Talvez esse seja o capítulo mais assustador da história da desordem bipolar. Se pelo fato de que desnuda a manipulação da indústria farmacêutica sobre a percepção pública da doença mental ou se pelo fato de que são crianças as suas vítimas, fica por conta da sensibilidade do leitor. Há uma sinistra sincronia e retro-alimentação nos dois fenômenos. São partes tanto da história da economia capitalista do final do século XX, com a indústria farmacêutica como um de seus carros-chefe, quanto da história da psiquiatria e da história das idéias.

O gráfico abaixo mostra o crescimento do número de artigos científicos em revistas indexadas que contém a expressão “desordem bipolar” em seu título ou abstract. Este indicador só pode ser contado a partir de 1980 – antes disso, não era a expressão oficial para designar esta desordem. O indicador reflete: a sensibilidade da comunidade científica e médica ao tema como objeto de investigação; indiretamente, fatores estimuladores da pesquisa, como maior disponibilidade de verbas públicas e privadas, pressões de grupos interessados ou descobertas internas ao campo; e o maior interesse público pela questão.



É possível ver que a curva sofre uma inflexão no ano de 1994. Observando a linha do tempo abaixo, vemos que em 1994 três fatos importantes marcaram a história da doença: novos critérios diagnósticos foram oficializados no DMS-IV, as desordens de humor infantis foram reconhecidas nesta mesma bíblia psiquiátrica e o primeiro novo estabilizador de humor, Depakote, foi reconhecido pelo FDA para controle da desordem bipolar. No ano seguinte, foi publicado o artigo que marcou a sanção da comunidade científica e médica para a febre diagnóstica de desordem bipolar entre crianças. Calcula-se que o número de casos diangosticados nos Estados Unidos tenha aumentado 40 vezes (4000%) entre 1994 e 2003. Em 2003, a curva ganha nova inflexão e seu crescimento se acentua. Este é o ano em que a “droga da morte”, Zyprexa (Olanzepina), é aprovada pela primeira vez pelo FDA para emprego na desordem bipolar.



1902

Emil Kraepelin cunha o termo “psicose maníaco- depressiva”

1948

Cade descobre que carbonato de lítio controlava episódios maníacos

1958

o termo “desordem maníaco- depressiva” começa a ser utilizado

1970

Litio é aprovado pelo FDA para o tratamento de mania

1978

O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-III) inclui a desordem bipolar como um diagnóstico distinto em sua versão.

1979

É fundada a National Alliance for the Mentally Ill (NAMI)

1980

O DMS-III inclui “Opositional Defiant Disorder” (desordem de confronto oposicional) como um diagnótico

1986

É fundada a National Depressive and Manic Depressive Association (National DMDA)

1987

O DMS III R inclui novos critérios diagnósticos para a identificação da desordem.

1994

O DMS IV é publicado com novas revisões sobre a doença

1994

Desordens de humor infantis são incluidas no DMS

1994

Divalproex (DEPAKOTE, derivado do ácido valpróico) é aprovado pelo FDA

1995

Ross Baldessarini e Deborah Lipschitz publicam “Pediatric-Onset Bipolar Disorder: A Neglected Clinical and Public Health Problem,” no Harvard Review of Psychiatry,Vol 3, No. 4, 171195. O artigo inaugura a abordagem oficial à DP infantil

1996

Olanzepina (Zyprexa) é aprovada para tratamento de esquizofrenia pelo FDA

2000

O livro “bestseller” The Bipolar Child, por Demitri Papolos M.D. e Janice Papolos é publicado; a emissora ABC News realiza um programa sobre desordem bipolar precoce; o site interativo “The Child & Adolescent Bipolar Foundation” (www.bpkids.org) é lançado.

2003

Olanzepina (Zyprexa) é aprovada pelo FDA para tratamento de episódios depressivos em desordem bipolar junto com fluoxetina na formulação Symbyax

2003

Lamotrigina (Lamictal) é aprovado pelo FDA para utilização como tratamento de manutenção em desordem bipolar

2004

Olanzepina (Zyprexa) é aprovada pelo FDA para o tratamento de episódios de mania e para tratamento de manutenção em desordem bipolar


Crianças de até quatro anos de idade têm sua mente, emoções e criatividade neutralizadas por esta droga que hoje obriga seu fabricante, a Eli-Lilly, a pagar indenizações milionárias às milhares de vítimas das desordens metabólicas resultantes de sua administração. Me pergunto quantos bilhões não seriam necessários para indenizar a sociedade pela perda em poder criativo e transformador que essa droga causou, em grande parte irreversivelmente.

No entanto, a combinação entre a predação farmacológica dos portadores de DP e o ataque à energia criativa infantil são anteriores a estes dois marcos temporais. Remontam à origem do interesse econômico pela doença. No ano em que o termo “desordem bipolar” e seu diagnóstico foram oficializados pela psiquiatria, também foi oficializada a patologização do comportamento confrontacional em crianças. Em 1980, o DMS-III incluiu a “Opositional Defiant Disorder” como diagnóstico. A patologização do comportamento de resistência e de confrontação, partes integrais da formação de personalidades fortes e capazes de interferir significativamente no rumo da História, é mais do que história das doenças. Marca a inauguração da mais poderosa arma contra a transformação social: a neutralização da vanguarda pensante no seu nascedouro através da medicina e da ciência. Os argumentos não têm sustentação nem rigor metodológico, mas têm algo mais importante: o aval institucional.

Como era de se esperar, outro eixo desestabilizador do status-quo foi atacado na mesma época: a libido – segundo qualquer um com um mínimo de erudição psicanalítica, a força criativa por excelência. Um dos critérios para o diagnóstico de DP infantil e adolescente é, como não podia deixar de ser, a “sexualidade precoce”. Não por acaso, ninhuma voz da comunidade médica ou científica questiona o mais comum efeito colateral dos fármacos empregados no controle da doença: a inibição da libido.

Alguns autores sugerem que outro fator para o crescimento assustador no diagnóstico da DP entre crianças foram os próprios pais. Como se popularizou a falsa visão de que esta doença é predominantemente de origem genética, milhares de pais movidos pelo mais profundo sentimento de culpa correram aos consultórios em busca de um alívio para sua aflição frente ao comportamento “estranho” dos filhos. Munidos de um diagnóstico de DP e uma receita para uma droga bestificante, casais neuróticos puderam dormir em paz, redimidos dos pecados cometidos na educação dos filhos ou da omissão em relação a seus sofrimentos.

A ascenção econômica da desordem bipolar e a febre de desordens de humor infantis marcaram um dos piores e mais hipócritas pactos conservadores de nossa sociedade. A vítima principal: o futuro da humanidade.

Em 1980 eu já tinha 17 anos. Meu primeiro diagnóstico de DP foi aos 19. O psiquiatra da época era desatualizado e me disse que eu tinha “psicose maníaco-depressiva”. Ele não sabia que o termo havia mudado há dois anos.

Assim, eu não fui uma criança bipolar, nem “opositional defiant”. Se o diagnóstico e os medicamentos fossem disponíveis, no entanto, eu teria sido drogada até o limite da catatonia.

Como doença de etiologia complexa, condicionada por fatores genéticos, ambientais (principalmente traumas familiares, negligência afetiva e abuso), sociais, culturais e metabólicos, é óbvio que o adulto bipolar terá sido uma criança no mínimo “esquisita”. Como é de se esperar de um adulto bipolar de alta gravidade, eu fui para lá de esquisita.

Minhas primeiras memórias começam aos cerca de quatro anos, quando os meus principais rótulos eram “difícil”, “de mau temperamento”, “brava”, “feia” e “gorda”. Falta um: “gênio”.

Se aos quatro anos era essa minha representação pública, naturalmente eu cresci para satisfazer esses rótulos – é assim que funcionam as perversas dinâmicas de grupo. Minha comunicação com crianças era desastrosa, eu não tinha as ferramentas de sensibilidade para compreender o discurso delas e em pouco tempo só o que me restava era a minha racionalidade.

Eu fui uma criança indesejada e isso nunca me foi escondido. Sempre me vi como um estorvo – um aborto que deixou de ser feito por engano. Diante do silêncio e olhares de reprovação (e o que me parecia ódio) de meu pai, muitas vezes tive fantasias suicidas. As mais antigas, aos cinco anos. Datam desse período surtos de fúria e medo que me fizeram atacar outras crianças com uma violência assustadora. As “professorinhas” me detestavam. Mas os adultos responsáveis, mais graduados, nas escolas, reconheciam meu olhar de terror e me davam água com açúcar. Essa é minha principal lembrança: um surto de violência e depois água com açúcar.

Tive insônia desde sempre. A lembrança mais remota dela é anterior aos quatro anos. Sei disso porque a imagem é de um relógio de parede florido que pertencia à mãe de meu pai e foi devolvido a ela quando eu tinha quatro anos. Nesse relógio, levantei no meio da noite, sem ter dormido, e vi os ponteiros marcando quatro horas. Eu já sabia ler as horas.

Até os doze anos meu peso oscilou muito, com períodos de sobrepeso acentuado coincidindo com fases muito ansiosas ou deprimidas. Fui obrigada a praticar atividades físicas que não escolhi contra minha vontade. Fui tratada com anfetaminas que acentuaram minha ansiedade (hipofagin, entre elas). Outro rótulo meu era de que eu era “parada” – só funcionava a cabeça. Pode parecer difícil de acreditar que isso tenha sido associado a mim, uma típica hiper-ativa. Ninguém nesse tempo me observou tempo suficiente para compreender minha linguagem corporal irriquieta. Só concluiam que eu era avessa à atividade física por meu horror aos grupos de crianças.

Foi então, aos 12 anos, que duas coisas aconteceram: um conflito causado por uma criança manipulativa (e eu nunca fui capaz de compreender manipulação) na escola fez com que eu tivesse o maior de todos os surtos até então. Passei a não falar com mais nenhuma criança daquele ambiente. Naturalmente, saí dessa escola no final do ano. Na escola seguinte, me mantive quieta e isolada. O período foi marcado por episódios estranhos, que pareciam convulsivos. Assustaram minha mãe, que não tinha como lidar com eles. Pouco antes disso, talvez pressentindo o que vinha, fui obrigada a frequentar uma psicóloga horrível e estranhamente parei de crescer, retomando o crescimento no mês em que me recusei a voltar ao consultório dela. Foi nessa época que me auto-mutilei pela primeira vez, e tenho as cicatrizes nos pulsos até hoje. Nunca consegui cortar fundo o suficiente. Numa das vezes, tentei escrever com meu sangue na parede do banheiro. Só me lembro que tinha muito ódio dos meus pais e pretendia deixar um recado literalmente “written with blood on the walls” e morrer ali mesmo. Não deu certo, não morri, me senti um fracasso, limpei os ladrilhos e meu pesadelo continuou.

Também aos 12 anos passei por um programa de seleção de talentos esportivos num clube de alta performance, por minha vontade. Fui selecionada para vários esportes (todos individuais), incluindo tênis, ginástica olímpica e atletismo. Mas onde eu mais exibi talento e paixão foi na Esgrima. Eu não era parada coisa nenhuma: era um grande talento esportivo e tive um sucesso excepcional.

A partir daí e até os 14 anos, meus sintomas estiveram sob controle. O motivo hoje é óbvio: me tornei uma atleta de alta performance, treinava muitas horas por dia, todos os dias.

Mas no auge da minha carreira esportiva, pessoas ligadas ao partidão (Partido Comunista Brasileiro) resolveram que era hora de me recrutar. A principal responsável era uma mulher mais velha, muito inteligente, mas munida de ressentimento e inveja que nunca amainaram em relação a mim – ressentimentos esses relativos a questões de classe social e estética, inteiramente alheios à minha vontade. Dez anos mais velha, conhecia bem meus sentimentos de culpa e como usá-los. Fui arrancada da prática esportiva e minha doença floresceu com tudo nos anos seguintes, sob a violência dos partidos de esquerda. Estupro real, tortura psicológica e condições de vida desumanas terminaram o quadro. Drogas recreativas tanto aliviaram quanto acentuaram os sintomas. Usei de tudo.

Mas isso é outro capítulo: o da desordem bipolar na adolescência. Um outro triste capítulo da castração de parte do que de melhor produziu a humanidade.