Alguns dias atrás a Mel me perguntou sobre terapia (psicoterapia) e o lugar dela na luta de todos nós por uma vida com mais paz, serenidade e felicidade. Nunca expressei esse ponto de vista por escrito antes, mas como esse é um espaço para controvérsias, mesmo, vamos lá: tendo a achar que é um beco, ou melhor, um labirinto, sem saída e um caminho estéril.
Essa minha opinião está relacionada com o conceito de alienação corporal que explorei antes neste blog. A idéia, grosseiramente, é que somos em maior ou menor grau alienados de nós mesmos através de uma cisão operada pela própria cultura entre nossos corpos e uma suposta “mente” que seria independente dele. Essa cisão (“mente-corpo”), que é tão antiga quanto nossas raízes históricas, se alimenta de outras polaridades: “força-inteligência”, “pensamento-movimento”, “discurso-prática” e assim infinitamente.
O problema é que, infelizmente, apesar das formas mais perversas dessas polaridades terem como origem certas formas de violência social, a raiz de todas elas é a própria condição humana. Esse acidente evolutivo que deu à nossa espécie o pensamento abstrato, a capacidade de simbolizar e a base da CULTURA, também proporcionou a ferramenta para nos representarmos como habitantes de um mundo de representações, um “mundo das idéias”.
Somos, essencialmente, seres contraditórios e temos que administrar, pela eternidade, nossa condição paradoxal. O problema é como.
Se a direção dessa contradição é a cisão, a separação, a DES-INTEGRAÇÃO, então a maneira de administrar essa condição é algo de sentido oposto. Coisas que INTEGREM, ou RE-LIGUEM o homem consigo mesmo.
Antes de chegar ao meu metier e missão, que é o movimento humano e a atividade física, quero falar de integração e re-ligação, sensu lato.
A palavra “religião” é interpretada, etimologicamente, de várias maneiras. Uma delas associa a palavra à expressão RELIGARE, ou ligar fortemente, ou mesmo “re-ligar” (ligar novamente).
O lado “do bem” das religiões é uma das opções exploradas há milênios pelos humanos para administrar nossa contradição essencial. A religião, ao proporcionar ao indivíduo momentos de solidão e uma vivência mais emotiva e sensorial, dá a ele essa oportunidade de se “re-ligar” consigo mesmo. Duas reflexões derivam disso: primeiro, que qualquer processo de integração requer essa “intra-reclusão”, já que o mundo social é uma força permanentemente alienante sobre o indivíduo. A re-integração é, portanto, um processo individual e solitário, que requer autonomia e responsabilidade. A outra é que é o distanciamento da razão e da articulação intelectual das vivências que dá oportunidade para a re-ligação, ou integração. O pensamento racional, em si, é alienante.
Nesse momento em que estou escrevendo este artigo e “me tornei” as idéias que manifesto aqui, estou temporariamente alienada ou pelo menos em grande parte separada de mim mesma. Isso pode ser uma parte produtiva e fértil da minha vivência pessoal DESDE QUE eu tenha o tempo e o espaço prioritários para recuperar minha condição íntegra, ou me re-ligar.
Eu imagino, portanto, que a representação “saudável” de Deus seja a desse “espelho re-constituidor” interno a cada indivíduo, onde ele recupera sua condição “perfeita”. Em Deus, o homem se vê novamente perfeito, re-constituido, re-integrado.
A queda do paraíso poderia ser interpretada, à luz dessa perspectiva, como o momento dramático em que o homem perdeu a integração. Se tornou plenamente humano e ganhou sua contradição essencial. Mas a religião dá a ele a perspectiva de que sempre há uma volta e que Deus estará sempre disponível para consertá-lo, integrá-lo e torná-lo novamente perfeito.
Pode até ser que Marx tenha tido razão quando caracterizou a religião como algo socialmente alienante (“o ópio do povo”). No entanto, acredito que a religião sempre teve e sempre terá esse papel de estratégia integradora e, portanto, positiva para a humanidade.
Falando em ópio, as drogas recreativas, que de forma geral são altamente alienantes, em contextos específicos podem até ser ferramentas de integração, como utilizadas em determinados rituais religiosos.
As práticas meditativas vão um passo além nessa direção, uma vez que seu alvo é a integração propriamente dita. Elas recuperam várias tradições religiosas e místicas, limpando-as da simbologia teológica e mantendo as técnicas de isolamento, quietude e controle do pensamento.
No entanto, de longe o que considero mais re-integrativo é a atividade física sistemática e disciplinada. Ela é a ferramenta mais eficiente para proporcionar ao indivíduo o momento de solidão e presença em si mesmo que a integração requer. O movimento disciplinado e deliberado só pode ser executado com muita concentração. É essa “concentração”, ou presença deliberada em si mesmo, que leva à integração.
Algumas pessoas me perguntam onde vejo isso no que faço. Vejo em toda parte: no esforço para realizar um determinado número de repetições de um mesmo movimento resistido contra uma sobrecarga planejada, o que, sem concentração, é impossível, já que a crescente fadiga periférica bloqueia a execução; na corrida em velocidade constante; em séries de natação com movimentos coordenados. Mas nada se aproxima dos levantamentos básicos executados em intensidade alta (próximos à carga de 1 movimento voluntário máximo): neles, toda a concentração é necessária. Só consegui aumentar minhas cargas quando aprendi a respirar, isolar o ambiente e me concentrar inteiramente no movimento a ser executado. Nesse momento, retiro os fones do meu mp3 do ouvido; não escuto ninguém falando; não enxergo nada. A barra e eu somos uma coisa só.
Sem heresia nenhuma, esse é o meu momento religioso, o momento da minha própria perfeição recuperada.
Serve para mim – cada um tem seu caminho, mas todos necessitam de integração e re-ligação.

Marilia


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