Maestria significa domínio ou autoridade sobre algo. Vem do latim magister, que quer dizer chefe, diretor ou professor.

Toda vez que eu vou preencher aquelas fichas cheias de perguntas sem resposta, como “profissão”, “raça” e “nacionalidade”, que me dão vontade de virar do lado em branco e escrever um tratado, fico na dúvida. Qual é minha profissão? Já respondi “bióloga e socióloga” (nunca só bióloga), “socióloga”, “atleta”, “pesquisadora” e “empresária”. Mas, engraçado, nunca respondi aquilo que de fato percorreu toda a minha trajetória profissional: professora.

Fico pensando o motivo. Talvez porque a gente “take for granted” (toma de barato, assume como garantido e portanto dá menor valor) o professor – tanto o outro como o professor dentro de nós mesmos.

Eu dei aula desde sempre. Quando eu era estudante de doutorado, dei aula em muitos lugares. Em alguns, fui contratada para isso. Em outros, como na USP, assumi turmas das quais eu era a monitora, mas cujos professores não só detestavam o curso como tinham medo dos alunos. Era a famosa “história e filosofia da ciência para Biologia”. No fim do curso os estudantes, que por três anos fizeram greve para tirar a disciplina do currículo, marcharam em grupo na diretoria da FFLCH exigindo que a disciplina fosse mantida e nos meus moldes. Naturalmente o departamento de História não gostou nada disso. E eu? Ah, eu gostei. Eu aprendi jeitos diferentes de dar aula, eu avaliei cada momento e depois publiquei um trabalhinho sobre a experiência.

Ao mesmo tempo eu dava aula numa universidade de pobre, a OSEC, atual UNISA. Eu tinha um aluno que não sabia escrever. No dia da prova, que era dissertativa, eu sentei ao lado dele e escrevi o que ele me ditou para provar para ele que idéias ele tinha, e muitas. No começo ele era muito defensivo comigo, achava meu curso de metodologia da ciência uma perda de tempo. Nesse dia, em que o desespero e humilhação de não conseguir se expressar por escrito foram administrados, ganhei um amigo. Não sei onde ele está, mas espero que hoje ele acredite mais em si mesmo.

O começo da minha carreira de professora foi, acredito, o que definiu meu jeitão de ensinar. O que eu tinha de arrogante e confrontacional com os colegas poderosos, arrogantes e autoritários, eu “descontava” nos alunos com um turbilhão de “não seis”. Eu queria que eles entendessem que aquela empáfia toda (dos pseudo-fodões) era uma forma de violência injustificada e que ninguém, absolutamente ninguém, tem posse e conhecimento esgotado de um conteúdo. Eu queria que eles entendessem que isso é assim por definição, já que em primeiro lugar, o conhecimento é dinâmico e controverso por natureza; em segundo, que cresce numa escala de tempo que não permite que ninguém se mantenha atualizado; em terceiro, porque o conteúdo define-se a si mesmo no processo de sua construção, do qual eles, meus alunos, faziam parte.

Como eu podia ensinar, se era assim? A resposta é simples: porque ensinar não é despejar um conteúdo sobre um continente vazio. Ensinar é conduzir alguém por um campo de modo que os conteúdos possam ser manipulados com alguma eficiência por ele.

“Professora, a descoberta da estrutura helicoidal do DNA foi uma revolução científica?”

Boa pergunta! Vamos primeiro dar uma olhada nos marcos factuais – eu gosto de começar por aí. Depois vamos ver como diversos autores entendem “revolução científica”. Feito isso, quem responde, agora, é você!

Eu sempre gostei de dar aula. Eu nunca tive problema algum em responder “não sei” – a essa altura, você já notou que eu tenho um prazerzinho nessa expressão. “Não sei” é uma chave dourada para uma viagem misteriosa.

Sempre foi muito fácil me relacionar com meus alunos.

É nessa hora, quando eu constato isso, que me bate uma dúvida dolorosa. Como pode ser que eu consiga dar aula para qualquer número de pessoas, ter a serenidade de lidar com a angústia de milhares, ouvir e “ler” os sub-textos na fala dos meus alunos e ao mesmo tempo ser incapaz de decifrar o básico no “jogo relacional” fora do contexto do ensino? Como posso ser tão incapaz, ineficiente, deficiente e inepta para lidar com a complexidade da comunicação humana, ter total rejeição a estranhos e horror a contato (que não seja com alunos ou atletas)?

Não sei.

Eu sei ensinar, escrever, levantar peso e algumas outras coisas. Eu sei fazer algumas coisas bem feitas. Mas o resto da imensa variedade de atos sociais que define os humanos permanece inacessível.

Eu sou uma boa professora. Tão boa que eu nem me preocupo em declarar isso nas fichas das perguntas impossíveis.

Talvez isso tenha que me bastar. O resto fica para outra. Vida.

  • Paulo Marcondes

    Acho que o “não sei” é primo do “que estranho”. Um colega de trabalho, quase-Doutor em Física, comentou uma citação (me foge de quem) que é mais ou menos assim: “Em Ciência, o ‘que estranho’ é mais importante que o ‘que legal’. Mais boa Ciência sai do estranhamento do que da admiração”

  • Boa!!