Sei lá quando Sartre disse isso, acho que foi em Huis-clos (Entre quatro paredes), em 1945. Mas disse e ficou no inconsciente coletivo de tudo quanto é intelectual ocidental desde então. A idéia é boa: nada mais infernal do que uma presença paradoxal, destas que você rejeita, mas necessita. Assim é o outro: o outro é um saco, o outro atrapalha seus planos, interfere no percurso dos seus projetos, influencia o curso da sua história e tolhe sua autonomia. No entanto, você não tem acesso real a si mesmo, àquela obscura parte essencial de você mesmo, sem interagir com o outro. O outro é, de fato, UM INFERNO!

Mas assim como Bush descobriu o problema para as queimadas na Amazônia sob a forma de um programa amplo de desmatamento (assim não há árvores para queimar, oras), os ETs de “The Invasion” resolveram o paradoxo de Sartre: eliminaram o outro.

“The Invasion”, com Nicolle Kidman e Daniel Kraig, com direção de Oliver Hirschbiegel, é a mais recente re-filmagem (2007) do clássico de ficção científica “the invasion of the body snatchers”.

Foi bem re-filmado, o argumento é o mesmo e a parte “science” da science-fiction é bem consistente. O organismo ET tem um jeitão de fungo mas possui material intercalável no DNA humano, o qual só se torna ativo quando o sujeito dorme e sonha (sono REM). Então o DNA humano é inteiramente subvertido, mantendo a mesma forma, porém outro organismo usa aquele corpo. Esse outro organismo é interessante, pois tem comportamento colonial. São uns insetões. Não reagem emocionalmente como os humanos, mas vivem em total e completa integração e empatia. A expressão racional deles dialoga, através do personagem masculino principal, com a psiquiatra Carol Benell: “não entendemos qual é o problema de vocês: veja os noticiários, acabaram-se as guerras, crimes e violência. Por um motivo muito simples: não existe um outro para nos antagonizar, somos todos um só! É tão bom!”.

Nessa hora você para e pensa: nossa! O grande barato de atingir o Nirvana não é essa extática dissolução da individualidade no todo perfeito? E não é verdade que não há como agredir ninguém se esse outro alguém for uma parte de nós mesmos?

Não mesmo! Porque Sartre tinha razão! Sem o outro e seu conflito, não nos construímos como seres com individualidade e portanto capacidade de discernir, optar, ter ética ou não e crescer! Não há história, não há ciência, não há arte – não há humanidade!

Nossos corpos individualizados são os veículos desse caminho histórico e são a sede da nossa essência e ação no mundo – não pode “snatch” nada aqui, não!

A guerra do Iraque é odiosa, os fundamentalistas me dão horror e repugnância, o conservadorismo majoritário me causa asco, desprezo e também medo, mas ainda acho preços justos a pagar pela maravilhosa aventura do Homem na Terra – até para ver onde isso vai dar.

 

Marilia