“O ano perdido que a psicologia esportiva tornou um fenômeno de sucesso”

Se você chegou até este capítulo pode estar se perguntando o que é que este assunto está fazendo num site sobre esportes de força, treinamento e performance cuja autora é uma atleta de powerlifting. O texto fala de crescimento logo no início, de modo que talvez você esteja fazendo uma conexão muito indireta entre crescimento e performance. Bem indireta.

Não é. O desentulhamento é um tema relacionado ao equilíbrio– emocional e cognitivo -, à organização pessoal e também à eficiência e gerenciamento das várias esferas obrigatórias da vida adulta. Isso pincela o tema que deve se tornar um dos dominantes no ano de 2013: o “novo atleta”. Esse novo atleta não é tão novo assim, mas está demorando bastante para cair a ficha de que a representação dominante que a sociedade tem de “atleta” é uma herança do período da guerra fria. Esse atleta não existe mais. Observe a tabela abaixo e compare:

O “velho” atleta O “novo” atleta 
Instrumento da disputa política entre as grandes potências, travestido de ethos esportivo. O atleta simboliza o herói nacional. O lugar social do atleta não é mais consenso. Há uma crise de identidade em torno desta figura, que emerge em tons dramáticos a cada quatro anos durante os jogos olímpicos. 
Ênfase na oposição entre o esporte amador e o profissional, o primeiro investido de juízos de valor positivos a ponto de criar uma profissionalização clandestina no alto rendimento para proteger a imagem pública das equipes e atletas. A interface entre o esporte amador e profissional é tão íntima que, na prática, o que existe no alto rendimento não é nem mesmo um gradiente, com as pontas profissional e amadora dispondo as condições linearmente. O que existe é uma matriz de combinações infinitas de atividades de diferentes graus de profissionalismo associadas à atuação no alto rendimento. 
Jovem, recrutado através de programas agressivos de seleção de talento em geral coordenados por agências governamentais. As ciências do esporte investigavam diversos aspectos da performance, com ênfase nos mecanismos fisiológicos do treinamento. O atleta é um ser sem vontade, exceto a de chegar ao pódio, vontade esta mais externa do que interna. Mais velho, com pico de performance freqüentemente após os 30 anos em muitas modalidades. O que quer que sejam as perdas fisiológicas (cada vez menos relevantes, dados os avanços da medicina esportiva), são largamente compensadas pelos fatores: técnica, treinabilidade e experiência. O atleta maduro tem vantagens grandes sobre o atleta jovem se puder se manter economicamente viável no alto rendimento. 
O atleta é mantido por uma estrutura que se incumbe de gerenciar sua vida. Sua função, obrigação e únicas responsabilidades são treinar e preparar-se (comer, descansar, etc). Todas as decisões relevantes são tomadas por terceiros. O atleta é fundamentalmente um ser tutelado. A única coisa que corta a carreira do “novo atleta”, cuja performance estaria em processo de ascensão, é a ausência de uma estrutura pessoal e social para que ele se mantenha no alto rendimento. Afinal, sendo um adulto, ele não é mais mantido pelos pais, nem pelo governo. O atleta tem que se auto-gerir e auto-sustentar. 
A infra-estrutura e sobrevivência do atleta são garantidas pelas estruturas interessadas em seu alto rendimento. A infra-estrutura de manutenção física do atleta tem que ser produto da sua atuação profissional, seja gerenciando aspectos de sua performance que tenham valor de mercado, seja exercendo profissão desvinculada da prática esportiva, o que sempre é conflitivo. 
Carreiras curtas. Os motivos são tanto fisiológicos, pois seus corpos são excessivamente abusados desde muito jovens, como motivacionais. Sendo consenso que o pico da carreira ocorre cedo, o próprio atleta se programa para a aposentadoria esportiva. Em geral, alguma outra carreira é proporcionada a ele uma vez que se aposente.  Carreiras potencialmente longas. Do ponto de vista fisiológico, não há nenhum impedimento. No entanto, é necessário que o atleta tenha uma estrutura psicológica onde os elementos de sua “nova” identidade esportiva estejam em perfeita harmonia.
Funcionário; subordinado numa estrutura de poder maior Empreendedor, gestor de seus próprios negócios e de sua vida 
Vida afetiva e familiar em segundo plano, por ser jovem demais e por ser tutelado Tem vida afetiva e familiar, que deve ser equilibrada (com dificuldades variadas) com as demais prioridades da carreira esportiva de alto rendimento 
Aspectos educacionais, cognitivos e culturais são influências desconhecidas na performance. Em grande parte, isso se deve ao fato do atleta ser tutelado e sem direito a voz. Em parte, também, à excessiva ênfase nos aspectos físicos da performance, uma vez que as carreiras são breves Com a maior longevidade esportiva, tem ficado evidente um fenômeno ainda não compreendido, que é a grande influência dos fatores educacionais, cognitivos e culturais na performance. A relação entre as diversas inteligências não está devidamente mapeada para dar conta de explicar o alto rendimento sob estas novas condições. No entanto, evidência anedótica aponta para a vantagem que o atleta de mais alto nível educacional e sofisticação cultural tem sobre o menos favorecido. 
O atleta não tem direitos e a governança esportiva sequer considera-o como um ator do processo. O atleta cada vez mais reivindica direitos políticos nos sistemas de governança esportiva, em plena crise. 

 

Essa transição incompleta entre o “velho” atleta e o “novo” atleta, bem como sua difícil assimilação pela sociedade, fazem com que a auto-gestão, o equilíbrio emocional e os elementos mentais da performance passem para o primeiro plano sem que isso seja devidamente reconhecido. Curto e grosso, o atleta que não souber se auto-gerir, se controlar, ter os elementos de sua vida devidamente integrados conscientemente e se tornar economicamente, emocionalmente e afetivamente viável vai perder o bonde do alto rendimento.

O ano de 2012 tinha tudo para ser um ano esportivamente perdido para mim. Começou com vários desastres, todos produtos da minha dificuldade em priorizar diferentes atividades e iniciativas. O ano começou com o maldito verão, fato geograficamente inevitável. Quando meu organismo já estava funcionando o suficiente para engrenar uma periodização competitiva, aceitei o compromisso de acompanhar um atleta de Strongman, internacionalmente precário, porque fui eu que viabilizei sua participação no tal Arnold’s Amateur Championship. O que é que eu ganhava assumindo a responsabilidade organizativa sobre este esporte? Nada. Nem performance para mim, nem satisfação, nem dinheiro. Um senso de missão ou culpa (diga-se de passagem, completamente anti-profissional) ganhou e eu fui. Deu tudo errado, ou melhor, cumpriu-se o esperado, que foi uma performance pífia do atleta, eu só tive perdas, sofro muito com o stress de estar em multidões, acabei pegando uma infecção respiratória grave e perdi 40 dias de treino. Quando retomei o mesmo, duas coisas se somaram e resultaram em mais perdas em performance: a primeira foi um conflito político no powerlifting internacional, onde eu desempenhava um papel organizativo. Mais uma vez: por que? O que eu ganhava com isso? Nada. E ainda por cima não soube reconhecer as imensas discrepâncias nos interesses dos envolvidos. Paralelamente, tentei treinar utilizando um equipamento ao qual não me adaptei e abandonei a estratégia de competir com ele um mês antes da data do campeonato sul-americano. Isso é esportivamente um desastre.

Nesse momento, procurei João Ricardo Cozac, meu psicólogo esportivo até hoje, e pedi penico. Ele foi claro: em três semanas, não há trabalho em psicologia esportiva a fazer. O que ele me ofereceu foi dar um suporte para garantir um mínimo de estabilidade emocional para enfrentar as demandas competitivas.

Para piorar as coisas, o conflito político azedou, o local do campeonato, na Colômbia, foi mudado de última hora, foi realizado em ambiente não refrigerado e a temperatura próxima de 40º fez com que no dia seguinte da minha apresentação, onde competi heroicamente contra um organismo que não contribuiu nada, eu tivesse um episódio grave de hipertermia que poderia ter resultado em morte. Hipertermia, entre outras coisas, causa letargia e confusão mental. Se você está lendo esta página foi porque meu amigo e parceiro de equipe, Carlos Daniel Llosa, oportunamente um médico (quem disse que não existem deuses do powerlifting?), percebeu a situação em tempo para que eu prevenisse desdobramentos mais dramáticos. Mas foram péssimos: água gelada, ar condicionado gelado por dois dias e não foi suficiente para impedir o caos fisiológico. Vômito, letargia, cefaléia e outros distúrbios permaneceram por muitos dias.

Mesmo assim, eu tive marcas, se não excelentes, boas. Fiz uma apresentação digna. E certamente devo isso a ter conseguido manter o controle como tudo em volta colapsando, desde o meu organismo até as relações sociais relevantes.

Isso foi em julho.

Em agosto veio a cereja do bolo, com o tal do Miudinho me atacando num campeonato no Rio Grande do Sul onde supostamente eu estava no papel de responsável pela sanção do mesmo. A coisa degringolou muito, aspectos de articulação política deste ataque emergiram, o ataque foi, sim gravíssimo e eu, que tinha ido com uma distensão de pequena relevância, voltei com uma ruptura de tendão inoperável.

Passei uma semana enrolada no sofá tomando 50 mg de diazepam, em choque.

O campeonato mundial era em novembro. Pela lógica, estava perdido. Perdidaço. Com um bíceps arrebentado, um flexor ulnar rompido no tendão e um grande ponto de interrogação sobre as chances de um dia poder executar novamente um levantamento terra, não havia por que esperar muita coisa para Las Vegas.

Os primeiros treinos depois do ataque no Rio Grande do Sul mostraram o previsto: uma perda de 30% de força.

No entanto, pouco depois, como resultado de uma avaliação criteriosa das condições objetivas e da minha motivação, resolvemos apostar no campeonato mundial. Nesse momento, minha perspectiva mudou, meu humor mudou e a força começou a voltar.

Me desvinculei de todas as responsabilidades organizativas e políticas. De repente, ficou claro que elas não são de forma alguma um retorno social obrigatório do meu amor pelo powerlifting. Os motivos que me levavam a isso antes – a culpa, o sentido de obrigação – foram combatidos dentro do trabalho de psicologia esportiva. Toda minha energia foi canalizada para o que era relevante.

Tive exatos três treinos de levantamento terra antes de Las Vegas.

Minha performance teve problemas? Obvio que sim. Mas eu ganhei o campeonato. E mais: ganhei por 2,5kg em 425kg, ou seja, 0,5% no último levantamento terra. Dos três levantamentos, o único perfeito foi o terra, o “levantamento perdido”.

A federação em que eu competi, o World Powerlifting Congress, é, das 40 federações do esporte, aquela onde as marcas são mais elevadas, a mais competitiva. Quando eu cheguei, a categoria de peso abaixo da minha estava cheia e a acima também. A minha tinha esvaziado. Fiquei sabendo que a minha performance foi estudada pelas equipes.

Eu tenho uma reputação internacional, e forte.

O ano perdido se transformou no ano da virada. O ano da vitória.

A virada começou com o primeiro e mais importante gesto de desentulhamento: o de rejeitar tudo aquilo que eu não quero fazer, afirmar com toda a segurança que eu sei que não é minha obrigação fazer e me negar a cumprir a agenda de qualquer um que não seja a minha e somente a minha. Foi o primeiro gesto de me reapropriar do controle da minha vida.

Sem desentulhamento não tem performance, pois são estes entulhos todos que seguram o grande atleta de alto rendimento para trás.

Deu para entender agora o que desentulhar tem a ver com performance e alto rendimento?