Minha filha resolveu transferir o quarto dela para uma edícula onde eu armazenava livros que consultava com menos frequência. Então ela está organizando a biblioteca toda, por assuntos. Uma hora ela entrou aqui e disse: “como pode tanto livro? Como você consome tanta informação?”
Bom, a resposta é complicada, ou existem várias respostas. Uma é que uma trajetória maluca e muito mista como a minha resulta nisso: acumula-se desde livros-texto de fisiologia humana e bioquímia, passando por estatística, teoria do Estado, historia da Teoria da Evolução e linguística aplicada a metáforas. Além das milhares de ramificações e suportes teóricos em sociologia, antropologia, química orgânica, etc., etc. É livro pra caralho (hoje, é *.pdf pra caralho).
A outra resposta é que, para certas pessoas, acho que informação dá barato. Sempre fiquei encafifada com a frase da música Californication do Red Hot Chilli Peppers: “a teenage girl with a baby inside gettin high on information”. É em “information” mesmo?
É sim. Bom, eu sempre “got high on information”. Talvez por isso e por outras características neurológicas minhas, nunca tenha escrito livros, e sim muitos pequenos textos (às vezes não tão pequenos, mas organizados em torno de um conjunto bem definido de informações). O desafio de encontrar a informação me excita, é como um jogo muito divertido, o jogo mais divertido para se brincar a qualquer hora. Mas depois que se ganha a partida, perde a graça e é preciso inventar outro tema.
Isso não quer dizer que eu não tenha projetos intelectuais, não persiga “linhas” de argumentos, etc., mas o jogo em si é estimulante.
Por outro lado, quando eu vejo que os outros jogadores, com outras perspectivas, também lucram, fico contente. Os outros jogadores são os que me buscam por informação. Às vezes eu tenho a impressão de que, muito de leve, durante o jogo, a visibilidade da realidade para os jogadores fica mais profunda. Aparecem novas camadas do real. Se eu consigo isso, realmente me sinto realizada. Se eu consigo, com a informação que forneço, que o outro jogador perceba, digamos, a vitamina da bolinha que ele toma de manhã de outra forma, consiga “enxergá-la” caminhando por dentro do seu corpo e fazendo as coisas que ela deve fazer, eu ganhei a partida.
Então me lembro de um brinquedo que me deram quando eu tinha uns 9 anos que se chamava “the visible woman”. Era um desses modelos de plástico com peças que a pessoa fica laboriosamente colando, pintando e montando. E o resultado era uma mulher transparente com todos os órgãos visíveis, tridimensional, uma bonecona. Era um brinquedo muito legal, pois embora eu vivesse num mundo de textos e imagens (bi-dimensionais) sobre tudo que diz respeito à realidade biológica, aquela coisa em três dimensões, onde eu podia ver o pâncreas da mulher e onde ele fica em relação ao intestino e aos rins, foi revolucionária.
Esqueci o brinquedo, mas continuei cada vez mais “gettin’ high on information” e as mulheres, os homens, os cachorros, as bactérias, o planeta e o universo continuaram desse mesmo jeito para mim, coisas que se deve olhar em transparência, no maior número possível de camadas visíveis.
Tem horas que esse olhar em camadas perturba. Dá vontade de voltar a olhar o mundo na sua textura mais superficial, mas não dá mais: anos e anos brincando de get high on information tornam o olhar em transparência irreversível. Pode até dar um pouco de desespero essa condição. Uma coisa meio insana. Fica-se com vontade de mandar a multi-disciplinaridade pra puta que pariu.
Outras horas, eu vejo que devo a esse olhar em transparência minha sanidade e talvez sobrevivência, particularmente no que diz respeito ao meu corpo (onde eu incluo o meu cérebro, naturalmente). É só através dessa capacidade de enxergar as camadas de informação, de enxergar inclusive aquelas que estão lá, mas cujo conteúdo não conheço ou ninguém conhece, é que pude ter um mínimo de controle sobre mim mesma. Para certas pessoas, como eu, isso pode representar a diferença entre estar vivo ou morrer. Para outras, vai representar a diferença entre uma vida de qualidade melhor ou pior. Mas sempre fará diferença, e muita.
Assim, eu acho que não vou abandonar mais meu projeto “visible people” e vou continuar cultivando essa minha (talvez não tão inocente) adicção, a de “get high on information”. Nessa, eu topo ser traficante!

Marilia


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