Há tempos eu venho me incomodando e escrevendo sobre o incômodo que me causa que esta expressão, em geral compartilhada por praticantes recreacionais de modalidades de treinamento de objetivo puramente estético.

Escrevi sobre a falsidade ideológica de se posar de “herói” para os não-praticantes, como se a dor tardia suportada pelo treinamento para se ficar mais “bonito” (mais conforme aos padrões dominantes de beleza masculina e feminina) fosse algum selo de superioridade moral. Não é: o sujeito se submete a isso para cumprir seus objetivos estéticos, e não para salvar vidas.

Do mesmo jeito que não gosto do papo de heroísmo e analogias com nobres guerreiros de sociedades tradicionais para outros esportes: atleta não é herói. É um sujeito que obtém prazer ou outro tipo de recompensa da prática de algo que pode até incluir uma dose de sofrimento.

Mas “no pain, no gain”… essa realmente cutuca algo a mais.

Descobri: é porque além de tudo, é fisiologicamente falsa. Só um powerlifter pode saber disso.

Primeiro, um praticante de modalidades de treino para objetivo estético não chega nem perto das cargas proporcionalmente manipuladas por um powerlifter, “quilo por quilo” (peso manipulado por peso corporal). Segundo, que a dor tardia (“delayed onset muscle soreness”) é um cócega perto das dores que nós, powerlifters, administramos, produto de lesões crônicas, concussões, etc.

Meu survey não chegou ao fim, mas até agora tem confirmado que 90% ou mais dos atletas de alto rendimento passam o tempo todo administrando dor e que mais de 50% deles usa medicamentos com efeitos colaterais negativos porque não acham outra alternativa. Uma parte grande usa corriqueiramente anti-inflamatórios. Muitos usam analgésicos com opióides. A barra é pesada.

O principal, no entanto, é que a dor inibe a execução de esforços máximos. E isso é o terror de qualquer levantador de peso. Afinal, nosso objetivo é levantar o máximo do peso possível em uma única repetição, correto? Se a dor inibe isso, então a dor é nosso pior inimigo.

Está explicado por que essa expressão sempre me incomodou. Ela é uma mentira! Para nós, o algoritmo é:

IF pain

THEN no gain

E é isso!

Abaixo a dor. Que venham os métodos alternativos e nos salvem dessa praga que come nossa reserva neural.

 

Leia mais:

Inhibition of maximal voluntary contraction force by experimental muscle pain: A centrally mediated mechanism

 

  • Carlos Sapucaia

    rsrrsrs….certa vez, assistindo a uma “BRILHANTE” aula do professor Valmor Tricoli, ele também demonstrou indignação com quem usa esse termo, e adicionou: NO PAIN; NO GAIN; NO BRAIN!!! Infelizmente é aceito (por grande parte do público de academia) como NORMAL doer…. “ai amiga, essa aula de jump me matou, meus joelhos e minha coluna estão doendo horrores…mas td bem, NO PAIN, NO GAIN né? HA HA HA”

    • Sensacional! hahaha… É uma confusão total entre a dor tardia, que é tranx, e a “dor do mal”. Dizer que dor tardia é algo estóico é no mínimo patético. Uai! Não quer ficar bombadinho? Bonitinho pra balada? Então, filho, tem dor tardia e não é nada heróico ou estóico sentir. Agora, DOR? Dor do mal? Dor do jump é começo de tendinite, não tem nada de bonito ou sinal de ganho. A dor dos esportes de alta performance é péssima, é parte da vida do atleta e seus médicos combatê-la.

  • Granzotto

    Achei um post inútil, dizer que quem treina pesado treina para ficar bonitinho pros padrões da sociedade ou bonitinho para balada é um insulto. Pratico exercícios físicos na academia 6 vezes por semana e o objetivo nao é ficar bonitinho e atraente, e sim manter a qualidade de vida elevada, ter um corpo que nao morre com uma simples caminhada ou atividade que exige o mínimo de esforço físico. Sem contar que a auto estima de uma pessoa que é de bem com o corpo é 10x maior que de uma pessoa sedentária e obesa, todo mundo gosta de um “nossa como vc ta mais magro, mais bonito!”
    Essa opinião acima para mim, é opinião de leigo ou frustrado.

    • Aprovei este comentário para mostrar aos meus leitores como alguns têm grande dificuldade de interpretação de texto, bem como de processamento de informação. O indivíduo acima mostra ter um nível educacional razoável (nenhum erro gramatical, ortográfico ou estilístico horrível), de modo que minha hipótese é mesmo uma enorme interferência de fatores subjetivos no processo de interpretação, que impede a apreensão do conteúdo conceitual. E dizer que trata-se da opinião de um leigo… humm… Será que ele viu quem é a autora? Ou caiu aqui pelo Google, teve um acesso de ódio e escreveu no surto? Bottom line: melhor pensar antes de escrever.

  • GUILHERME

    Marília, no fundo creio que essa premissa tenha um fundo de verdade. Não no aspecto crônico que você citou mas de uma forma aguda. Treinamento com o objetivo estético é bioquimicamente tortuoso considerando a acidez provocada pelo sistema anaeróbio lático. Visto que o maior potencial anabólico se dá próximo a falha, a máxima No Pain No Gain acaba sendo sim verdadeira por esse aspecto.