Uma vez eu disse a alguém que “virtual” não se opõe a “real”, e sim a “presencial”. Talvez porque eu tenha sido professora e autora de uma disciplina virtual, ou melhor, de uma versão virtual de uma disciplina regular de uma universidade muito real – a UnB – com estudantes muito reais e essa experiência tenha me marcado. Talvez porque eu tenha feito parte de grandes comunidades muito, muito reais, baseadas em condições dramáticas (fiz parte de uma comunidade de sobreviventes de câncer, porque era esposa de um, e de uma comunidade de portadores de desordem bipolar, porque sou portadora), mais concretas e reais impossível. De modo que para mim, as relações baseadas na comunicação digital são tão ou mais reais do que a comunicação que se dá na “contiguidade dos corpos”.
Outra vez eu disse que as dimensões “virtual” e “presencial” davam ao “comunicador” a oportunidade de explorar diferentes aspectos de sua existência, talvez de um jeito que seria impossível quando tínhamos apenas o contato presencial. Como eu viví essa transição entre um mundo onde esforços sobre-humanos eram dispendidos para proporcionar contato presencial entre, digamos, cientistas (que era o que eu era) – já que o contato virtual ainda era precário – e um mundo onde isso é apenas o complemento de uma interação quase que suficiente para tudo que diz respeito a cooperação intelectual, acho que consigo avaliar as diferenças.
A existência virtual permite que façamos recurso a inúmeras mídias que separam as várias camadas da percepção que os outros têm de nós. Podemos exibir fotografias em que alguns aspectos nossos sejam super-enfatizados e outros ocultados. Mesmo acreditando que sempre construimos – consciente ou inconscientemente – nossas imagens, a construção virtual é mais versátil.
E os afetos? Faz diferença que a interação predominante ou até exclusiva com os outros que amamos seja virtual?
Hoje eu tenho certeza que não.
Ok, tá bom: talvez existam variações individuais muito grandes. Talvez a minha excessiva familiaridade e dextreza relativa com a palavra escrita, e enorme dificuldade com o contato pessoal influa na minha percepção e vivência disso. Mas a superficialidade das relações presenciais é tão grande quanto das virtuais e a profundidade das virtuais tão grande ou maior que as presenciais.
Sim, muitas vezes maior. Protegida do contato olho a olho e da minha hesitação verbal, tenho certeza de que me expus muito mais e talvez tenha me entregue muito mais em interações virtuais. Talvez tenha sido muito mais eu mesma. Talvez exista uma versão mais real de mim mesma, embora menos corpórea (por irônico que seja escrever isso num blog/site de título BODYSTUFF) aqui, onde declaro minhas idéias e experiências, e nos espaços que eu deliberadamente abro para poucos. Muito poucos.
Um destes muito poucos, a quem conheci, aprendi a respeitar e depois a amar nestes espaços, vive em Brasília. Talvez por eu ter vivido naquela cidade, talvez por ele ocupar um lugar lá, talvez porque tudo que eu viví lá tenha ficado inacabado, para mim era como se ele estivesse “logo alí”. Era um logo alí mais chato, meio caro. Mas sempre havia essa perspectiva de que “o mês que vem” estarei lá.
Eu era consultora de um órgão inter-governamental, a Bireme, e havia a perspectiva desse “o mês que vem”. Uma vez aconteceu e nos vimos por meros 40 minutos. Mas foi como se nos conhecêssemos desde sempre.
Voltei para São Paulo e Brasília continuou “logo alí”, ao alcance da mão, como ele estava ao alcance dos meus braços.
Minha consultoria com a Bireme foi interrompida, mas quase que na mesma época fiquei sabendo sobre uma promoção da Gol que reduzia o custo do vôo para Brasília quase que a uma viagem de ônibus para o interior. Merreca.
E assim, Brasília continuou “logo alí”.
Fizemos planos, junto com outros habitantes igualmente virtuais, igualmente reais, de Brasilia, para realizar encontros, workshops, festas, rodízios de carne e pizza.
Não havia tanta pressa, pois Basília era “logo alí”.
Hoje esta criatura real, a quem eu chamo de BGM e que me chama de LRW, iniciais cujo significado jamais revelarei, me disse que possivelmente deixaria Brasília.
Tive um primeiro choque – afinal, e todos os nossos planos, nossas pizzas, nossos estudos, nossos… Mas logo veio um segundo, muito pior: talvez seu destino fosse uma cidade do Nordeste.
Bem… Essa cidade NÃO fica “logo alí”. Acabou o “logo ali”.
Foi como se meus braços, provisoriamente ociosos, ficassem permanentemente vazios. Algo foi arrancado.
Não soube dar nome ao que senti, mas foi ruim e me deu muita vontade de chorar. No entanto, o problema que ele vivia era muito mais sério e senti vergonha da minha tristeza egoísta. Botei a culpa na TPM, o que é mentira, já que ela terminou ontem. Me parecia sacanagem sofrer pela minha estranha e irracional perda quando ele enfrentava um terremoto muito mais objetivo em sua própria vida.
Agora, sozinha, sei o que senti. Senti mais uma vez a dor da solidão. Uma solidão abissal, com a qual acabei me habituando com os anos, mas que a certeza de que ele estava “logo ali” atenuou.
Passei a tarde com um amigo, num dos espaços mais agradáveis que conheço: sua academia, onde mora o Seth. Já falei do Seth – o filhotão de boxer. A presença do Seth anestesia dores. E a conversa com meu amigo me deu sentido. Mas, pensando bem, em um certo momento confessei a ele minha condição de ser anfíbio, de alguém que circula por mundos incomunicáveis e que não vive inteiramente em nenhum deles.
Não existem outros anfíbios fazendo esses tráficos de idéias e experiências que se tornaram minha vida. Só que foi fácil assumir esse lugar na taxonomia social: eu já tinha sido apátrida antes. Há muitos anos eu não pertencia muito a nada. A lugar nenhum. A país nenhum. A língua nenhuma. A cultura nenhuma. A crença nenhuma.
Mas BGM foi generoso ao me oferecer seu mundo, onde eu rapidamente me aninhei e onde me sinto confortável.
Sei que se ele for para o Alaska, para Amsterdã, ou para a Lua não vai fazer diferença quanto a isso ou quanto ao amor que tenho por ele. A condição que ele me deu, me deu para sempre, me deu de presente.
Mas a Lua não fica “logo ali” e eu vou ficar olhando para ela, redonda, linda, brilhante e misteriosa, me iluminando e eternamente inalcansável. Como se consagrasse, com sua perfeição, minha tão profunda solidão.

Marilia


BodyStuff

  • Anônimo

    Putz! Gosto de te ler..Te sinto tão perto tb! Entendo tua dor,tuas colocações..Sei do que falas,desta proximidade tão intensa que o virtual nos permite,acredito que mto mais que o real,que aqui chamas presencial!Se por um lado valorizamos tanto o corpo,por outro este mesmo parece nos atrapalhar,pois sem ele nos colocamos mais subjetivamente,como se não existissem barreiras entre nós!Acredito que somos mais verdadeiros,mostramos mais o “eu”,mto mais do que o eu real..Outro fato é que aqui fica atemporal,não existe distancia,ficamos só na dos dedos teclando,podemos a qqer momento estar junto de quem queremos..Foi só uma questão semantica-Brasilia é tão “logo ali”,como o Nordeste..Pois o logo ali é a esperança…Ela esta aqui,aos toques…Um beijo Mary Mundo (Entende pq sou mundo? Estou em qqer lugar,estando aqui…)

    • É… bom… não sei…
      Sei lá, Mary, enquanto não tivermos tele-transportador pra valer, é tudo incompleto. Como se o destino fosse esse quebra-cabeças demoníaco cujas peças ficam em compartimentos não-comunicáveis.
      Meio sombria minha resposta, mas é assim que sinto.
      bjs