Hoje eu dizia à minha filha que a versão simplificada do marxismo, essa do Manifesto, por exemplo, é simplesmente irresistível para o adolescente. A lógica linear cria um modelo elegante, seco e perfeito. Tudo tem um antes e um depois. Tudo vem pela necessidade. Acaso e necessidade: evolução. Mais tarde, quando passa o daltonismo juvenil e o mundo fica cheio de matizes, percebemos que Acaso e arbítrio e acaso/acaso valem tanto ou mais que a combinação clássica. Além disso, a estrutura de parentesco das sociedades tradicionais, os modos de produção alternativos, a complexidade da estratificação social do século XX, tornam o modelito marxista de revolução, incluindo a própria, a economia planificada e a ditadura do proletariado um tanto patéticos.

Jogar o legado de Marx no lixo por conta dessa inadequação é uma perda que lamento quase tanto quanto aderir à estratégia revolucionária. Marx pensou a revolução socialista no contexto da sociedade inglesa do século XIX. O topo do capitalismo industrial, ostentando uma estratificação social nítida e dramática. Marx e Dickens se completam no retrato do horror ligado ao nascimento dessa economia. Acho que, da perspectiva de alguém observando à distância aquela sociedade com as ferramentas intelectuais e dados disponíveis, foi o melhor modelo possível.

No entanto, Marx e Engels nos deixaram muito mais. Muito, muito mais. Eu não saberia pensar estratificação social sem essa forte herança marxista, por exemplo. Mas me refiro também a como usar as ferramentas interpretativas sobre a sociedade para mobilizar intenções, desejos e princípios morais. Sim, pois o modelo revolucionário sai do campo do discurso com pretensão científica, como são as teses econômicas da dupla, para o campo do desejo: ora, se as contradições do capitalismo apontam para duas, e apenas duas alternativas, que são o socialismo ou a barbárie, o que fazer? O que fazer, perguntaram esses intelectuais? O que fazer, perguntou Lenin? A revolução, naturalmente! Ou vc seria egoísta o suficiente para condenar milhões de pessoas ainda nem nascidas à barbárie? De forma alguma!

Isso é DESEJO, não razão. Isso eles tinham no lugar, como eu tenho, minha filha também e tantas outras pessoas do bem.

Marx dizia mais. Do alto de sua condição de intelectual sem preocupação com a sobrevivência, já que a renda de Engels segurava a barra de todos, Marx compreendeu perfeitamente que o ápice da realização humana era o ÓCIO CRIATIVO. Essa era a “sociedade administrativa” que estava lá, no horizonte não socialista, porém comunista. Quando não houvesse mais Estado, nem classe, nem nada e as forças produtivas tivessem deslanchado, sem freios nem contradições. Quando o desenvolvimento tecnológico fosse tamanho que cada homem contribuiria com uma quantidade mínima de tempo para a manutenção de todos e seu tempo seria dedicado ao ÓCIO PRODUTIVO.

Não gosto quando criticam Marx por sua relação financeira com Engels, chamando-o de parasita. Ninguém sabe como foi o arranjo entre os dois. E todos sabem o legado que ambos deixaram para a humanidade. Nessa condição que os moralistas chamam de parasitismo, Marx criou e criou aquilo que não teve paralelo em impacto e profundidade em muito tempo.

Marx tinha um apreço especial pela ciência e pela arte, as quais considerava patrimônios universais da humanidade. Independente de seu contexto nas superestruturas de classe, seus produtos tinham valor e propriedade universal.

Com toda a escrotidão que a esquerda foi capaz de fazer com o mundo e a literatura sobre a sociedade, jamais rejeitarei a herança marxista, que me ajuda a pensar positivamente a relação entre meu desejo e minha ação.

Amalgamei as idéias gerais que aceitei dessa herança com minhas próprias, como é minha concepção sobre o valor de essência e excelência que a tríade ciência-esporte-arte formam, esqueletos de nossa representação quanto à natureza humana, comentada em outro post.

Ou a indignação diante do que é indigno, pois foge ao humano, como é a miséria real de centenas de milhões de indianos, estes sim, ao contrário dos famintos ficcionais que o PT vê no Brasil, se desintegrando à beira de grandes rios. Ou a violência econômica do Evil Empire; ou tantas outras formas de crueldade e desumanização.

Não é uma revolução por parte de uma inexistente classe operária ou uma economia planificada que nos levarão ao meu horizonte libertário. Isso eu ainda não resolvi – não sei como se chega “daqui” até “lá”.

Mas o “lá” continua lá, onde sempre esteve, no lugar onde os homens terão tempo e paz para se dedicar a criar e a transar, expressando-se em seu pleno potencial humano. Opa! Transar não era parte da herança, era? Não importa: eu criei em cima…

Marilia


BodyStuff