Você leu certo: não é “a face da reconstrução”. É a reconstrução da face, rosto, cara mesmo.

Eu achava fútil qualquer preocupação com o rosto. Usei um pouco de ácido retinóico uma vez para uma acne que me irritava, e só. Não usava nenhum produto para cuidado da pele, não uso maquiagem e mal e mal lembrava (de vez em quando) de passar protetor solar.

Até que aconteceu a catástrofe fisiológica do anti-doping. Ah, ok, já admiti que não devia ter entrado na nóia alheia de me adequar às normas de federação besta nenhuma, e, pior, admiti que tinha conhecimento suficiente para suspeitar que sofreria efeitos colaterais pelo uso de testosteronas de meia-vida curta em doses mais altas. O que eu não sabia é que dois meses de uso fariam o estrago que fizeram.

Demorei para notar qualquer mudança. Vi que minha pele ficou excessivamente oleosa, lavava o rosto toda hora, mas nem me olhar no espelho eu olhava muito. Sempre tive um rosto ok (era o ponto alto da minha estética antes de “reconstruir” o corpo), de modo que não prestei atenção. Como dizia um namorado que eu tive, eu “took for granted” (tomei como certa, não dei bola porque assumi como garantida) minha beleza e enfiei o pé na jaca.

De mais a mais, quando eu observava as feições das atletas de figure ou fisiculturismo feminino, assumia que as alterações nos rostos delas eram principalmente função da dieta e outras eram “assim mesmo”. Minha atenção era tão quase que exclusiva no shape e performance esportiva, que nem ler a respeito dos colaterais no rosto eu lia.

Um dia, em Brasília, pouco depois de parar de tomar bomba de homem, escutei meu amigo Caramello, já de saco cheio de me alertar para os riscos do que eu fazia com droga, dizendo: “você está feia – sua pele está um lixo”.

Não era brincadeira. Ele fala assim mesmo e era para me dar um chacoalhão. Fui ao banheiro olhar no espelho e ele apontou: perdi a gordura feminina sob as maçãs, a pele estava oleosa e com textura de casca de laranja, havia marcas por toda a pele e uma estranha retenção perto do maxilar deformava meu rosto. E pelos: pelos por toda a parte.

Levei um choque, mas não fiquei deprimida. Foi o início de uma estranha viagem por um outro aspecto da minha identidade. Lembrei do Laerte, meu irmão, falando sobre a mentira do espelho: o espelho só mostra o que queremos que ele mostre. Pensei na escultura do auto-retrato, do quanto eu escolhia ângulos ao me fotografar e brincava com filtros no Photoshop. Olhei em volta e vi que o único espelho que eu realmente usava era o de aproximação. Virei-o do lado não aumentado e observei: era outra Marilia.

Os pelos não diminuíam. Em algumas áreas de pele muito fina do rosto, como embaixo do queijo, perto do pescoço, arrancá-los causava inflamação e dor por dias. Em outras, espinhas feias onde eram os bulbos. Desinfetantes e sabonetes especiais não resolviam.

O cabelo caía aos tufos há tempos. O que eu não percebia é que, sim, estavam formando uma linha de calvície masculina – ninguém via, mas, nesse dia, eu sim.

O elemento definitivo, no entanto, foram os olhos: quando me dei conta de que o formato dos meus havia mudado, decidi que consertar o estrago resultante da minha irresponsabilidade seria prioridade a partir de agora.

Futilidade? Não mesmo! Envergonhada, admiti que, do alto da minha segurança estética, desprezei, no passado, o sofrimento de muitas mulheres com seus rostos por pura falta de experiência com essa dimensão da perda da identidade. Pois a primeira coisa que vemos quando nos olhamos no espelho são nossos olhos e nossa expressão facial. Se há algo que não gostamos ali, a rejeição ao todo é inevitável. Começa a perda vertiginosa da auto-estima.

Comprei todos os produtos que minha amiga e dermatologista Larissa havia me receitado meses antes. Em quatro dias, o ácido teve o efeito esperado: a acne foi dramaticamente reduzida, a pele ficou irritada e sua textura se alterou.

Assim que tirei a bota da perna, marquei consulta com ela. Ontem foi a primeira de um longo tratamento. Planejamos peelings e outras intervenções que, segundo Larissa, devem recuperar quase tudo que perdi. Ela acha que será desnecessário uma intervenção cirúrgica nesse momento. Mesmo assim, estou preparada para o caso de ser.

Ontem mesmo ela me encaminhou a uma clínica de tratamento estético e fiz minha primeira aplicação de lazer para remoção de pelos com a Thelma, sua colega, também dermatologista. Thelma me alertou quanto a riscos, cuidados a serem tomados e procedimentos. Disse que o tratamento requer paciência e perseverança. Isso eu tenho. Que requer disciplina. Também tenho. E resistência à dor. Tenho de sobra.

Ela colocou o protetor de olhos em mim e espalhou o gel. Então senti os pequenos disparos acompanhados por clarões vermelhos que percebia através das pálpebras fechadas. Não é exatamente indolor, mas é uma dor bem-vinda se acompanhada da promessa de terminar a dor quase diária de arrancar os pelos da face.

Me senti um frango sendo depenado para um prato de galinha a Cabidela, um estranho cheiro de queratina queimada pelo ar.

Por alguns dias, devo usar um produto anti-inflamatório no rosto e muito protetor solar. Hoje já me repreendi ao me dar conta de ter ido lá fora dar comida aos cães sem protetor. É outra rotina, outras preocupações. Do mesmo jeito que hoje é natural para mim tomar whey e outros suplementos, com muita disciplina, alongar antes do treino e tomar água sem sede, sei que vou incorporar os procedimentos de cuidados com a saúde da pele. Sei também que são para sempre. E sei que as modificações vão aparecer a longo prazo.

Não: não é fútil dar atenção à pele e ao rosto em particular. O rosto é a sede da expressão de nossas emoções. Os olhos, dizem ser o “espelho da alma”.

Mais uma viagem de re-construção e integração.

A minha cara!

 

Marilia

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