Quando eu tinha meus vinte anos, tentei me camuflar como “insider”. Arrumei um namorado convencional, de família convencional, estudante de engenharia, pai juiz, classe média da periferia. Por quase dois anos tentei. Durante esse tempo, também, expulsa de um laboratório na USP onde havia topado com algo muito quente, apontada como pessoa imprópria às regras acadêmicas de vassalagem (e sei lá quantas outras normas), tentava empurrar com farinha um mestrado num assunto que não me atraia.
Nenhum tesão na pesquisa, nenhum tesão no sexo, nenhum tesão no amor. Com uma quantidade animal de psicotrópicos – benzodiazepínicos de todos os tipos, anti-depressivos de todas as gerações, neurolépticos e, no fim, muita novalgina para aguentar a dor de cabeça permanente – insisti, anestesiada, heroicamente. Até que uma hora não deu mais e parei de tomar as drogas. Passei duas semanas alucinando, olhando para o teto do meu apartamento. Ao sair do pesadelo, o experimento em normalidade foi finalizado: nem sequer o cheiro do namorado eu tolerava, pois havia recuperado meu olfato.
Nunca mais fiz uma tentativa tão bem planejada em “pertencer”, em promover algum tipo de auto-lavagem-cerebral e fazer parte do mundo das pessoas comuns. Fiz, sim, alguns outros experimentos em relacionamentos, todos desastres horrorosos, alguns longos, outros mais longos ainda. Tentei pateticamente me encaixar em alguma coisa, coisa que sempre me escapou ou simplesmente foi impossível espremer minha personalidade esquisita nos tais buraquinhos.
Não deu certo. Acho que fica para outra vida.
Mas tenho que admitir que, frequentemente, olho casais convencionais e tenho inveja. Por mais horror que eu tenha das dependências e obsessões, dos gritos e apertões, da opressão e da sabotagem aberta ou velada, sei que sempre falta algo aqui em mim.
Dos meus antigos pares, intelectuais, quero apenas distância. São homens pequenos, que afirmam sua masculinidade na violência verbal e jogo competitivo, coisas que hoje me broxam completamente. Claro que se candidatam: não entrei na decadência física obrigatória que o mundo politicamente correto deles impôs às minhas infelizes contemporâneas. Mas me querem para um jogo que para mim não tem vez, acabou, nunca mais será jogado.
O mundo que me interessa, onde vejo humanidade e capacidade de amar, infelizmente é distante demais para mim. Tenho dele a hospitalidade, a generosa aceitação que alguém de outro universo merece. Admiração, um tanto de fascínio, tesão… sou uma curiosidade, às vezes uma amiga (o que também é inédito, já que neste mundo as relações de gênero não incluem amizade), uma boa foda e fica por aí. É um mundo belo, simples, humano e… frágil. Vulnerável a outsiders. Quando tentei tocá-lo, estraguei, machuquei, causei estrago.
Desisti. Não tento mais me camuflar de nada – nem por dentro, nem por fora. Do que adiantaria uma loirisse comportada, escova e cabelo liso, maquiagem e esmaltes clarinhos, sapatinhos de bico fino, a feminilidade convencional, se quando abro a boca “me entrego”? Quantos homens já vi me pegarem de pau duro e broxarem, com olhar de medo e intimidação, com uma ou duas frases minhas? Em encontros anônimos, sem que o parceiro tivesse acesso à minha identidade, tentei controlar esse efeito. Descobri que nem sei como falam essas mulheres “de verdade”, que pronomes empregam, como é seu vocabulário e coesão verbal.
Mas confesso que houve uma ou outra exceção. Ah, houve. Já me viram de outra forma, de uma forma perigosamente real. E aí, sei lá por que, entrei em pânico.
Outsiders são solitários.
Outsiders profissionais se acomodam em sua solidão dolorida.
De dentro de seus mundos solitários, outsiders sabem amar, mas não ser amados.
Outsiders não formam pares, talvez também por conta deles.

Marilia


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