Há uns dois dias, Renatinho e eu treinávamos e tentávamos explicar a  uma nova aluna o movimento do levantamento terra. O levantamento terra pode ser executado de forma tradicional ou “sumo”: com as pernas mais juntas e pegada aberta, ou pegada mais fechada e pernas abertas.

Basicamente, trata-se de um movimento bem complexo, onde quase todos os músculos grandes e importantes do corpo estão envolvidos (sem biomecânica por hora, se não eu saio do meu tópico). O levantamento se inicia com um movimento da lombar onde o atleta se concentra em “erguer os ombros”, segurando a barra. Na seqüência, a extensão de joelhos e quadris leva o levantador a uma posição ereta, segurando a barra.

Estas são as posições inicial e final do “terra tradicional”:

Posição inicial e final

 

Esta é a posição inicial correta de um terra tradicional:



Posição inicial correta de um terra tradicional:

 

E esta é a posição inicial de um terra sumo:



Posição inicial de um terra sumo

 

Pois bem, a nova aluna insistia em variações do seguinte erro, aqui ilustrado de forma exagerada:



Erro

 

Várias vezes eu pedi que ela segurasse apenas a barra, sem peso, ou até barra nenhum e executasse. Pedi que ela me observasse, tentei descrever de todas as formas, sempre usando termos que acho que ela compreenderia. Não adiantaria dizer que ela deveria “acentuar a lordose”, e sim “empinar a bunda”. Expliquei que se ela deixasse as costas perderem a postura, que a curvatura que ela estava produzindo com a protrusão do quadril poderia machuca-la.

Uma hora não agüentei e disse: “faz uma coisa: tira essa blusa da cintura e vamos para o espelho para você ver o que está fazendo”. Na minha experiência, é difícil adquirir consciência corporal em adulto sem uma dose grande de auto-observação. Espelho é para isso.

Ela se recusou… Tirar a blusa da cintura? Nunca! Uma blusinha de tecido sintético tão fina que a única coisa que fazia era atrapalhar minha demonstração. Desisti da menina. Na hora, acho que porque afastei o problema: não entendo, de modo que ignoro. Nunca entendi essa coisa de blusinha na cintura. Me disseram que elas têm vergonha. Vergonha… da bunda? Mas o que uma blusinha BEM FINA pode fazer contra essa vergonha? Penso que seria o equivalente a eu ter vergonha de fazer top-less na praia e, para me proteger, colocar durex nos mamilos. Ou celofane.

Depois o Gilson usou uma analogia infantil para me explicar o “efeito blusinha”. Disse ele: “lembra quando você era pequena, tinha medo de monstro no escuro e colocava o cobertor em cima da cabeça? É a mesma coisa: claro que para o monstro não tem diferença nenhuma você com ou sem cobertor, mas você tem a ilusão de que não vendo, o monstro desaparece.”

Entendi a questão da ilusão, mas na criança isso faz sentido: é conhecido que as crianças sentem que o que não podem ver, desaparece de fato. Ou que, se elas não enxergam, também não são vistas. Esse é um fenômeno cognitivo que desaparece depois acho que dos dois ou três anos.

Mas cobrir a bunda com um paninho??

Continuo não entendendo.

E a menina continua torta e vai acabar lesionando a lombar.

 

Marilia

 

BodyStuff

  • Morri de rir desse negócio de “cobrir a bunda com paninho”…