Aqui eu começo os relatos, os quais depois voltam ao início da viagem. São 6 da manhã do dia seguinte da minha competição. Meu terceiro dia na competição em si.

Começo pelo item de interesse imediato dos leitores: a minha performance. Sim, eu venci o campeonato. Sim, quebrei dois recordes: supino e total. Foi bom? Foi incrível. Não por ter sido minha melhor performance, longe disso. Mas por vários outros motivos que me renderam um aprendizado sem preço.

A primeira delas foi furar a bolha da ingenuidade acadêmica onde eu conceituava o esporte, seus paradoxos e contradições na condição de “jogo institucionalizado” e me dar conta, na pele, que antes de ser institucionalizado, esporte é jogo. Em situações civilizadas ou minimamente amadurecidas, claro.

Até hoje, na minha performance raw, eu mais ou menos não tinha adversárias. Ou elas estavam longe das minhas marcas ou elas subiam ou desciam de categoria para não brincar comigo. Assim, eu segui alegremente na minha doce busca da transcendência, não dando a mínima para o que qualquer outra adversária pudesse estar fazendo.

Pois é, não foi assim. Taylor Young estudou meus movimentos, minhas marcas e fez uma coisa chamada “cutting weight”. “Cutting weight” (cortar peso) é diferente de perder peso, ou utilizar estratégias dietéticas para reduzir gordura ou até mesmo massa magra. “Cutting weight” é uma estratégia competitiva de curto prazo usada para a pesagem, baseada em desidratação.

Assim, competi contra uma atleta forte pelo menos 7 quilos mais pesada que eu e bem maior.

Além disso, ela baseou suas pedidas na estratégia de me vencer. Entre estas estratégias incluíam comunicação com minha equipe (que era o Diego, Joel, um amigo de Wisconsin e os amigos da Finlândia).

Comecei perdendo por 5kg: errei minha segunda pedida no agachamento e isso estragou todo o meu planejamento para o foco do campeonato para mim. Eu fui para agachar e quebrar o recorde do agachamento: fiquei longe, bem longe disso. Ao saber que o levantamento terra dela era facilmente 180kg, imediatamente passei a admitir que teria um honroso segundo lugar.

Além disso, as demais levantadoras experientes comentavam o meu aquecimento. Em total ingenuidade, eu considerava tudo. Afinal, sempre ajudei levantadores.

Vejam, tanto Taylor quanto as demais levantadoras de nível internacional ali são pessoas sensacionais. Ficamos amigas. Uma coisa, no entanto, eu aprendi: no tablado e por perto dele, vale tudo. Até mesmo semear informação falsa.

Joel insistia que o jogo não estava definido.

Fui para o supino tranqüila. Meu supino é forte. Taylor fez o primeiro, mas foi difícil para ela. Tanto que perdeu os dois seguintes. Meus dois levantamentos válidos foram quebras de recorde mundial. Não sei explicar a falha do terceiro, assim como não sei explicar as falhas no meu “super” levantamento: o agachamento.

No fim do round do supino, eu tinha recuperado os 5kg da vantagem dela e colocado mais 2,5kg na frente.

Então veio o famoso levantamento terra, a especialidade dela. Comecei humildemente com 160kg. Não sei como ela começou, não olhei, não me preocupei. Joel fez isso por mim. Mas me lembro dele dizendo: “foi difícil para ela. Não subiu fácil e essa disputa não está nada definida”.

Pedi humildes 167,5kg: afinal, tive apenas 3 treinos de terra antes deste campeonato mundial. No meio das agressões que sofri em Veranópolis, houve uma inesperada ruptura total do flexor ulnar. Até pouco tempo, nem sabíamos se seria possível realizar o levantamento terra.

Os 167,5kg subiram fácil. Taylor já havia realizado 175kg com muita dificuldade e sofreu uma distensão da panturrilha. Fiquei triste por ela e foi trabalhoso para Joel e Diego tirar minha atenção disso.

Pedimos 175kg, que eu realizei fácil. Ela, machucada, não conseguiu puxar 180kg. Venci por 2,5kg o campeonato mundial.

No momento, senti vontade de vomitar, pelo terra, e tive apenas 3 ou 4 minutos para me preparar para os 181kg da quebra de recorde, pois outras duas levantadoras fizeram 4as pedidas. Não subiu.

Difícil descrever as emoções desse momento: uma mistura de alegria, culpa – sim, culpa: para mim, ganhei por sorte, pelo azar de Taylor em sua lesão – e surpresa. Ajoelhei e beijei a barra.

Mais tarde, pensei com meus botões: na verdade, os 152,5kg que Taylor fez no agachamento eram moleza para mim. Fiz 155kg em treino. Fui preparada para 161kg. Assim, quem foi a “zebra”? Ambas e ninguém. Estratégia. Foi isso que ocorreu.

Ela foi inteligente de baixar de categoria, embora na 67,5kg a vitória dela seria segura. A vantagem sobre a grande campeã Daisy Kuishman, da Colômbia, seria de 33kg – lesão ou não lesão.

Isso mostra que estas opções não são sempre fáceis: ela desceu de categoria possivelmente esperando a presença de alguma levantadora da categoria 67,5kg que não compareceu. Não sei, não perguntei, embora tenhamos ficado amigas e eu a ajudei com a lesão, buscando gelo e conversando bastante. Foi uma jogada arriscada, como tudo em estratégia.

E se eu tivesse baixado para a 56kg? Eu teria vencido. Embora na 56kg eu enfrentasse a forte Jenn Rotsinger, minhas marcas ainda me dão uma vantagem significativa.

Uma coisa é certa: sem Joel e também Diego por perto, mas principalmente Joel organizando toda a estratégia, provavelmente essa vitória não seria tão possível. Impossível? Não é possível dizer. Se eu emplacasse os 155kg no agachamento, o jogo teria ficado muito difícil.

O fato é que esse campeonato inaugurou, para mim, o jogo de estratégia no powerlifting. Posso ser forte, mas há outras mulheres fortes por aí. O ano que vem, em Praga, muito provavelmente enfrentarei algumas. Afinal, o título de melhor atleta, por peso corporal, foi para a levantadora azerbajana Talibova Gynel, com um total de 405kg (contra os meus 425), um terra de 185kg e um supino de 87,5kg.

 

 

  • Luciano Figueiredo

    Run Lola Run, já assistiu esse filme? Pois é, ás vezes um simples tropeção pode mudar o curso das coisas. Acho difícil aceitar que por mais que tracemos estratégias o acaso pode levar a melhor. Talvez o grande vencedor seja aquele que esteja preparado para lidar melhor com o que vem pela frente, isso faz dele(a) o mais forte também, não faz? You took the chance! Parabéns. Corra Marília, corra…