Ontem eu me submeti a um procedimento de mamotomia. Mamotomia é um sistema de coleta de biópsia mamária através de uma sonda a vácuo que extrai todo o tecido suspeito de malignidade (câncer) e tecido que margeia o mesmo, numa área de segurança.

É um procedimento (cirúrgico, isso é inquestionável) relativamente simples, não requer internação e pode ser feito num laboratório de diagnóstico bem equipado. Embora algumas mulheres sofram um pouco e reclamem do desconforto, é perfeitamente suportável e a recuperação parece rápida.

O que não é nada simples é lidar com os diversos elementos institucionais, sociais, econômicos, emocionais e simbólicos que envolvem o procedimento.

A mamotomia me foi prescrita por um mastologista bem indicado, simpático, sorridente, e, como tantos outros profissionais, com grande dificuldade em lidar com o processo de tomada de decisão médica. Por uma cultura mundial onde as relações de poder profissional e social de modo geral favorecem o médico, estes profissionais são despreparados para administrar (e muito menos conduzir) decisões coletivas, feitas em cooperação com o paciente. São quase incapazes de compreender que, em última instância, são assistentes de uma tomada de decisão do paciente.

Acredito que foi no site da American Breast Cancer Society ou outra entidade de grande prestígio que li uma frase na linha “seu médico irá decidir qual o melhor tratamento para você baseado…”. Ei! Seu médico não decidirá NADA!! Você decidirá – seu médico é pago, seja por você ou pela sociedade, para amparar sua decisão!

Meu conflito começou aí, no final do ano de 2009, com os dois médicos que não são o Paulinho (Paulo Muzy). Eu já tentei negociar uma mediação que me poupe a necessidade de me transformar num ouriço retórico, com todos os espinhos e armas para fora, cada vez que necessito interagir com um novo médico. Minha estratégia era que todos se comunicassem com meu médico, o Paulo, e se entendessem com ele. Não dá certo: a vaidade deles impede.

O mastologista, que é um gordinho sedentário (embora simpático e sorridente), foi inteiramente incapaz de compreender quase tudo que se seguiu à prescrição dele: primeiro, que a Medial basicamente obstruiu o processo de agendamento do procedimento. Um ano depois, impus isso à empresa através de uma ação de violência tão grande que me promoveu a paciente VIP. Mas isso envolveu horas e horas de denúncias, imprensa, advogados, minhas ameaças (sou boa nisso) por telefone a indivíduos variados e uns dois dias de cama pelos efeitos do stress. Não: já verifiquei e não se pode obter indenização por danos morais por estes motivos.

Segundo, que eu jamais comprometeria minha preparação para o campeonato Sul-americano ou Mundial para fazer um procedimento que, ele dizia (bobagem) que me impediria de treinar por pelo menos 15 dias, e por 30 dias não poderia treinar pesado.

O diagnóstico do final de 2009 e início de 2010 indicava um nódulo de classificação bi-rad 3. Um nódulo assim oferece pouco risco de malignidade (não superior a 2%) e sequer sugere a necessidade de uma mamotomia.

Mesmo assim, passado um ano, com uma guia sem data na mão, resolvi seguir a sugestão do mastologista e, após vencer a guerra contra a Medial, comecei a fazer os exames prévios à mamotomia. Não era um nódulo bi-rad 3. Mais provável bi-rad 4b ou até mesmo c. Bem visível no ultrassom, contornos bem definidos (bom), conteúdo heterogêneo (não muito bom), probabilidade de malignidade uma ordem de grandeza maior (23-60%).

Os primeiros exames haviam sido feitos no laboratório Delboni, que prima pelo bom atendimento ao cliente. Além disso, por eu ser atleta de alta performance, me foi dada a cortesia do Club Delboni, onde o paciente é tratado de maneira realmente diferenciada.

Já o CBD, reconhecidamente bom do ponto de vista técnico, indicado por alguns médicos como o mais preciso, é um lixo em atendimento. Alguém que paga uma fortuna num seguro médico que julga ótimo naturalmente se sentirá ofendido. Instalações desconfortáveis, filas, congestionamento, cadeirinhas de plástico e atendentes retardadas.

Tive que fazer uma mamografia, uma ultrassonografia e “esqueceram” de agendar as da mama esquerda. Quase foi necessário fazer mais exames. Fui bem clara: se eu tivesse que voltar ao inferno da Vila Mariana mais uma vez, eu não faria o procedimento, e, se o nódulo fosse maligno, responsabilizaria o laboratório e a equipe. Foi um escândalo por dia, com direito a gritos, ameaças e porradas na mesa, através dos quais consegui garantir meu atendimento (sem isso… estaria lá até agora).

Eu tinha bastante trabalho em andamento – tenho, aliás. Além disso, um campeonato de Strongman para coordenar, dia 28 (sábado passado). O procedimento era dia 31. A cada novo exame que me era solicitado, minha rotina sendo destruída, horas e horas do dia sob stress absoluto, a angústia aumentava. Parceiros, colegas e clientes me solicitando coisas que eu não podia cumprir.

Quando finalmente a ultrassonografia revelou que o nódulo não era o que se achava que era um ano antes, embora não tenha evoluído, eu passei a lidar com outras questões. A principal delas era o risco.

Já lidei com isso antes. Em 2008, uma ressonância magnética revelou, por contraste, um padrão de imagem suspeito. Indicava a possibilidade de uma necrose avascular, e, portanto, grandes chances de câncer. Foram alguns dias até fazer a cintilografia (após outra guerra contra a Medial) e ler um laudo cômico em que o médico se declarava incapaz de interpretar a imagem. Um congresso de ortopedia depois, 15 participantes foram igualmente incapazes, mas um 16º resolveu o mistério, mostrando que se tratava do “estranhíssimo” padrão ósseo típico de um levantador de peso.

Por uns 10 dias eu lidei com a idéia de que poderia ter um câncer avançado. Para mim, a opção de não tratá-lo e seguir meu intenso projeto de vida sem interrupções era clara. Para amigos e familiares, nem tanto.

Desta vez, vivi um repeteco do mesmo processo. Não está sendo divertido. Acho cansativo rever essa discussão carregada de valores que rejeito, de tabus sobre mortalidade, de questões sobre decisões de vida e de caretice familiar (alheia, não minha).

No entanto, não posso negar que é uma experiência rica. Vou além: acho necessária. Acho que pelo menos uma vez na vida, todo mundo deveria ter um diagnóstico terminal. Eu tive três e nas três vezes minha opção foi a mesma: rejeito o tratamento – vivo até o talo. Todo o tratamento envolvido nos meus diagnósticos seria desabilitante. Comprometeria o meu projeto de vida. Decidi não trocar, jamais, um projeto de vida por um de morte. Eu necessito deste corpo intacto para cumprir um determinado “programa” e acredito que as coisas aparentemente surpreendentes que faço são a herança que vou deixar. Não faço isso apenas por algum altruísmo religioso, mas porque é o que dá sentido à minha vida. Provo aquilo em que acredito, demonstro, obtenho prazer, vivo a transcendência. Nada disso pode ser adiado e muito menos trocado por anos de vida. Vida não se mede em anos e sim em densidade.

Essa escolha choca a todos. Me pergunto o motivo. Encontro vários. Acho que é o momento de se discutir esse tipo de coisa e colocar na mesa tudo isso: vida, morte, eutanásia, suicídio, sexualidade, envelhecimento e expulsar da sala os religiosos e intervencionistas estatais. Vamos devolver o processo decisório para onde ele nunca deveria ter saído: o indivíduo.

Agora devo deitar porque por enquanto isso dói. O corte, a lesão local mas também algumas feridas na alma que a interação dos últimos dias causou.

P S – o resultado da biópsia virá só dia 9, 10 dias após o procedimento. É idiota demais, não?