Em 1964, Eric Berne escreveu um clássico da psicologia clínica na linha da Análise Transacional chamado “Games People Play” (os jogos que as pessoas jogam). Faz tempo que não leio esse livro (uns sete anos), mas me lembro que ele descrevia três categorias de interação (acho que era isso): os rituais, a intimidade e os jogos. Os rituais são coisas como “olá, muito prazer, Marilia Coutinho”, ou “tudo bem com você?”, que servem para azeitar situações sociais padronizadas. A intimidade seria a condição perfeita de satisfação das necessidades de interação humana e os jogos seriam o que a substitui, já que as inúmeras cacas psicológicas da nossa história impediriam que vivêssemos em real intimidade com nossos pares. Esse foi um dos livros mais impactantes da minha vida, talvez pelo tanto que o “que não é dito” me incomoda.
Só que em vez de falar sobre jogos, quero falar sobre intimidade. Berne aponte a “impregnating love making” como o paradigma da interação íntima. O que me atrai no modelo dele é que, ao contrário da perspectiva psicanalítica, interações e cacas interativas são vistas de forma integrada como ações simultaneamente corporais e afetivas. Eu também acredito que as situações de intimidade ou falta dela estão bastante assentadas sobre atitudes duplamente corporais e emocionais. Por isso acho que talvez a descrição de intimidade ficasse mais completa se incluísse a relação entre mães e filhos biológicos. Não há nenhuma situação de maior intimidade do que a vida intra-uterina. Neste estágio, as duas (ou mais) pessoas constituem uma entidade única, em interação perfeita sob todos os aspectos.
Essa herança de intimidade, ao meu ver, permanece. Mães não possuem defesas em relação a filhos. Os cocos dos bebês não provocam repulsa. Seus dedinhos melados em nossas bocas não nos causam vômito. Por vários meses, ainda existe um vínculo de alimentação entre os dois: a amamentação. Eu acredito que é essa integração corpórea primitiva que se constitui na base da relação de permanente intimidade entre mães e filhos.
Eu também tenho uma (filha), já relativamente grande (16 anos). Ainda coloca alimentos rejeitados no meu prato e toma meu shake. Diz que é mais fácil se comunicar comigo.
Não sei se é muito fácil preservar intacta aquela intimidade primitiva da origem dos bebês, já que aos poucos eles precisam se diferenciar e construir uma identidade separada, e em parte em oposição à nossa. Mas acho que aquela arquitetura básica de unidade corpórea entre duas pessoas permanece numa canto fundamental qualquer da nossa memória física, emocional e sei lá mais que.
Sei que até hoje me dá muita aflição não saber onde ela está.

Marilia


BodyStuff

  • Num dia em que estou desocupada de araque (mesa cheia e pouco saco), vim ler seus posts mais antigos… hein, impressionante essa relação de mães e filhos/as, tenho 31 anos, coloco os alimentos rejeitados no prato da minha mãe e bebo no mesmo copo que ela… 😉 e é a pessoa que eu mais amo no mundo. Lá em casa a gente costuma dizer que é de uma “seita”, porque muita coisa que eu achava que era só minha (certas manias e caracterizações), descobri depois de um tempo que a minha mãe é igualzinha!!!!!
    ah, e até hoje se demoro mais na rua (ainda mais considerando q moro no Rio, né?) ela fica doidinha…

    beijos, moça