Hoje a Mel me falou sobre a postura de tatu-bolinha que caracteriza certos estados de espírito. É sempre um estado oprimido, sucumbido, submisso a alguma pressão ou violência externa muito grande. Mesma temática que vem me ocupando a mente desde que tentei que minha amiga executasse certos exercícios que requerem acentuar a lordose, expandir o peitoral e colocar os ombros para trás. Não consegui, ela ficou muito aflita e eu desisti. Depois disso ela mesma me deu uma longa e dolorosa explicação sobre a origem de sua postura de ombos protrusos e cabeça baixa.

Resolvi procurar materiais sobre postura e praticamente tudo que se encontra na internet é normativo. Existe uma “boa postura” e várias más posturas. Examinando com mais cuidado as figuras, comecei a ficar em dúvida a respeito de mais essa normatividade epidemiológica, que me parece tão suspeita quanto a “boa alimentação”, a “dieta balanceada” e a “atividade física saudável”. Dieta balanceada eu sei que é besteira, boa alimentação é um des-conceito (boa para quem? Para que??) e atividade física saudável nem se fala. Mas será que existe uma boa postura?

Veja a figura abaixo:

Ela mostra duas más posturas e uma boa. Me chamou atenção o fato de que a má postura da direita é a que caracteriza minha família: praticamente todos nós somos meio assim. Antes de 2004, pessoas viviam corrigindo minha postura, me mandando encolher a barriga e “endireitar” a coluna.

 

Achei então a seguinte figura:

Nesta figura aparece uma “má postura” meio sifótica, torta, uma “boa postura” ereta e uma… MUITO ereta! E observem que a postura MUITO ereta é caracterizada pelos ombros para trás e peitoral expandido. Essa é a minha atual postura.

Então me bateu essa séria dúvida sobre se eu deveria em qualquer hipótese sugerir correções nas posturas de alguém, ou se trata-se apenas de apontar que tipo de mensagem essa postura traduz. Estou com a Mel: sifoses e protrusões de ombro, essas posturas “para dentro” são atitudes de derrota diante de algo externo ou de defesa. Como se a pessoa precisasse defender as partes moles e vulneráveis, os órgãos vitais. Apesar da minha permanente linguagem agressiva, eu cresci com medo, muito medo, e me defendendo de tudo e de todos. Num certo momento que não sei dizer bem qual foi, perdi um medo básico qualquer. Acho que o medo de morrer. Acho que talvez por ter morrido e depois vivido de novo, não sei. Mas perdi, e com ele perdi a atitude para dentro. Desta, passei para uma oposta, para fora. Essa que o site da figura abaixo caracteriza como “excessivamente ereta”.

Resolvi tentar entender melhor essas posturas e seus significados. Achei uma relação entre elas e o amadurecimento. Na figura abaixo, temos diversas posturas ao longo da história de vida de um homem:

Os estados jovens são azuis e os mais velhos vermelhos. Nos estados vermelhos, os ombros vêm para frente e a cabeça se abaixa, como que mostrando que a idade tira a energia para resistir ao “peso” de algo que oprime.

Achei também pesquisas sobre linguagem corporal, mas quase tudo relacionado a sinais de sedução sexual ou agressão e nada sobre postura em pé. Outras linhas de pesquisa sobre comunicação não verbal incluem “kinesics”, mas também é algo que enfatiza outras partes do corpo como sede da linguagem, como as expressões faciais.

 

De maneira geral, a postura ereta é socialmente valorizada, seja do ponto de vista moral ou medicalizada pelas ciências da saúde. Mas sempre há o que se chama de postura “excessivamente ereta”, caricaturizada pela postura militar. Não é por acaso: a postura dos quartéis é uma postura de confronto e guerra. Alguns autores identificam uma postura “defiant” – desafiadora ou confrontacional – nas posições “excessivamente eretas”.

 

Fiquei pensando nas pessoas que conheço e depois, no supermercado, observando todo mundo. A postura derrotada predomina, especialmente entre mulheres. As posturas eretas são raras. E as “excessivamente eretas”… Vi em atletas, bailarinas… E, sim, em algumas pessoas confrontacionais. Outras são o oposto: tatus-bolinha corporais, são porcos espinhos verbais.

 

Eu ainda tenho muito medo, de algumas coisas. Muito – terror verdadeiro. Mas depois de pensar sobre isso, percebo que a parte que eu preciso defender não é minha vida, meus órgãos vitais não são vulneráveis. Morrer não é mais o problema, o problema é viver e essa vulnerabilidade está em outra parte do corpo que defendo de alguma outra forma.

 

Marilia

 

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