Outro dia, num forum mais hardcore em que eu discutia as estratégias que estava usando para montar meu treino, obtive a seguinte resposta aos meus posts: “uma dica: esqueça Tudor Bompa”. Wow! Assim? “Esqueça”, simplesmente?
Duas semanas antes, quando eu terminava um ciclo de hipertrofia com intensidade, em sets de 5-8 repetições até falha e intervalos de 45 seg., escutei de um jovem amigo estudante de educação física, muito inteligente e nada enturmado na maromba (mas professor de musculação), o seguinte comentário: “mas, Marília, isso não é hipertrofia, isso é força, hipertrofia é de 6-12”. E me citou alguns clássicos.
Esses dois mundos, hoje, no Brasil, não se falam.
De um lado temos a maromba hardcore com seu conhecimento obtido, infelizmente, através de mecanismos um pouco indiretos: traduções e popularizações nem sempre muito precisas. Ouvi amigos marombeiros que respeito como mestres prescrevendo coisas interessantes com argumentos absurdos.
De outro temos os novos profissionais que se interessam por treinamento de força tentando se distanciar do “mundo bronco” da maromba e aderindo a conhecimentos que eles não percebem derivar de um contexto onde a certeza científica está em permanente questionamento (como toda, mas essa área é particularmente controversa).
O resultado disso não é nada bom.
Em lugares onde existe mais dinheiro circulando por uma atividade, ela tende a se tornar cada vez mais sofisticada tecnicamente. Assim é nos Estados Unidos, embora não seja essa a percepção dos próprios americanos.
Há duas semanas, um gringo arrogante disse ao meu amigo que em revista boa (americana, claro), só atletas e treinadores escreviam. “Professor é coisa de brasileiro”, disse ele, do alto de seu desprezo por nosso país.
Não é bem assim. Nos sites e revistas importantes sobre treinamento nos Estados Unidos, boa parte desses “caras de verdade” possuem Ph.D.s e, portanto, estão tão qualificados quanto os professores universitários para falar tecnicamente sobre o assunto. Além disso, nos centros de produção e difusão sobre este conhecimento, como a National Strength and Conditioning Association, professores de universidade convivem em pé de igualdade com técnicos e consultores no mercado de fitness. Essa cisão absoluta entre o mundo acadêmico e o mundo da prática não existe, embora alguma diferenciação permaneça.
A solução, no nosso caso, é proporcionar um fluxo de informação de um compartimento para o outro.
Expor aos estudantes o conhecimento prático da maromba e a chance de buscar seus fundamentos em pesquisa de ponta seria uma cura para o “nerdismo”; educar os iron-brothers quanto a esse conteúdo mais técnico, no qual muitas especulações malucas se baseiam, daria a eles autonomia para pensar de maneira mais criativa e racional.
A informação, sem preconceitos, mais uma vez seria a solução para um conflito besta.

Marilia


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