Bodybuilding não é um esporte olímpico. Para alguns, sequer um esporte é. Frederick C. Hartfield discutiu a aceitação do Bodybuilding como esporte olímpico, sugerindo que os preconceitos históricos contra essa atividade vêm sendo paulatinamente superados. Ben Weider, presidente da International Federation of Bodybuilders (IFBB), solicitou a aceitação do BB como esporte olímpico ao presidente do IOC, Lord Killanin, nos início dos anos 70. A resposta foi violentamente negativa (“over my dead body”). Uma década depois disso, a mesma solicitação foi encarada de forma menos negativa por Avery Brundage, então presidente do IOC. Em meados dos anos 80, Juan Antonio Samarach abriu as portas do IOC para o BB. Finalmente, dia 30 de janeiro de 1998, o IOC atribuiu à IFBB o status de “federação reconhecida” e ao BB, o status provisório de esporte reconhecido.
Os argumentos correntes contra o reconhecimento do bodybuilding envolvem duas categorias de preconceitos: o primeiro é ligado ao uso de recursos ergogênicos, particularmente dos esteróides anabolizantes. O segundo diz respeito à natureza não-competitiva da atividade, que tiraria dela o caráter esportivo. O primeiro preconceito ironicamente tem uma relação com a própria marginalidade do esporte: como não é reconhecido como modalidade olímpica, sua prática não é regulamentada e não são aplicados os testes anti-doping que camuflam o uso de bola nos outros esportes (sim, camuflam, quem duvida disso?). O segundo preconceito é tão irracional que consegue ilustrar sem muito disfarce a rejeição a tudo que diz respeito à força em nossa sociedade. Os que defendem esse preconceito acreditam que não existe performance em si no BB: ninguém “executa” uma tarefa qualquer que possa ser medida contra um referencial de desempenho ou adversário contra adversário. De fato: exceto por posar e executar uma coreografia, não há uma ação concorrencial no ato da competição. Quem, no entanto, em sã consciência, consegue defender a idéia de que o BB não é uma atividade de alta performance física? Executada ao longo de meses e anos, cuja única diferença para esportes de ação é que o momento do campeonato não julga a ação, e sim o resultado da performance.
Como muitas atividades rejeitadas pela elite como prática socialmente aceitável para seus pares, o BB tem larga aceitação em certos segmentos da sociedade, particularmente as classes economica e educacionalmente excluídas. Popularizou-se nos Estados Unidos, nos anos 30, quando foi instituido o campeonato Mr. America e a Muscle Beach ganhou a mídia, em Santa Monica. Só décadas mais tarde o esporte alcançou articulação internacional: a International Federation of Bodybuilders foi fundada em 1946 e a National Amateur Bodybuilder’s Association em 1950. Logo apareceram os grandes campeonatos internacionais e o esporte se expandiu para outros países: o Mr. Universe, da NABBA, em 1950, e o Mr. Olympia, da IFBB, em 1965.
Ao mesmo tempo que o esporte se expandia, disseminava-se também o uso indiscriminado dos anabolizantes, estimulado pela competição entre as grandes potências internacionais no contexto da Guerra Fria nos “esportes politicamente corretos” (olímpicos).
Embora o doping seja uma indústria associada a fatores econômicos e políticos de enorme complexidade e presente em praticamente todos os esportes olímpicos, a sua demonização ficou associada ao BB.
Fico pensando se Hartfield estaria certo e estaríamos assistindo uma abertura para o BB no mundo todo. Não há dúvida de que o esporte está crescendo, mas, por enquanto, ainda de forma marginal. Gostaria de pensar que Hartfield tem razão. Acredito que cada prática esportiva de alta performance ocupa o papel de paradigma em algum avanço no controle tecnológico da saúde humana. O BB ocupará seu papel talvez no maior desses avanços: a incorporação e valorização da capacidade funcional força para o bem-estar humano de maneira geral e controle das principais causas de mortalidade e morbidade contemporâneas. No entanto, surgiu uma suspeita sombria na minha cabeça: será que, com essa transformação e apropriação do treinamento de força pelas classes média e alta, os excluidos que hoje têm pelo menos acesso a esse esporte e nele as chances de se expressar, de ter excelência e de gozar de aceitação não serão expulsos de mais esse paraíso?

Marilia


BodyStuff