Marombeiro que é marombeiro não tem frescura. Tem sangue nos olhos (olha lá, Stevie). Treino que é treino é hardcore (do Jacaré). Treinar com luvinha é frescura. Atrapalhar o intervalo entre as séries do cara treinando é a pior falta de educação que alguém pode cometer. Peso cai no chão e faz barulho mesmo. Quem treina pesado faz cara feia. Quem treina pesado faz barulho. Quem treina pesado não bate papo. Quem treina pesado odeia quando tentam bater papo com ele. Buscar os pesos maiores e não encontrar porque a academia tem mais quantidade de “peso de frango” é irritante. Cara que puxa ferro pesado tem desprezo por aulinha afrescalhada (mestre Braulio). Peras conversando e empatando o aparelho tiram o cara do sério (de novo, grande Braulio). Comida é peito de frango, macarrão e batata – o resto é diversão.
Tudo isso faz parte do “ethos” hardcore, algo partilhado pela cultura da maromba, códigos de uma comunidade dispersa mas que se reconhece pelo visual, gíria, atitude em sala de treino e até mesmo jeito de se portar.
Existem academias, em geral pequenas e underground, onde essa cultura é o defaut.
Na maioria das academias, no entanto, não é. Trata-se de códigos partilhados por uma minoria que sempre se destaca, pelo bem e pelo mal. Para o olhar desavisado, os garotos um pouco mais definidos ciscando perto dos pesos podem parecer pertencer a essa cultura, sem se destacar do verdadeiro ferreiro ali do lado, quieto, concentrado, em geral menos definido, maior e treinando mais pesado.
Nada irritaria mais o ferreiro de verdade do que essa confusão: os caras que treinam para ficar com um bíceps um pouquinho mais visível para impressionar meninas na balada merecem do ferreiro o mais profundo desprezo.
Eu me pergunto de onde emergiu esse sistema. Não tenho respostas fáceis, mas uma delas é que há algo de moral nisso. O neguinho da balada não tem um compromisso com os sacrifícios e disciplina que o treino sério exige. Não adere de fato ao estilo de vida e “princípios”, ainda que eles sejam mal-formulados. Não se interessa em se aprofundar nos conhecimentos sobre treino. Não conhece os nomes do bodybuilding. Penso que sem articular isso claramente, o verdadeiro ferreiro acredita que constroi um corpo não apenas mais belo, mas superior numa dimensão mais ampla. Outra resposta tem a ver com o fato de que, ainda que a sociedade o negue, o bodybuilding e práticas correlatas constituem um esporte e, como tal, mobiliza paixões. A terceira diz respeito à questão de classe. Não é à toa que os objetos do desprezo do ferreiro se concentrem nas “academias de playboy”. São as academias de classe média e classe média alta.
Por ser marginal, ferro pesado é coisa para os excluidos. E, excluidos, se encistam em sua própria cultura, defendendo seu nicho de superioridade.
Eu não inventei nada do que disse aqui: boa parte das frases, ouvi da boca dos meus “irmãos de maromba”, que generosamente me aceitaram como uma deles. Outras, peguei na Internet, nos interessantíssimos sites que alguns deles construiram.
É uma cultura aparentemente hostil, agressiva e bruta. Mas é nela que eu identifico algumas das atitudes mais transformadoras e positivas quanto a identidade corporal (a única que eu reconheço) humana. O resto, cá para nós, é frescura mesmo.

Marilia


BodyStuff