Como eu esperava, os “meus” vegetarianos se manifestaram com o post anterior, explicando que sua opção por não comer carne era fundamentalmente baseada numa postura de repúdio ao sofrimento causado aos animais que comemos.

Achei importante então falar sobre duas coisas: a primeira, é a questão da crueldade com animais em nossa sociedade e a segunda é a questão do sofrimento ou responsividade dos seres vivos à agressão.

Quanto à crueldade com animais, me sinto bastante qualificada para discutir. Há muito tempo insisto que só estamos plenamente credenciados para discutir determinados assuntos se temos experiência concreta com ele: não confio muito em psicólogas infantis sem filhos; em nutricionistas gordos ou excessivamente magros; em especialistas em treino de força sem músculo; em pulmonologistas fumantes; em especialistas em estratificação social e pobreza que não vão a uma favela; em epidemiologistas tropicais que nunca viram chagásicos, portadores de leishmaniose ou malária e assim por diante.

Pois é: eu fui uma torturadora de animais de laboratório. Fui uma cientista experimental, lidei com animais de biotério, matei muitos mas o que nunca mais sai da minha memória é o olhar de terror dos coelhos quando entrávamos lá. Eles, em suas gaiolinhas limpas, arregalavam os olhos e se encolhiam vendo as figuras de branco e suas caixas de plástico brancas com seringas e tubos de ensaio. Injetávamos neles coisas não apenas dolorosas, que causavam inflamações horrorosas, como tóxicas e que provocavam sofrimento. Injetávamos até mesmo acrilamida neles. Isso era feito ao longo de no mínimo 45 dias, às vezes bem mais. Depois, para obter um bom “anti-soro”, era preciso sacrificar o bicho de modo a não perder uma gota de sangue. O protocolo era encaixotá-lo num instrumento de tortura constituído por uma caixa de madeira com anteparos que impediam que o animal se mexesse. Lá, era possível praticar o pior ato de tortura que já vi: uma artéria da orelha era seccionada e um tubo de vidro acoplado numa bomba de vácuo. O sangue era drenado até que o animal morresse, não sem antes emitir um som que nunca vi coelhos não moribundos em extremo sofrimento fazerem. O outro procedimento, que nunca vi, mas tinha um colega que sabia aplicar, consistia em inserir uma agulha grossa no tórax no animal, e “coletar” o sangue diretamente de seu coração.

Ufa.

Descrevi, neste espaço (blog), como passei uma lâmina por minha jugular e perdi um litro de sangue; descrevi outras situações suicidas e de auto-mutilação; descrevi estupros a que fui submetida; descrevi um aborto forçado. Mas nunca tinha conseguido descrever essa experiência e até hoje ela me causa horror.

Não consigo imaginar o que, naquele momento, fez com que eu me submetesse a essa “ordem das coisas” em que era perfeitamente aceitável torturar animais sem nenhum objetivo muito sério. Aliás, o “anti-soro” que eu mesma produzi através dele foi rigorosamente inútil. Nenhuma das pesquisas que vi conduzidas ali justificariam nem uma fração do sofrimento causado a estes animais.

Digamos que outras justifiquem. Estive na N.Y.U. (New York University), num momento bastante peculiar, em que se pesquisava uma possível vacina contra malária. Fui ao laboratório onde esse estudo era conduzido. A pesquisadora responsável me levou a uma visita pelas instalações, que incluía uma passagem pelo biotério. Nunca me esqueço do momento em que olhei pela janela da porta e uma macaca viu meu rosto. Imediatamente, ela agarrou seu filhote e apertou-o no colo, me olhando aterrorizada.

Isso é crueldade contra animais.

Isso é inadmissível.

Já criar bois em grandes pastos e colocá-los numa fila onde recebem um golpe certeiro no côndilo, falecendo instantaneamente, não é algo que me impressiona. Sofrem tanto quanto quando são colocados em fila para passar por piscinas com remédio contra berne.

Sou contra confinamento de animais.

Sou contra experimentação com animais sem normas éticas muito bem estabelecidas e justificativas extensamente elaboradas.

Sou contra a não-criminalização de atos de crueldade contra animais em geral, o que inclui a irresponsabilidade com os domésticos (má alimentação, negligência na saúde e, principalmente, abandono).

Mas não sou contra matar animais para que sejam fonte de proteína de alto valor biológico. Não fazê-lo é negar nosso lugar na cadeia trófica, pois somos onívoros e não herbívoros. O post, também cobrado por um amigo, sobre os danos fisiológicos das dietas vegetarianas virá a seguir (sim, existem danos, é uma dieta inadequada para humanos).

O segundo item desta discussão diz respeito à responsividade dos seres vivos à agressão. Um texto vegetariano, que defende que temos o “dever ético de respeitar os animais não-humanos e viver tão ecologicamente quanto possível” diz o seguinte:

“Entende-se por ser senciente todo o ser que tenha a senciência como uma das suas características, ou seja, a capacidade de experienciar o sofrimento (seja a nível físico, seja a nível psíquico). Só os animais (embora nem todos) podem ser sencientes, na medida em que, tanto quanto se sabe, são os únicos seres vivos dotados de um sistema nervoso capaz de permitir a experiência do sofrimento” (http://www.filedu.com/mmoutinhoovegetarianismocomoobrigacaoetica.html ).

O embasamento técnico ou filosófico (sério, não de bla bla bla) desse argumento é rigorosamente igual a ZERO. Vejam por que: há vinte anos atrás, foi uma grande sensação na literatura sobre ecologia química a onda de artigos sobre comunicação entre plantas em comunidade. As plantas são dotadas de sistemas elaboradíssimos de comunicação química, não apenas entre si como com outros seres vivos. Por exemplo: uma planta “agredida” (digamos, tendo suas folhas mastigadas por uma lagarta) emite feromonios para outras plantas da mesma espécie (e possivelmente também de outras) que provocam uma resposta instantânea, na forma de um aumento da produção de substâncias desagradáveis (de defesa) como o tanino. Ora, elas não falam, latem nem grunhem, certo? Então “gritam” quimicamente. Também não podem sair correndo nem morder, certo? Pois fazem isso quimicamente também.

Assim, amigo leitor, se quiser ser vegetariano, seja, mas sabendo que talvez o sofrimento das plantas que você come tenha sido muito maior que o do boi abatido para meu bife.

“Mas eles não têm sistema nervoso central!”

Por favor: jamais falem uma abobrinha deste naipe a um biólogo. É um argumento bobo, antropocêntrico e considerado meio tosco intelectualmente por qualquer um que tenha passado do segundo ano de biologia. E daí que não tem sistema nervoso central?? Sistema nervoso central é apenas um acidente evolutivo, como todo o resto. É uma estrutura de RECEPÇÃO, PROCESSAMENTO de informação e RESPOSTA do organismo ao ambiente. Assim como os invertebrados têm gânglios sub e supra-esofágicos, nós temos cérebro e as plantas têm um complexo sistema de recepção, processamento e resposta de informação química, mecânica e luminosa. Assumir que nosso sistema nervoso central é superior aos gânglios das baratas ou ao aparato químico das plantas é não ter assistido Star Trek (nem primeira, nem segunda e nem terceira geração). Star Trek foi a melhor aula de biologia evolutiva e antropologia que as massas tiveram condições de ter, pois mostrava “civilizações” que não passavam de um amontoado de sílica, por exemplo. E a ordem era: não interferir, pois ninguém é superior a ninguém.

Quanto a “viver ecologicamente”, é uma das frases mais sem-sentido que existem. Por definição, tudo vive ecologicamente. Dizer isso é o mesmo que dizer “viver vivamente”. Ecologia é um sistema de conhecimento científico que descreve, analisa e elabora modelos relativos às relações entre seres vivos e deles com seu ambiente abiótico. Ponto final. Sem julgamento moral.

Outra coisa, bem mais complicada, é dizer: “vamos tentar pensar o desenvolvimento econômico levando em consideração o que quer que se aproxime mais de um indicador da capacidade de carga (carrying capacity, o “K” da curva logística populacional) daquele ambiente específico para aquela forma de organização social e forma de exploração de recursos energéticos específica”. Complicado, não é? Eu também acho. Tanto que ninguém tem resposta.

Às vezes é bom a gente mostrar o complicado para cortar as pernas da arrogância, tão típica da ignorância. Tentar montar uma racionalização ou um discurso pretensamente fundamentado em empiria ou consistência lógica sem manjar nada de biologia, nem de química e nem de filosofia é sacanagem. É enganar o próximo.

Por isso, amados amigos vegetarianos, parem de se debater e assumam a natural postura religiosa de sua opção. Isso reduz o stress de buscar uma fundamentação IMPOSSÍVEL, do ponto de vista factual e lógico, e reduz também o confronto com gente como eu, que saca o que tem por baixo…

E aí vocês têm meu respeito total, porque não há nada que eu respeite mais do que as opções religiosas e espirituais dos outros. Estas vêm da alma, e não da razão. “E quem há de negar que esta lhe é superior”, como diz Caetano.

 

Marilia

 

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