Hoje recebi um texto de alguém muito especial. Esse texto era sobre aquilo que está por trás do aparente, que às vezes chamamos de âmago (“core”), essência ou cor verdadeira. As minhas cores verdadeiras, mas também as dele. Segundo entendo do que ele me diz, é possível se despir das máscaras do espaço, aquelas que usamos, aqui e agora, para simular cascas e tecidos íntegros onde na verdade existe ferida, buraco, dano. Mas também seria possível se despir das máscaras do tempo, da história e da História.

Como fazer isso e exibir tais cores verdadeiras, sempre mais vivas, mais fortes do que queremos? Isso requer um alto grau de honestidade consigo mesmo e com os outros – “Frank-ness” -, coragem e uma enorme dose de compaixão. Esses são os atributos que permitem alcançar coisas escondidas, coisas que só a liberdade alcança.

Como sou cinéfila e tenho um pensamento imagístico, memórias de experiências e filmes começam a se amontoar quando algo me toca forte. Lembrei de um filme antigo, que eu achava ser do Orson Wells mas não encontro agora na filmografia dele. Um sujeito ia parar numa ilha estranha e lá pelas tantas descobria que os habitantes eram, na verdade, deuses da mitologia grega. O patriarca tinha uma identidade humana e estava doente. Quando chegou sua hora, ele chamou uma linda mulher que sempre o acompanhava de cabeça baixa, nunca revelando os olhos. Num estranho ritual, ela se ajoelhou na cama, ergueu a cabeça e fitou-o. Na cena seguinte, pessoas carregavam com dificuldade um caixão com o cadáver do patriarca, que, pesado demais, despencou. Era feito de pedra. A mulher era Medusa e não podia exibir seu olhar – olhos de uma estranha cor indefinida – porque quem a fitasse se transformaria instantaneamente em pedra. Lembro que um pensamento repetitivo me perseguiu por um tempo: Medusa e o espelho. O preço de se conhecer a cor verdadeira dos olhos da Medusa é a morte, inclusive dela.

Outro filme que me veio foi um episódio de StarTrek, primeira geração, onde a equipe do Capitão Kirk vai parar num planeta onde as pessoas tinham acesso a uma forma de realidade virtual. Lá vivia um grupo estranho e avançadíssimo, mas também dois humanos. No planeta, eram um casal jovem, belo e perfeito. Não queriam sair do planeta e o episódio se desenvolveu em torno do drama, que revelou, afinal, que ambos eram pessoas muito, muito mutiladas, com membros e pedaços do corpo atrofiados ou faltando. Mas no planeta, eram perfeitos. Viam-se e eram vistos perfeitos. Qual seriam suas cores verdadeiras? Aquelas do corpo mutilado, deteriorado, ou as do corpo restaurado pela tecnologia avançada num mundo virtual?

A terceira imagem é a de uma obra literária, o Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Nela, os horrores do comportamento de Dorian são magicamente transferidos para um retrato que é mantido escondido num cômodo da mansão. As cores verdadeiras só aparecem lá, no retrato.

A literatura, a religião e o cinema são cheios dessa mensagem universal de que existe uma realidade “verdadeira” que se macula facilmente e que escondemos. De uma certa forma sempre me senti assim. E por isso me senti sempre Medusa, portadora de uma história e “talentos” tão pesados, mas tão pesados, que nenhum sonho resistiria e afundaria.

O que o autor do texto tentou me dizer é algo em que venho tentando acreditar há tempos, mas vejo que caí presa de minhas próprias armadilhas: é a idéia de que não existe essa fatalidade. Que as marcas do passado moldam tanto a gente como as coisas deliberadas que fazemos hoje, e que uma força equilibra a outra. Ou seja: fomos tão moldáveis no passado como somos agora. Então, porque não modificar o que foi corrompido antes? Fechar buracos, abrir outros?

O que essa pessoa me disse com grande franqueza é que meu medo (ou covardia) não se assenta em nada real, apenas fantasmas do passado. Me incentivou a quebrar essas prisões imaginárias. Disse até que se pudesse, me libertaria, mas que infelizmente isso é tarefa para uma só pessoa: eu mesma. Disse que não preciso ter medo, e nem ele tem, das minhas cores verdadeiras e nem do meu “hard core” (âmago duro).

Disse que o que quer que eu precisasse fazer para cumprir essa tarefa teria nele um suporte. Que estaria lá, para mim.

Nem todos viram pedra quando fitam as cores verdadeiras dos meus olhos.

Marilia

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