“De pé, ó vítimas da fome – de pé, famélicos da terra…”, diz a primeira estrofe do hino comunista “A Internacional”. O hino “L’Internationale” foi escrito por Adolphe Degeyter em 1888. Cento e quatorze anos depois, o PT criou a campanha “Fome Zero”, como carro-chefe de sua política social. Um probleminha: o Brasil não é um país caracterizado pela fome – há fome em bolsões isolados e demograficamente pouco relevantes. Fome se caracteriza pela alta proporção de “adultos magros”, assim identificados pela Organização Mundial de Saúde como a porcentagem de adultos com Índice de Massa Corporal menor que 18. O principal problema nutricional no Brasil, fator de risco associado às mais importantes causas de morte, é a obesidade – não a fome. Além disso, a obesidade e o sobre-peso afetam predominantemente as classes ecomicamente mais desfavorecidas (veja entrevista com o nutricionista Carlos Augusto Monteiro http://revistapesquisa.fapesp.br:2222/transform.php?xml=8/1/20050518/200505111/pt/SEC5_1.xml&xsl=xsl/pt/article.xsl&transf=normal&id=SEC5_1&lang=pt). Esse é um caso paradigmático de ideologização do corpo. A cristalização conceitual da esquerda se expandiu para sua representação do mundo, que não se atualiza nem sob a pressão das mais eloquentes evidências científicas. O mundo é aquele, da Internacional: famélicos proletários clamando por justiça sob a forma de uma revolução obsoleta. O PT e toda a esquerda velha, com seu desprezo pela boa ciência, criaram um corpo artificial para o pobre brasileiro.

Agora a maioria dessa galera virou natureba – é o maximo de modernização que eles atingem. Na minha adolescência, quando eu vivia sob o cabresto duro deles, não era assim: era bonito comer porcaria, beber muito, fumar (mas nunca cheirar ou fumar maconha, coisas, para eles, “pequeno-burguesas”). Passou a ser bonito comer alpiste e leite de soja, não comer carne e queimar incenso. Quando vou nos restaurantes naturebas com meus amigos, observo que o aspecto do corpo deles não mudou nada com a “mudança de hábitos”. Continua uma merda. Mas eles se representam de outra forma – criaram uma versão pasteurizada do conceito de saúde.

Quando eu era adolescente, quando os naturebas eram a “patrulha odara”, quando eu andava sob o cabresto da esquerda burra, a única beleza aceitável era a Sônia Braga – morena, cabelos crespos e o que, eles achavam, seriam traços negróides (não eram porra nenhuma). Na verdade, era a versão Sonia Braga da Gabriela, do igualmente politicamente correto Jorge Amado. Era o jeito deles de dizer que a brasileira era bela. Mas a “brasileira” nunca foi a Sonia Braga… Me lembro dos posteres da Sonia Braga nos quartos dos amigos do meu irmão. E do meu horror ao não conseguir passar do vermelho-camarão sob o sol escaldante de Vitória, Espírito Santo.

Marilia


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