Luisa, queria responder sua questão com um pouco mais de detalhe, por isso demorei. Então vejamos o que o jornalista da Void lista como os “culpados” pela morte da modelo anoréxica:

  1. Bookers;
  2. Agências de modelos;
  3. Mãe de modelo;
  4. Os padrões da moda;
  5. As modelinhos

 

Primeiro, vamos dar uma examinada nos conceitos envolvidos nesta questão, que ao meu ver está uma grande salada. “Culpa”. Mesmo nos dicionários, há certa confusão e acho importante clarificar esse ponto, caso contrário não chegaremos a lugar nenhum e portanto a AÇÃO nenhuma – que é o que importa. “Culpa” é um conceito ligado a “dolo”, uma ação

“que se configura quando houve intenção criminosa e desejo de obter o resultado da ação ou omissão delituosa” (Houaiss). Ou seja, culpa implica INTENÇÃO. Como neste caso estamos falando da morte de uma pessoa, quando nos referimos a “culpa”, estamos nomeando assassinos.

Admito que é uma discussão complicada, parecida com aquela que envolve suicídio (e a morte por anorexia não deixa de ser um suicídio): de quem é a “culpa”? Dirão os religiosos que é sempre da própria pessoa, já que tirou algo que apenas Deus poderia tirar. Mentira. Suicidas são, segundo todas as estatísticas, vítimas de desordens mentais não tratadas. Então a culpa seria de quem não diagnosticou? Digamos, do médico? Ou de quem sequer suspeitou da necessidade de uma consulta, digamos, os familiares? Ou do Estado, que não fornece serviço de saúde eficiente para identificar e tratar desordens associadas a suicídio?

Viu como é complicado?

No caso da morte da modelo anoréxica, não houve crime propriamente dito, de modo que não é possível identificar CULPADOS. É possível sim, e eu já disse isso em outro post, identificar responsabilidades e condicionantes. Responsabilidades individuais e condicionantes sociais.

Eu dividiria as responsabilidades individuais em dois tipos: as de vínculo pessoal e as de vínculo institucional. As de vínculo pessoal são OS PAIS (e não a mãe apenas, que coisa idiota! Como se o pai e seu óbvio fracasso como parâmetro de valorização feminina pelo gênero oposto não tivesse falhado também!), outros familiares e círculo direto de convívio (professores, colegas, igreja, etc.). As de vínculo institucional são os tais bookers, os “caçadores de talentos” e ocupantes de cargos decisórios em agências de moda. Todos têm responsabilidade individual, já que suas funções envolvem risco e portanto necessariamente a capacidade de exercer controle sobre ele. A diretora da Elite necessariamente deve ter uma orientação por parte de profissionais da área da saúde para identificar sintomas patológicos nas modelos e intervir, uma vez que se poderia até classificar esse episódio (morte por anorexia em modelos onde contratualmente devem permanecer com IMC excessivamente baixo) como “acidente de trabalho”. A fábrica teoricamente deve indenizar a família de um operário que se lesiona em suas instalações a ponto de ficar inválido. O mesmo deveria ocorrer com as instituições que organizam a vida profissional dessas modelos.

“Os padrões da moda” é um termo totalmente vazio. A moda tem tendências estéticas que se substituem segundo uma lógica onde fatores variadíssimos concorrem, desde os mais diretamente econômicos (é preciso tornar obsoleta a moda do verão passado para que você compre as roupas deste ano) até aqueles ditados por quem constrói o discurso estético (esse ano tem babado e a cor é rosa e amarelo, por exemplo). São os padrões de BELEZA, e não moda, que realmente complicam a situação. Vejam só: babados em blusa amarela numa moça de 1,60m pesando 65kg ou em uma de 1,75m pesando 53kg continuam sendo babados em blusa amarela. O problema é achar que, com ou sem babado, de calça ou saia, e principalmente PELADA, a de 1,75m com 53kg é mais bonita do que a de 1,60m com 65kg. E que, portanto, é a altona magrela que deve desfilar a blusa amarela com babado.

Então a discussão mudou de foco. Em vez da “culpa” cair nas costas dos designers (que criam os “padrões da moda”), cai numa entidade completamente difusa que são as “estruturas do discurso dominante”.

Acabou o conceito de culpa, entrou o de condicionante social.

TODAS – sem exceção – as instituições sociais constroem e desconstroem padrões estéticos, incluindo os de beleza corporal feminina. Os fatores que levam à valorização da maior estatura, por exemplo, conduzem à dominação imperialista e neo-imperialista. Todos sabem que os povos europeus e seus descendentes na América do Norte são mais altos. Os fatores que levam à valorização da magreza de forma ampla (pouca massa corporal total) envolvem desde uma nova cultura reprodutiva, a infantilização do corpo feminino como bem apontou a Valéria em outro tópico e outros elementos. Todos obedecem uma lógica de dominação, sem dúvida. Mas esta é uma sociedade estratificada, onde imperam os conflitos de relações de poder (entre classes, entre gêneros e entre etnias).

Assim, olhando o problema de forma um pouco menos simplista, fica mais fácil tentar intervir sobre ele com políticas públicas adequadas e atitudes individuais mais responsáveis. Chega de ficar demonizando este ou aquele – não leva a nada esse tipo de raciocínio.

 

Marilia

 

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