Dia 8 de outubro, saí do tablado depois do último terra, em Villa Maria, Argentina, com 10 recordes mundiais conquistados na soma do Campeonato Sul-americano de Supino raw, dia 7 de outubro, e do Campeonato Sul-americano de powerlifting raw, dia 8 de outubro. Loucura competir nos dois, também acho. Desgaste tremendo. Só um porra-louca faz isso. Eu fiz.

Guardei meu cinto e fui fazer o que se deve: suplementar, hidratar muito e depois comer. Havia muito que fazer ainda: arbitrar os rounds masculinos não é pouco. Mas nada de fazer isso sem estar alimentada. O tradicional sorvetão pós-triunfo dos anos anteriores foi substituído por uma forte refeição da excelente carne argentina. Para falar a verdade, duas refeições da excelente carne argentina com três horas de intervalo entre elas.

No dia seguinte, os rounds dos pesados. Mais trabalho, boa alimentação e suplementação. Muito sono reparador entre um dia e o outro.

E onde está o famoso “off”? A gandaia e a orgia de lixo gastronômico? Não existem. Em menos de dois meses eu estaria subindo em outro tablado, nos Estados Unidos, desta vez para disputar o campeonato mundial. O último terra do sul-americano marcou o início da preparação competitiva do campeonato mundial, com ênfase na recuperação. Recuperação se faz através de uma precisa estratégia nutricional, descanso e fisioterapia.

Uma semana depois, o treinamento específico de powerlifting para o campeonato mundial começava. Dieta e suplementação rigorosas, tratava-se de manter o peso e evitar lesões. Não se banca o herói numa preparação de 6 semanas, saindo de um campeonato de grande porte e indo para outro. A força conquistada durante o ano de preparação já foi conquistada – corrige-se pouca coisa, melhora-se detalhes. Mesmo assim, aumentei em 17,5kg meu total do campeonato sul-americano, quebrei meus próprios recordes de agachamento e terra e conquistei um recorde histórico (a maior marca executada em todos os tempo, em todas as federações, na minha categoria de peso).

Saí do tablado do último terra em Atlanta, do campeonato mundial e repeti o ritual de Villa Maria: hidratei, suplementei e descansei cerca de uma hora antes de assumir a cadeira de árbitra. Logo depois, comi uma refeição com bastante carne. Algumas pessoas estranharam o shaker com suplemento embaixo da cadeira de árbitra, durante os três dias. Afinal, tinha acabado o ano competitivo. A próxima competição séria que vou enfrentar no powerlifting será em julho de 2012. Outros eventos e apresentações, só em maio. Por que tanto cuidado?

Pouca gente usa a lógica ao planejar suas ações no período seguinte a uma competição. Vamos pensar um pouco: a maioria dos atletas se supera em competição. No powerlifting isso é diretamente mensurável. Os grandes atletas executam no tablado competitivo marcas que jamais fizeram em treino. Seja qual for a explicação para este fenômeno, sejam as marcas planejadas, esperadas ou não, o fato é que tal performance representa o esforço máximo daquele atleta por definição, considerados todos os componentes do mesmo: fisiológico, neurológico e emocional. Por mais bem sucedido que seja o atleta, e, portanto, por mais feliz que fique, o desgaste que o esforço representa é o maior já feito até aquele momento.

Se durante o ano todo adotamos cuidadosas medidas para controlar o desgaste do treino, qual o sentido de se sair do tablado e comemorar com um porre, um sorvetão, um monte de pizza e, para coroar, uma boa noite sem dormir? Não é de se admirar que o período pós-campeonato freqüentemente seja pontuado por viroses e outras desordens orgânicas.

Não adianta dizer que não é assim: eu estive lá, eu fiz isso tudo e sei que uma boa parte dos atletas brasileiros, seja da modalidade que for, faz isso.

E isso é uma grande idiotisse, um tiro no pé.

O último campeonato não é o último campeonato da vida. É o último de uma estação. Espera-se que a seguinte possa ser melhor. Para que ela seja melhor, a preparação começa no segundo em que termina a anterior.

Um atleta é atleta 24 horas por dia, 7 dias por semana, 52 semanas por ano. Não existe “off” para a preparação esportiva. Existem fases.

Por determinação do meu médico, nesta minha fase pós-campetitiva, fiz algumas alterações na dieta, substituindo as fontes de proteína e procurando reduzir o impacto inflamatório da comida no intestino. Muita água, zero álcool, como tem que ser o ano inteiro, e bastante sono.

E enquanto eu tomo meu shake de proteína isolada de arroz, com gosto de serragem (ou terra), minha cabeça está nas anilhas verdes York, brilhantes, que me esperam em Barranquilla, Colombia, no campeonato Sul-americano de powerlifting, em julho. Está em Las Vegas, em Villa Maria, nos tablados onde vou executar a minha arte.

Um atleta é atleta, sempre e o tempo todo. Não é um estado, é uma condição e uma identidade.