are Brazilian?” (então você é brasileira?). Ou eu respondia “no, I’m from nowhere and everywhere” (não, eu sou de lugar nenhum e todos os lugares) ou o Diego se antecipava e dizia “she’s got an issue with that” (ela tem um problema com isso).

 

A fila da pesagem e os russos

A fila da pesagem é um capítulo à parte. No meu dia, fiquei 2h40’ esperando. Motivos: primeiro, os grupos de russos mais ou menos invadiam a sala criando uma confusão com seu número e “I don’t speak English”. Sem tempo para ir atrás de um intérprete, os oficiais ficavam à mercê da “blitz” de caos criada. Eles tiravam seus passaportes, cujos nomes freqüentemente não batiam muito com as listas e criavam mais problemas. A partir do terceiro dia, as filas foram separadas em tempos menores.

Pessoalmente, não tive problema algum com os russos. Pelo contrário: no meu exame de arbitragem, num dos rounds o árbitro central era um russo. Embora sério e pouco interativo, foi muito correto comigo e aprendi bastante com ele (Vladimir Omelkov). Não sei o quanto nossa relação foi influenciada por eu ter compartilhado meu saco de chips de banana com ele. Acho que é intuitivo imaginar o valor afetivo de comida numa circunstância em que se está preso a uma tarefa por seis horas seguidas.

A questão é que a cultura esportiva da equipe russa e outras da Europa Oriental me pareceu diferente das equipes americanas, canadense, australiana e da Europa Ocidental. Primeiro, eles eram menos interativos. Evidente que a barreira lingüística é determinante nesse caso. Segundo, eles andavam em grupos grandes e a ação deles era freqüentemente interpretada como ligeiramente hostil, como “tomar” monolifts e bancos de supino na área de aquecimento. Será que “tomavam” mesmo ou nem se davam conta de que isso era percebido assim? Nunca saberemos. O que sabemos é que os demais atletas viam assim. Em terceiro lugar, não podemos esquecer que a Rússia tem a herança da guerra fria. Herança histórica e cultural é coisa séria.

Enfim, nem tudo são flores em campeonatos de grande porte. O relato ficaria mais bonitinho só com as flores, mas bem menos útil e informativo.

Eu, com minhas três palavras em russo e meu saco de banana chips me dei bem. Até aprendi que eu sou, para eles, uma “brasilianska” (e tudo bem: se é complicado explicar meu “problema” nos idiomas que eu domino, imagine em russo, com um vocabulário de três palavras). Ganhei sorrisos e abraços.

A diversidade

Além da diversidade étnica e nacional, havia a diversidade de gênero e comportamental. É evidente que existe conservador e fundamentalista aqui. Aliás, é a terra onde eles são mais vocais. No entanto, também é a terra da conquista da visibilidade do diferente. Casais gays se expunham sem problemas, mulheres com estética bem alternativa, limítrofe nos estereótipos de gênero, passeavam com seus companheiros ou companheiras, num desfile que liquefaria o cérebro de galinha dos conservadores brasileiros. Imagino uns tipinhos nojentos se perguntando “como aquela mulher que ‘parece um homem’ está ali com um marido? Como ela pode ser hetero? E aquela lésbica com a namorada, não tem vergonha?”

Isso, para mim, é default. Mas minha vida esquizofrênica no Brasil me leva a conviver, ao mesmo tempo, com uma elite cultural transgressora e com um ambiente esportivo xucro e conservador.

Perdão, mas MEU DEUS, QUE ALÍVIO.

 

Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental X America do Sul e Europa Oriental

De novo, isso era predominante nos grupos americanos e da Europa Ocidental. A Europa Oriental parece muito, em quase tudo, com a America Latina.

Infelizmente, isso não transparece apenas no moralismo (ou falso moralismo). Os atletas que dos Estados Unidos e Europa Ocidental que optaram por se distanciar do modelo autoritário anterior no esporte ficavam confusos e apreensivos.

Existem coisas que é consenso que não queremos mais e ponto final. A arbitragem inconsistente da IPF é algo que todos queremos ver longe. Existe uma preocupação seríssima com isso: consistência.

Um olhar mais neutro e etnográfico aponta novamente para a herança histórica. Por mais críticas que se possa ter ao modelo de democracia americano e anglo-saxão de maneira geral, ele criou a convivência pluralista e uma preocupação forte com a equanimidade e consistência. É a maneira de conviver e administrar o conflito permanente. Já países com tradição de ditaduras militares geram cidadãos que rejeitam menos o autoritarismo e inconsistência, o arbítrio e a submissão.

Não há como prever o que isso vai dar no futuro.

 

Fazendo amigos

Diego e eu fomos em dupla, uma dupla de levantadores raw. Isso significa que quando eu estivesse competindo, parte do tempo ele estaria se pesando. Além disso, eu tinha que arbitrar. Eu conhecia algumas pessoas que estariam lá e se propuseram a nos ajudar. No entanto, jamais poderia imaginar que teria um apoio tão incondicional como tivemos de Joel Mott. Joel esteve conosco 100% do tempo e gerenciou nosso aquecimento e estratégia competitiva. Ele pertence a uma equipe bastante experiente e já tinha competido no primeiro dia (só supino). Não há palavras para explicar como se formou uma equipe de “química perfeita” entre pessoas que só se conheciam digitalmente.

Fizemos outros amigos, principalmente entre americanos e ingleses. Eu tinha outros amigos da Finlândia, Colômbia e Argentina, além dos americanos. Todo mundo se ajuda, passa a barra quando precisa e torce, torce muito.

Resultados

A essa altura, a maioria já sabe que eu venci na minha categoria, quebrei os recordes de supino e total do WPC e que o Diego ganhou a medalha de prata na categoria até 82kg open. Vamos qualificar estes resultados. Eu sabia que era a favorita e que outras atletas mudam e mudaram de categoria para “escapar” de mim. Nem sei o quanto isso rolou neste campeonato: uma das coisas que eu decidi foi não me preocupar com as adversárias. O que foi um erro já comentado em outro artigo.

Pois é, eu era a favorita e quase perdi. Ganhei por 2,5kg. Opa, foi emocionante, mas também foi um chacoalhão. Escutar da Taylor que a equipe dela me estudou para criar uma estratégia foi ao mesmo tempo enaltecedor e um tapa na cara. É óbvio que haverá outras mulheres até 60kg bem fortes por aí e elas estarão me esperando nos tablados do mundo.

Ganhei, além disso, com números menores do que os planejados. Não cabe aqui discutir os motivos.

A vitória do Diego, no entanto, teve outro sabor. Em primeiro lugar, esta é a primeira competição de powerlifting da vida dele. Embora ele tenha sido atleta de alta performance em outros esportes (lutas, principalmente), nunca tinha subido num tablado. Competiu com todo o controle do mundo contra atletas muito fortes. Mais importante que tudo, ao meu ver, fez de todos os seus levantamentos PRs (recordes pessoais). Essa é a marca dos grandes levantadores de peso: ser capaz de se superar no tablado.

Eu nunca tinha visto algo assim. O que o futuro reserva para ele como atleta de powerlifting, não há como prever exceto que será emocionante acompanhar.

Tive um profundo orgulho do desempenho do Diego.

 

Deixando os amigos

Dizer adeus a alguns dos amigos feitos e re-encontrados foi difícil. São pessoas que vivem com a gente talvez o momento mais intenso do ano, em todos os sentidos. Não há como isso não criar um vínculo forte. Separar-se deles dá uma sensação de orfandade. O bom é que renova a vontade de voltar a vê-los no ano seguinte.

 

A virada no destino

Este item é pequeno porque é subjetivo e em grande medida íntimo. É muito difícil que um evento deste porte seja desimportante. No entanto, muitas vezes coincide com momentos de transição em nossas vidas. São charadas do destino que nunca vou entender.

De minha parte, posso dizer que uma Marilia morreu lá por Setembro. Essa outra que nasceu, ainda testando suas forças, subiu no pódio em novembro.

A vida é feita destas descontinuidades e também das continuidades. Continuamos com nossa “matriz fundamental”, continuamos com nosso genoma, nossos amigos e família, continuamos powerlifters.

Não há dúvida, porém, que depois de Las Vegas uma transição se completou.

 

Aeroporto de Columbus, portão 34

Eu usei muitas vezes o pronome “nós”. “Nós” se refere ao Diego Figueroa e a mim. Estivemos juntos do momento da decisão, planejamento, viagem, competição, aventuras em Ohio e muita, muita troca de idéias e experiências. Compartilhamos quartos, copos, whey, comida suor e, da minha parte, até lágrimas e vômito. É muita intimidade, é quase como voltar a uma infância que eu nunca tive com um irmãozinho que eu nunca tive, com o qual se brinca, se briga, se joga travesseiro, baba na cama do outro e se partilha os sonhos mais inconfessáveis.

Vira uma parte de nós mesmos.

Ver o Diego embarcar para Miami no portão 34 do aeroporto de Columbus foi estranhíssimo. Talvez só menos estranho porque no meu futuro e projetos, lá está ele de novo.

O aço cria elos fortes.

  • MARCELO

    Muito interessante o relato; deu pra mergulhar na viagem. Só queria fazer duas observações:

    1) O fato de a Fast ter comprado a ideia e outras empresas maiores não é compreensível. Há inúmeras empresas de grandes portes que o custo-benefício em patrocinar uma atleta desconhecida em um esporte desconhecido, não vale à pena; é mais rentável patrocinar atletas cuja imagem trazem mais retorno;

    2) Me identifico muito com muita coisa que vc escreve nas questões pessoais e tb estou passando por um momento de transição.. mas no meu caso, sou muito mais introspectivo que vc.

  • Lucas

    Eu adorei a sua história, você tem um vocabulário de dar inveja!!! Meus parabéns pela vitoria merecida!!!

  • Santos, E. J.

    Eu desisti do “powerlifting” existente no Brasil. E tudo aconteceu de uma hora para a outra no mesmo evento fatídico no qual, numa conversa filosófica com a Dra Marília, abdiquei de uma alternativa incerta para arriscar a que era mais provável. Deu certo, estou prestes a conquistar a mais provável, esta semana será realizada a minha entrevista para o doutorado, e afirmo que é muito mais difícil do que ser campeão de “powerlifting” em federações obscuras. Meu objetivo de testar meus limites não foi alcançado totalmente nas competições das quais participei, mas descobri que sou capaz de muito mais do que eu mesmo imaginava. Levantar pesos e superar meus limites, isso farei a vida inteira: é da minha própria natureza. Mas competir é outra história. É muito legal competir entre os melhores, mas se torna desinteressante competir entre os mais vaidosos. Há trocentas federações com regras próprias, com campeonatos mundiais e tudo. “Mas por que essa cisão?”, eu me perguntava. “Campeonato mundial é mundial e pronto, vence o mais forte!”, era a imagem que eu tinha de uma competição de um único esporte quando realizada visando confrontar os mais qualificados do planeta. Mas não é isso que vejo. Vejo competições onde pessoas que não sabem executar o movimento do levantamento de maneira correta aprendem minutos antes da competição e saem campeões e campeãs, onde “atletas” que “recomeçaram” a treinar na semana anterior também. Ou, ainda, pessoas imensas com resultados abaixo do medíocre e sendo consideradas “atletas”, outros, com lesões maiores que o próprio músculo e que se orgulham de terem se lesionado. Não que se orgulhar de uma lesão improvável seja condenável (lesões podem ocorrer por inúmeros motivos), mas se orgulhar da própria estultice e negligência é demais para mim.

    Aqui aparecer é uma necessidade para muitos. O sonho de muitas pessoas é ter sua imagem exibida num programa televisivo qualquer. O objetivo da vida de boa parte das pessoas é a fama, é o dinheiro, nem que isso custe a saúde ou a carreira de outra pessoa, quiçá a vida. Parecer melhor do que se é, eis o objetivo. Eu estou de saco cheio e confuso mesmo, mas não perdi (completamente) a lucidez. De saco cheio por conta de não vislumbrar uma solução para o amálgama de vaidade e corrupção (em amplo sentido) que se formou na cabecinha das pessoas em geral; confuso por viver em um lugar onde o justo é considerado o malvado é deprimente demais. A histeria coletiva de tentar ser famoso a todo custo é evidente, mesmo que seja na própria cidade onde se viveu a vida toda ou no bairro donde nunca se saiu, culturalmente falando.

    E o “jeitinho” já não é tomado como sinônimo de malandragem, mas sim de uma lógica paraconsistente onde há sempre uma “alternativa” para o problema em questão, quase sempre ilícita. Pensar, aqui, é perigoso, melhor fingir que não se vê. Mas e quando se vê e não se pode falar sobre? Bem, aí é coisa de ditadura e seria uma contradição pensar isso de uma óbvia “democracia”, não é? E o que eu posso dizer a respeito de ser um cidadão comum sem privilégios perante as leis, mas oprimido por uma bandidagem travestida de mocinho?

    Eu gostaria muito de ter a liberdade de ser eu mesmo, mas é perigoso demais, pois incomoda demais. Eu acredito em justiça, eu sonho com liberdade e tento ser coerente comigo mesmo em minhas atitudes. Parece algo frugal, mas não o é.

    Minha vontade de vencer é maior que minha desolação, por isso entrei em standby, só saio desse estado quando julgar estar pronto para a luta, ou quando estiver entediado demais. Eu transformei minha revolta e tristeza em estímulo de batalha. É a mesma concentração energética e mental imediatamente anterior a um levantamento numa competição, só que com um escopo de ação muito mais amplo e, consequentemente, de menor intensidade.

    Iniciei no basismo por motivos análogos aos da minha amiga Marília, fui diagnosticado com F31.4, medicado pesadamente, e só deixei os medicamentos por conta de minha força de vontade e dos exercícios. Comecei a competir, obtive vitórias improváveis por conta de estratégias melhores. E obtive vitórias difíceis quando poderiam ser fáceis. E tudo com o mínimo de informação (aprendi a treinar muito mais lendo do que sendo orientado), o mínimo de suplementação (sem dinheiro sequer para me inscrever nos campeonatos pagando taxas absurdas e me deslocar até o local), e pouquíssimo incentivo. Em 1 ano eu atingi um patamar inimaginável para eu mesmo anteriormente mas, também, em 1 ano perdi a vontade de me submeter ao sistema vigente e, consequentemente, de competir. Quem sabe um dia eu me julgue preparado novamente? Tenho a alma de um guerreiro, mas não luto qualquer batalha. Tem que valer a pena. E tem que ser justo. Mas se for para lutar contra um sistema opressor, é preciso estar preparado para muito mais. E é para isso que estou me preparando.

    Meus parabéns a você, Marília, pelo seu esforço, resultados, e pela sua coerência consigo mesma. Nem que seja em Asgaard voltaremos a nos encontrar num campeonato. Porém, prefiro acreditar da minha forma ainda docemente inocente que isso ocorrerá mais brevemente e em algum lugar aqui mesmo, mas distante de toda essa insensatez que pretende nos sufocar.

    • Nos encontraremos sempre, EJS, e tenho para mim que esse período de “cocoon” em que você precisa se recolher terá uma duração relativamente curta. O suficiente para que você saia dela para um ambiente que lhe faça sentido. E eu estarei sempre ao seu lado.