DISCLAIMER: “não assumo nenhuma responsabilidade quanto a qualquer possibilidade de fundamentação científica para o conteúdo desse texto – trata-se de pura abobrinha”

Quem já teve fissura de pizza? Daquelas que vêm do nada e quando vêm, vêm bombando. A fissura de pizza, segundo minha filha, é pior que a de chocolate, que é pior que outras. É difícil ser racional sob os efeitos devastadores de uma fissura de pizza. E se a gente tem o azar de sofrer um surto desses perto de alguma fonte de cheiro de gordura (pode ser uma churrasqueira de gato na calçada), fica quase insuportável. Se o azar for maior ainda e existir um pedaço de pizza a menos de 1km, sucumbir é inevitável.
Em geral, felizmente, não tem pizza por perto (porque, graças a deus, fissura de pizza é um evento aleatório), conseguimos recuperar a sobriedade e pensamos naquelas dezenas de gramas de gordura descendo pelo estômago e estragando a dieta da semana inteira, lipídios entrando em adipócitos aos borbotões e nossas pobres células musculares deixadas de lado. E aí passa, porque, antes de mais nada, queremos hipertrofiar bonito, sem aquela coisa horrível que depois vai custar tão caro.
Mas não há como negar: gordura atrai. Pesquisadores e elucubradores de plantão especulam que essa atração pela gordura pode ter várias origens evolutivas: a gordura animal sinalizaria a presença de proteína de boa qualidade na carne, por exemplo.
Na verdade, ninguém sabe por que gordura é tão gostoso.
É bastante consensual que uma massa magra mais desenvolvida melhora o desempenho de quase todas as nossas funções vitais. A maior massa magra garante melhor controle da glicemia, custo metabólico menor para atividades motoras diárias, maior produção de serotonina e dopamina no cérebro, melhor controle de triglicérides e colesterol séricos, melhor sono, mais testosterona (e mais tesão!) e milhares de outras coisas que contribuem fortemente para uma melhor qualidade de vida, mas que ninguém ainda explica direito.
Mas quem disse que a lógica da evolução é a boa qualidade de vida do membro da espécie? Nada disso! A lógica é garantir maior chance de multiplicação daquele genoma específico, o que significa sucesso de cópula e reprodução. Ou seja: desde que você possa trepar e ter filhos, não importa que você se sinta uma caca e morra cedo, já que depois de reproduzir o máximo que puder, você é rigorosamente descartável sob o ponto de vista biológico. Para espécies que se espalham por diferentes ambientes, com ampla variação de fatores físicos e biota, isso implica uma grande resistência a stress. Muito investimento energético nos indivíduos dessas espécies vai para resistir a stress. E quando o stress é muito grande, como aquele sob o qual os primeiros mamíferos evoluíram e depois nossa própria espécie (que migrou da zona equatorial para regiões sub-árticas em plena glaciação, ocupando tudo quanto é ambiente nessa trajetória), sobram características difíceis de interpretar.
Depressão é uma delas: para que raios serve a depressão? Bem, sob stress, nós, vertebrados, temos uma primeira reação imediata de “fight or flight” com as conhecidas descargas de adrenalina, etc, etc. E se não der nem para lutar, nem para fugir? Dançou, certo? Mas, se o animal ficar bem quieto, sem reação nenhuma, deprimido, as chances dele morrer podem baixar de 98% para 96%. O que, ao longo de milhões de anos de evolução, faz com que os genes para depressão se fixem no nosso genoma.
Então eu chego no ponto que queria sugerir: acho que somos uma espécie fofa. Claro que mais músculo é melhor para o indivíduo, mas, para uma espécie tentando resistir a terríveis ameaças físicas, de competição e predação, talvez o melhor mesmo fosse ter bastante gordura, aprender a ficar quieta, reproduzir rapidinho e morrer cedo. Com bastante gordura e a dose certa de depressão, dá para resistir períodos mais longos sem comida, por exemplo. Para que músculo se o bicho tem que ficar parado dentro de um buraco?
Lipídio é uma molécula perfeita: ela estoca mais que o dobro da energia do que aminoácidos ou glicose.
Então fiquei pensando nas estratégias que nós, atletas, usamos para otimizar ganho de massa magra sem gordura: são todas para sugerir para o cérebro que não há perigo nenhum, que não estamos estressados, que o mundo é maravilhoso e sim, podemos abrir mão da preciosa gordura. Pense bem: quando comemos de 3 em 3 horas, estamos dizendo para o cérebro: “veja, a glicemia está constante, há abundância de comida frequente e de boa qualidade, desencana de estocar gordura, vai!”. Quando tomamos tudo quanto é bagulho para evitar produção de cortisol, estamos dizendo para nossas células musculares e glândulas (a BBC fisiológica): “shh!! Todo mundo quieto, ninguém está estressado aqui (para que o cérebro não escute)”.
Na hora de secar, tem que tomar MUITO cuidado com o déficit calórico, o qual, se for muito grande, mas nem todo o treino do mundo garante que preservemos proteína: a perda é 50% de gordura e 50% de massa magra.
Se para nós, atletas, que temos nossa cultura de manipulação nutricional, isso já é complicado e cheio de truques, imagine para os pobres gordos sedentários?
Moral da história: a evolução programou peras e frangos infelizes e de vida curta – nós somos uma aberração tecnológica, assim como viver sem depressão, ter sexo de qualidade e tudo mais de bom que existe na vida civilizada.
Não é divertido?

Marilia


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