Hoje recebi um recado triste, ou ofensivo ou, talvez, pior, opressivo.
O autor foi um indivíduo da profissão médica, trantando de alguém da minha família.
Esse indivíduo sugeriu duas coisas: a primeira, que seria falsa minha conclusão quanto a ser refratária a tratamento medicamentoso. A segunda, que seria uma expressão de imoral egoísmo da minha parte em relação aos “que me amam” deixar de me submeter a novos tratamentos medicamentosos.
Existe algo de ideológico, no pior sentido possível, nessas sugestões. Algo que eu rejeito e contra o qual lutarei com toda a força possível, sempre que puder, sempre que a luta não for covarde.
Vejamos por que.
Em primeiro lugar, esse indivíduo tem conhecimento de que eu passei por cerca de meia centena de estratégias medicamentosas distintas, combinações variadas de cerca de 30 medicamentos disponíveis no mercado. Houve uma ocasião em que contei onze componentes diferentes no “combo” que eu consumia, que deletava minha consciência na dose sete, ingerida às 21h.
Hoje, esse profissional argumentou com meu familiar que existem outras centenas de medicamentos disponíveis e que não há nenhum indivíduo que se possa reivindicar refratário. Verdade: existem centenas de medicamentos. Eu apenas fiz questão de escolher aqueles associados a um menor número de efeitos colaterais indesejados. As outras “centenas” dão até medo de chegar perto. Quanto a não existirem pacientes refratários, só posso assumir que se trata de algum tipo de burrice ou cegueira voluntária, já que existem dados abundantes na casuística médica e eu mesma participei por anos de grupos internacionais de pacientes onde a MAIORIA sofria sem grandes melhoras por uma vida inteira (vários aposentados por invalidez pela doença, idosos e outros em condições indescritíveis), sob variadíssimos regimes de administração de drogas. Verdade: estavam vivos. Do meu ponto de vista, só posso lamentar que estivessem – a morte seria mais benévola.
Hoje tenho condições muito objetivas para afirmar: antes do ano de 2004, houve um único período em que minha vida não foi miseravelmente infeliz: o ano de 1977, quando fui uma atleta competitiva treinando 5 horas por dia. A partir de 2004, sem medicamentos, voltei à minha condição de atleta – e finalmente conquistei algo que se pode chamar de vida. O resto dos meus 42 anos foi uma sucessão de períodos sob tratamento medicamentoso e períodos “secos”, mas sem atividade física INTENSA: sempre a mesma merda. Será que é muito difícil para esse indivíduo, formado numa boa universidade brasileira, tirar uma conclusão óbvia dessa trajetória? Não me parece complicado.
O problema, para esse profissional, é que o risco de morte, no meu caso, é muito real. E, do ponto de vista dele, justificativa suficiente para que eu me submeta a novas investidas farmacológicas contra o meu corpo.
Por que “contra”? Porque não há nenhuma alternativa ao meu dispor que deixe de afetar as componentes básicas da minha qualidade de vida: 1. minha libido; 2. o metabolismo energético que me permite hipertrofia muscular e composição corporal adequada à minha auto-imagem; 3. meu tesão pela vida.
Esse indivíduo da profissão médica, como um outro que há anos me agrediu por reclamar dos efeitos colaterais de uma droga do demônio que eu suportei por duas semanas, adere a um princípio de parte da comunidade médica segundo o qual o paciente não deve se rebelar contra efeitos colaterais dos tratamentos. Afinal, são “colaterais”. O “central” é a manutenção fisiológica da vida. E esse fim justificaria todos os meios.
Não há nada de científico nisso. Trata-se de um princípio religioso. E como tal, de maneira nenhuma pode ser imposto com autoridade, como a autoridade profissional ou científica permitem. Não há rigorosamente nada de racional no argumento de que a vida se justifica a qualquer preço.
Eu não ficaria ofendida se esse indivíduo alegasse um motivo religioso, do tipo que uma força superior teria me concedido um corpo e eu deveria zelar por ele, ainda que dele só restasse uma sombra apodrecida no final da luta por sua manutenção.
Mas não: o indivíduo em questão sugeriu que me faltaria amor pelos que me amam, motivação que seria suficiente para o sacrifício supremo de abrir mão de meu próprio corpo como o conheço.
Mais uma vez, verdade: não há ninguém no mundo por quem eu sinta amor suficiente que justifique eu permitir que meu corpo e minha vitalidade sejam desintegrados pelos efeitos “colaterais” das drogas. Um amor como esse, só posso qualificar de mórbido. Felizmente, não sinto amor mórbido por meus irmãos, filha, pais ou amigos. Sinto um amor que me move a buscar ser feliz ao lado deles – nunca infeliz.
Algo em mim aponta para uma perversidade suprema dessa atitude de uma parcela até que grande da comunidade médica, que festeja os sucessos da indústria farmacêutica diante de legiões de mortos-vivos.

Marilia


BodyStuff

  • Anônimo

    Marilia..

    Ouvir que deves tomar medicamentos por amor a teus familiares,acredito ser uma blasfêmia! Deves tomar,ou fazer qqer coisa,primeiro em amor a ti!A proposta deste profissional é – viva infeliz! Mas não deixes teus familiares sofrer! Loucura total!E que família vai querer alguém sofrendo,só para se manter vivo? Só mto louca…Olha,acredito que só tu podes avaliar tuas condições e saber como estás te sentindo!Procura te ouvir! Eu sou partidária de viver bem,mesmo que isto implique em viver menos!Pois viver,mal e muito,só para dizer que está viva ,não faz parte de minha ideologia! Eu mesmo,estou fazendo reposição hormonal com contra-indicação , pois minha mãe fez um cancer de seio,portanto não seria indicado no meu caso,mas entre viver menos tempo,mas viver bem,foi minha opção!portanto…

  • Anônimo

    marília:
    remédios para combater o “risco de morte”???
    e não estão todos os seres vivos sob constante risco de morte, independente do estado emocional? começando mesmo a partir de quando somos gerados, não estamos sempre “morrendo”?
    não é risco de morte sair de casa e enfrentar o trânsito de uma cidade como são Paulo? não há risco de morte na comida contaminada que consumimos, nas relações destrutivas tecidas entre conhecidos, no trabalho, na comunidade e etc? não podemos a qualquer instante ter um mal súbito, um avc, um infarto, um ataque de pânico, uma vontade infinita de sumir do mapa??
    esse profissional, me perdoe o que vou dizer, babaca, medíocre e covarde, não está, ele mesmo, com medo do risco de morte que pesa sobre a própria cabeça, a todo momento, e só vai deixar de existir quando ele estiver morto??? ou será que a arrogância desse profissional é tamanha que ele se julga eterno?
    risco de morte sofremos todos e por inúmeros motivos, externos, genéticos, emocionais, do mundo, da vida que se esgota naturalmente e que tem que se esgotar cumprindo um ciclo único.
    marília, acho que vc tem corrido, sim, um sério risco mas é de vida… vc tem estado muito viva e isso incomoda, isso ofende aos meio-vivos, isso amola os mortos-vivos e vc estar viva, sem remédios, e sim pelas sua própria vontade e talento de transformar seu corpo e sua cabeça, incomoda muito mais… eu já estive dopada, dependente desses remédios monstruosos, sem libido, sem orgasmo…esses remédios secam a gente por dentro e por fora, eles nos deixam robóticos, sem emoção. sinceramente, prefiro minha tristeza natural a voltar a ser uma morta-viva. sinceramente eu prefiro correr todos os riscos de morte e de vida mas participar do jogo, me sentir atuante e não sentada na arquibancada e meio babando e meio tremendo e meio sem saber o que estaria fazendo ali…
    mande à merda esse profissional respeitado…quanto mais respeitado mais à merda ele deve ir. ele que entupa o próprio rabo de antidepressivos e que tais e fique sentado na própria falta de fé em si mesmo e falta de fé na capacidade de transformação que vc esfrega na cara dele e na cara de quem acredita que só remédio pode dar jeito nesse nosso “risco de morte”…
    vc morreu inúmeras vezes…hoje vc está muito viva…não desista disso, corra todos os seus riscos de vida… o profissional pedante está em outro núvel e universo…dê a ele suas lindas e malhadas e desenhadas e únicas COSTAS…
    BEIJO, ANA CARDILHO

    • Anônimo

      Ana Cardilho!

      Estou emocionada com teu depoimento! vc disse tudo que eu pensei e não soube transformar em idéias! Fantástica…Isto é vida Marilia,ter uma pessoa assim no teu rol de amigos! A Ana falou algo que sei bem o que é – incomodar os outros por estar na vida e querendo vive-lá do jeito que temos e pudemos…E vc poder viver sem precisar do que faz este homem se sentir forte , tomando seus remédios!É mata-lo um pouco…Beijos nestas mentes iluminadas..