A gravidez e o parto foram, nas sociedades pré-modernas e tradicionais, o domínio das mulheres. Nesse tempo ou circunstâncias, eram processos corriqueiros, parte do ciclo da vida e administrados com certa trivialidade. A mobilidade nunca foi um problema. Penso até que não era sequer questionada.

Desde sempre, no entanto, houve uma certa tentativa de coerção, já que são os eventos da vida social onde a natureza invade o mundo da cultura, do arbítrio, da vontade humana (e dos homens). As mulheres sempre representaram esse perigoso veículo do mundo caótico da natureza sobre o mundo arbitrário da cultura, e daí todas as medidas disciplinares sobre elas e suas explosões de naturalidade: menstruação, gravidez, parto e humores inexplicáveis.

Lá pelo Renscimento a segunda tendência venceu e a gravidez e parto foram medicalizados: as mulheres se tornaram secundárias, incluindo a própria parturiente, e os homens, agora cirurgiões e médicos, se tornaram os protagonistas do ato. Da posição ativa de cócoras, fazendo força, a mulher foi deitada na passiva impossibilidade de participar. As outras mulheres no máximo ajudavam.

Com a transferência para hospitais, os partos ganharam a macabra condição de riscos letais de grande magnitude, com altas taxas de infecção puerperal. Até que se descobrissem os princípios da assepsia no século XVIII, parir era perigoso.

Assim, o passo entre a medicalização e a patologização da gravidez e do parto foi curto. Grávidas se tornaram “pacientes” – passivas e doentes.

Gente passiva e doente é sedentária.

Forma-se assim o círculo vicioso da morbidade no que naturalmente jamais o foi.