Gostaria de saber com o que vou sonhar essa noite. Afinal, o que são sonhos? Metaforicamente, são esperanças, projetos despidos da racionalidade do planejamento. Tecnicamente, há controvérsias. Segundo os psicanalistas, são desejos reprimidos que emergem de acordo com a lógica do inconsciente. Segundo outros estudiosos, expressam formas alternativas de resolução de problemas. Outros ainda agrupam grande parte dos sonhos no chamado “lixo do cotidiano” – imagens, sons, idéias recorrentes que fizeram parte da rotina do dia, cuja importância não determina o lugar no sonho. Só aparecem lá, como numa grande usina de reciclagem.
As pessoas importantes, no entanto, sempre aparecem nos sonhos. Seja porque povoam nossas ações e interações do dia, gerando matéria para o lixo reciclável, seja porque são parte permanente dos nossos desejos.
Acho que sonhos também estão fortemente ligados ao medo. Enquanto estive grávida, sonhava que perdia o bebê já nascido numa praia íngreme, sempre. Ou que o esquecia numa estrada, sem alimentá-lo. Sonhava, angustiada, com minha temida incompetência. Depois sonhei coisas horríveis que podiam acontecer com minha filha. Acho até que isso deve ter uma função evolutiva qualquer – fêmeas que sonham com riscos potenciais à prole devem ter mais chances de se antecipar aos mesmos, por exemplo…
Essa noite, no entanto, toda a parte metafórica está neutralizada. Estou sem o gerador de projetos e esperanças. Elas morreram temporariamente. Um dia devem nascer novamente, ou não. Mas sem aquilo que perdi hoje.
Também meus desejos devem mudar muito. Nem sei mais o que são, já que estão enterrados lá onde não alcanço. Talvez o principal seja que isso tudo não passe de um pesadelo, caso em que sonharia com o sonho de que o sonho mau não fosse real.
Finalmente, talvez sobre o medo. Esse sempre cresce quando se perde a esperança.

Marilia


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