Dia 21, quarta-feira, eu acordei esquisita. Desde domingo à noite, com a volta para casa da Copa Teles, meu humor andava de mal a pior. Indubitavelmente pesaram o “efeito Cinderela” e a “queda na real” que a volta de um campeonato representam. Mas neste caso, outros ingredientes influiram.

Há algum tempo meu sono andava particularmente atrapalhado. Situações estressantes sempre existem e talvez tenham se acumulado um pouco mais nos últimos dois meses. No entanto, algo me diz o que realmente variou foi minha reação. Por que? A única resposta que tenho é: é o ciclo da doença. Desde que passei a controlar minha desordem bipolar com treino intenso e formas de elevar minha testosterona, não tive mais episódios com conseqüências sérias ou irreversíveis. Mas de forma alguma posso afirmar que as oscilações de humor desapareceram: não desapareceram e não vão desaparecer. O que tenho hoje, acredito, é o melhor que um bipolar pode ter. Tenho qualidade de vida, 90% do tempo me sinto realmente feliz, cheia de energia e longe de riscos muito altos de suicídio. Mas estabilidade de humor, acho que não existe.

O que percebi desta vez foi um acúmulo de pequenos sinais: o sono foi ficando cada vez pior, minha resposta de irritação aumentou e curtos momentos do que parecia muito uma depressão. Sentia aquele desânimo com tudo e todos, uma tristeza profunda meio sem explicação. Mas como eram muito curtos, não registrei mudanças por aí.

Outro problema em monitorar essas variações, no meu caso, é que todos os sintomas desaparecem durante o treino. Talvez até inconscientemente, para me defender do progresso dessa fase, pedi ao Gilson para ir a todos os primeiros campeonatos do ano. Meu treino ficou realmente intenso. Nas duas horas e pouco que treinava, os sintomas desapareciam e permaneciam silenciosos por muitas horas. O que quer que seja que o treino produz (e devem ser muitas coisas, do ponto de vista endócrino e neuroquímico com efeito sobre humor), tem durabilidade.

Mesmo assim, o sono foi piorando. Há um ponto em que duas ou três vezes na semana anterior, cheguei a usar 10mg de valium para induzir meu sono.

A criatividade continuava alta, mas meus textos perderam qualidade. Somente por uma questão de estilo e treinamento era possível manter uma linha. A profundidade e reflexão se perderam.

Paralelamente, senti que meu progresso nos treinos mais ou menos havia estacionado. Houve um ou outro momento em que notei melhoras, e foram sempre nos dias seguintes de grandes pioras no humor – “mini-surtos”. Um exemplo interessante foi no início da periodização passada, em que havia um item da quarta-feira, se não me engano, que eram seis séries de cinco repetições de supino com 60% da carga máxima. Da primeira vez que fiz isso, 50kg ficaram pesados, não consegui imprimir potência e no fim reduzi a carga. Houve um “mini-surto” no começo da semana seguinte (começo de semana é batata para mini-surto). No treino seguinte, 50kg eram leves, potentes, coisa que a gente reconhece pelo barulhinho da anilha na barra com a velocidade do movimento concêntrico. Pontos a se considerar.

Talvez esse “grande surto” estivesse anunciado para domingo, o dia catastrófico da volta de São Bento. No entanto, um amigo do Paraná veio a São Paulo e passamos dois agradáveis dias em atividades – segunda e terça feira. Na quarta eu surtei.

Deflagradores: sim, existem e são essenciais. Compreendê-los talvez dê a nós, portadores, condições de prever a evolução de nossa condição e controlar efetivamente qualquer resultado muito negativo.

Depois do contato com meu amigo, que também é portador de desordem bipolar, estou convencida de que os deflagradores podem todos ser incluídos na categoria de “relações tóxicas”, sejam elas amorosas, familiares, de amizade ou profissionais. Grandes catástrofes não deflagram surtos. Nossa dificuldade é afetiva, de modo que o deflagrador é afetivo.

Este surto especificamente foi deflagrado (atenção para o cuidado com o termo “deflagrado”, em lugar de “causado”) por uma combinação de conflitos de ordem familiar (pequenos, mas importantes) com conflitos de ordem profissional e das relações sociais “gerais”. Estes últimos (profissionais e gerais) foram os determinantes. Vejamos em que categorias entram:

  1. compromissos não honrados. Essa é uma categoria à qual já me dei conta de ser altamente reativa. Três situações de compromissos não honrados se acumularam, sendo duas delas em condições mais graves na última semana. Os compromissos eram de ordem profissional, relacionados a um projeto em que investi muito esforço e energia. Quem não honrou os compromissos foram pessoas que se propuseram a compor a equipe em condições de igualdade comigo. Minha reação consciente é uma mistura de decepção, frustração, perplexidade e melancolia, algo como “não entendo por que estão agindo assim, mas sempre acontece igual”.
  2. comportamento exploratório. Isso pode ser descrito como sistemático assédio por “ajuda” – seja ela material, intelectual, de trabalho ou outra. Pedidos de ajuda jamais me incomodam. Essa categoria em especial é incômoda no momento em que percebo que existe, no outro, uma percepção de obtenção de “superávit” de vantagem, ou não-reciprocidade. “Dá para você me fazer x? Dá para você me comprar Y? Dá para você pagar W?” O momento crítico é a percepção de que minha representação, para o “outro” é de um “recurso”, só que camuflado como amizade. Aí minha reação é realmente muito ruim, talvez semelhante à da relação tóxica anterior (decepção, frustração, etc.).
  3. Jogos de poder. Não sei jogá-los. Me confundem. Não entendo o objetivo do “adversário”. Em geral acaba me parecendo com algo na linha de “atrapalhar por atrapalhar” e vou da irritação à depressão rapidamente.

As relações tóxicas pessoais são altamente deflagradoras também, mas nesse surto foram pouco importantes. Jogos de culpa são os piores nesta categoria.

O dia do surto em si começou anunciando o episódio: acordei sentindo a tradicional mistura de confusão mental e idéias de derrota, auto-destrutividade e desesperança. No entanto, durante o treino, isso se dissipou. Saí com pressa para uma reunião com um grupo extremamente agradável, de uma ONG de diabetes. Mais uma “trégua” para o processo. Durante o percurso para casa, no entanto, nos congestionamentos paulistanos, o humor destrutivo rapidamente emergiu. Cheguei em casa com más intenções. Desliguei todos os telefones e mandei um e-mail transferindo as senhas do meu projeto para o parceiro em quem confio e informando a toda a “equipe” inadimplente que o responsável passava a ser o tal parceiro, caso eu “me ausentasse”. O parceiro, que é um amigo muito próximo, entendeu o que se passava e tentou de todas as formas contato. Não conseguindo, acionou meu irmão, que acionou o resto da família. Teria eu feito algo destrutivo? Não sei. Talvez sim, talvez não. O risco não foi pequeno. Logo chegou minha filha em casa munida de um DVD de comédia e leite. Assisti o filme, comi e dormi, com indução (valium).

As horas seguintes foram de ressaca, mas acordei em outro mundo. O surto foi curto, de horas. Os meus sempre são. MUITO curtos.

Acordei e tomei inúmeras decisões. A primeira delas foi em relação às relações tóxicas: re-fiz a equipe e busquei alternativas para tudo. Neguei dois ou três pedidos exploratórios e me dei conta instantaneamente de que saí da categoria de “amiga” para tais pessoas, confirmando que era apenas uma relação exploratória.

Digno de nota foi uma instantânea recuperação da qualidade do meu sono e uma energia absurda para o treino. Percebi um ganho de força mensurável. Muito parecido com o que foi o efeito que descrevi subseqüente ao meu primeiro campeonato, o brasileiro de supino: uma semana de muito sono, estável, sem indução e um incrível ganho de força. Sem ergogênicos.

As lições que ficam são muitas, mas as mais importantes, creio, são o fato de que essa desordem veio para ficar. O que nós, portadores, podemos e devemos fazer, é entender nossos padrões. Acredito firmemente que fazendo isso, ganhamos um controle eficiente sobre nossas vidas, que tem grandes chances de continuarem com boa qualidade. Um bipolar não precisa ser “suprimido” com lítio para viver (e, se tiver, melhor nem viver, na minha opinião). Dá para controlar a oscilação de humor de forma menos castrante. A segunda lição importante é que as relações tóxicas são realmente letais para nós. Estes pequenos vampiros do mundo, que não costumam fazer grande mal a ninguém, para nós são verdadeiros assassinos. Eles sim, são o grande perigo e identificar como as relações com eles se manifestam é crucial para nossa sobrevivência num mundo afetivamente tóxico.

 

Essa reflexão é dedicada ao amigo mencionado acima cuja presença de certa forma adiou o surto, e em parceria com o qual travo essa guerra contra a desordem bipolar e contra os que nos querem mudos e inertes.

 

Marilia

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