Depois das feias histórias de traição, manipulação e jogos de mentira e terror que me deixaram fora do campeonato brasileiro, me tornei independente. Independente de federação, de grupo, de tudo. Conseqüentemente, fiquei órfã de equipe – sem apoio e sem equipamento de treino.

No começo, o alívio da atmosfera podre predominou. Dane-se onde eu treinaria: daria um jeito. Fui à Brasília e voltei. Então, o problema se tornou concreto: onde me preparar para cinco campeonatos que ainda tenho pela frente?

Uma grande rede de academias de classe média alta havia me acenado com “vipagem” há algum tempo: poderia treinar lá de graça o quanto quisesse. Essa rede tinha interesse em construir um vínculo com os esportes de força e vínhamos “trocando figurinhas” há algum tempo. Achei que esse era o momento perfeito: afinal, eu precisava de um local para treinar, tenho outros órfãos interessados e eles precisavam de atletas de força.

Mas… eu tenho pressa – eles não. O coordenador geral encontra-se fora do país. Pressionei: afinal, e a velha vipagem? Nada feito: entendi a mensagem de que eu esperasse, e esperasse sentada. Podia demorar.

No desespero, recorri à minha antiga equipe: pagaria para treinar, não queria vínculo nenhum, mas sim barras e pesos.

“Se você se humilhar e se deixar abusar me afasto de você”, me disse Caramello, que passou uma semana me tirando da merda e tinha todo o direito de exigir que eu permanecesse fora dela.

Opa! Faz todo sentido! Sim, as condições para preparação para um campeonato de powerlifting na academia onde dou aula não são as ideais. Mas é um local hospitaleiro, onde sou bem tratada e onde posso me adequar às condições. O que importa mais: equipamento perfeito ou minha dignidade? Minha dignidade, e eu havia esquecido. Valeu o chacoalhão.

No dia seguinte, conversando com o administrador da academia, tive uma proposta inacreditável para expandir meu projeto e eventualmente implantá-lo em grande escala na região. Além do apoio de infra-estrutura, mais apoio: apoio político. E a liberdade para levar minha equipe.

Mais um dia se passou e, numa situação comercial inesperada, tive uma nova proposta também de natureza política referente a um espaço para implantação do esporte e expansão do projeto social.

Em dois dias, de órfã desamparada, passei a ter cinco boas opções para escolher.

Moral da história?

Leia a história seguinte.

Já mais animada, peguei as fotografias que tirei do treino do Caramello e seus boards para mandar fazer os meus. Levei numa marcenaria aqui perto. Feliz da vida, voltei para casa para esperar um orçamento do dono da oficina meio brega, meio fresca, que  não estava lá. Duas horas depois ele me ligou: disse que faria com cedrinho, mais leve, e que o trabalho todo custaria R$750,00. Nossa! Que valor alto! Ele explicou que só a madeira, cara, custaria R$250,00. Os demais R$500,00 eram “custos operacionais e mão de obra”. Informação relevante: o equipamento em questão (os “boards”) são apenas sanduíches de placas retangulares de madeira com um cabo.

Liguei para o Caramello e perguntei o quanto o jogo dele tinha custado e falei do meu orçamento. “Ta louca?? Não pode ser mais que R$100,00, não é um armário embutido com prateleiras! Vá a uma madeireira.”

Voltei na marcenaria e peguei as fotografias. O dono ainda quis argumentar, eu desconversei e fui a uma madeireira – a primeira da Corifeu. Todo o jogo saiu por exatos R$100,00, mas eles não tinham a serra pequena que poderia fazer o cabo na madeira maior. Fiz amizade com o gerente, Mauricio, que também é ligado ao esporte. Me indicou um amigo marceneiro para fazer o serviço.

O amigo fica na Otacílio Tomanik, perto daqui, numa ladeira. A entrada é esquisita: um portão suspenso no nada, no meio da parede. Chamei e apareceu Raimundo, um marceneiro-artesão que deu mil idéias para transformar meu tosco equipamento de peso em algo sem arestas e mais confortável. Me mostrou seus brinquedos de madeira e me contou histórias. Tudo saiu por R$70,00.

O marceneiro da loja fresca mentiu, e mentiu com vontade: o custo do material não era R$250,00, e sim R$100,00. A mão de obra não valia R$500,00, e sim algo em torno de R$100,00. Por que será que ele mentiu tão grosso, se há poucos quilômetros da Av. da Escola Politécnica, onde ele se situa, existem várias grandes madeireiras? Deve ter apostado que eu não me daria ao trabalho de verificar. Mas verifiquei, ele perdeu não só uma cliente, mas inúmeros clientes potenciais, pois jamais o indicarei a ninguém.

A grande rede de academias pode ter se sentido numa posição favorável, já que a pressa era minha e o equipamento deles, mas a realidade mudou.

Minha antiga equipe não perdeu apenas uma atleta, mas a pessoa que organizou o único projeto social esportivo nos esportes de força no Brasil, que deveria ser implementado ali. Junto comigo, foram-se apoios e sabe-se lá o que para um futuro que nunca existirá. Por que? Sei lá. Talvez todos apostassem que eu me submeteria, ou que a relação custo-benefício de me ter por perto era desfavorável.

A moral da história agora fica clara: diante destas situações abertamente desfavoráveis a nós e muito favoráveis a alguém que não joga de forma inteiramente limpa, vale a pena esperar. Muitas vezes, dias, um dia, ou às vezes algumas horas depois algo muito melhor se apresenta.

 

Marilia

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