Desde a semana passada estamos em reforma aqui. Tudo começou com um brotamento de água no quintal, suspeito de cano furado. Era. Cavando, apareceu uma conexão bizarra, aparentemente largada ali por algum prestador de serviço relapso, numa interpretação benigna, ou não, numa interpretação mais atenta. Metros além, um buraquinho. O buraquinho, pesquisado pelo Adalberto, mostrou ter pelo menos 3m de profundidade. Na área ao redor, rachaduras pelo chão, no muro e perigosamente na linha de um padaço ruido do chão da varanda. Urgentemente iniciou-se uma mega-operação de pesquisa e restauração. O que havia embaixo do “buraquinho” era uma enorme fossa de 3m de profundidade por 1,5m de diâmetro, não escorada. A terra em volta estava fofa até o muro, por um lado, e até a zona sob a casa, por outro. Foi escavada e escorada, até a área da casa, com cimento. Choveu. A chuva mostrou que o mesmo ou outro prestador de serviços passado, talvez o autor da fossa catastrófica e estúpidamente feita, havia deixado um cano (vindo do tal vazamento, e que parecia um encanamento “morto”) que coletava água de chuva e escoava para a tal fossa, contribuindo, por anos, para criar um solo umido, fofo e abrigo para vida silvestre (maligna). A chuva produziu as tradicionais goteiras que me causam pânico há muitos anos. Depois de muito estudo, a saída mais em conta mostrou-se ser colocar uma manta metálica sob o telhado, sobre o forro. O teto foi destelhado e revelou uma grossa camada de um pó preto. Esse pó é constituido por detritos variados, cadáveres de animais (insetos, aranhas, escorpiões, ratos, baratas, aves, etc) e principalmente fezes. Fezes de todos estes bichos. Diante disso, foi necessário varrer o detrito para fixação da manta. Como as goteiras por anos danificaram a madeira do forro, o encaixe delas é ausente em vários pontos, produzindo orifícios. O pó preto entrou pelos buracos e cobriu a casa toda.

Imediatamente meus olhos começaram a arder, o nariz entupiu e tive reações do tipo sinusite. Durante três dias convivi com o pó ali dentro, talvez um pouco mais. Quando finalmente minha faxineira veio, avisada do que encontraria, com sua filha para ajudar, teve também reações alérgicas no momento.

Depois disso, alguns dias passados, tive uma forte diarréia com febre, semelhante à virose incompreensível que havia tido umas duas semanas antes. A faxineira teve outros sintomas: bronquite asmática, dores de cabeça e febre. No hospital, deram-lhe inalação. O coelho que morava comigo está morrendo de uma lesão neurológica que fez com que perdesse a orientação. As veterinárias suspeitam de fungos.

Pesquisei, e trata-se de crytococcosis ou coccidiomycosis no caso do coelho. Tenho muito medo que também no caso da minha faxineira e sua família e estou tomando providências. Elas dizem que agora estão bem, mas a infecção por estes fungos pode ser letal.

No meu caso, pesquisei todos os sintomas e não deve ser fungo. O que não quer dizer que não seja uma zoonose da mesma origem: os detritos do forro. Desde a primeira doença, há 3 semanas, a origem pode ser essa. Afinal, o forro está danificado e cheio de orifícios há anos, e por eles escorrem, a cada chuva, um líquido destilado dos detritos contaminados.

Os trabalhadores também passaram mal. Alguns tiveram problemas respiratórios, outros diarréia.

Esta semana faremos a mesma operação para colocar a manta do outro lado do teto da casa, maior. Estou tomando providências para proteger a saúde dos trabalhadores, do pessoal de limpeza e eu mesma vou sair da casa pelos dias em que os trabalhos forem feitos.

Me ocorreu que meu horror histórico à chuva tenha sido, em parte, uma imprecisa percepção desta contaminação permanente. Um dia um amigo me perguntou o que exatamente eu sentia em relação à chuva. Eu respondi: que é um banho de esgoto. Esgoto caindo do céu.

De fato, dentro da minha casa chovia esgoto. Da pior espécie.

Por anos chamei gente para resolver esse problema, sem nenhum sucesso. Pensando nos componentes dos detritos, são um raro material para aquelas poções terríveis que vemos em livros e filmes de terror. Aos quais o bruxo só tem acesso por malignos poderes.

Chuva do mal. Finalmente acabou.