Primeiro capítulo

Segundo capítulo

Agora entramos na verdadeira área complicada para este segmento de jovens que entram na academia, não têm claro suas expectativas, têm perspectivas não-realistas sobre os objetivos e nasceram e cresceram sob a hegemonia da indústria farmacêutica.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. A indústria farmacêutica do pós-guerra doutrinou as gerações desde então numa fé quase religiosa quanto às soluções medicamentosas para tudo. Paralelamente, a medicina evoluiu pela via da patologização de tudo. Casamento perfeito: tudo pode ser doença e tudo pode ser farmacologicamente tratado. Inclusive desejos, sonhos, medos.

Mas não é só isso! Assim como na Polyshop, tudo vem com um brinde. O brinde do desenvolvimento das novas tecnologias farmacêuticas do pós-guerra trouxe junto o filhote dela com a também lucrativíssima e hipertrofiada indústria alimentícia. Surgiu a indústria NUTRICÊUTICA. Trata-se dos alimentos com efeito biologicamente ativo sobre alguma condição (“alimentos-remédio”).

Os suplementos alimentares, entre eles sua linha mais rentável, a dos suplementos esportivos, pertence à indústria nutricêutica.

O sujeito jovem que está frustradíssimo com sua falta de resultados em um mês de treino mal-feito (sim, porque só depois de muito aprendizado ele fará a coisa bem feita) quer “tomar coisas”. Ele nem sabe muito bem o que, mas ouviu dizer que tem “coisas” que ele pode tomar para acelerar a obtenção dos resultados tão desejados.

Ele está atrás de duas classes de “coisas”: suplementos esportivos e ergogênicos. Vejamos o que é cada um deles.

Suplementos esportivos são substâncias utilizadas por praticantes de atividade física (supostamente todo ser humano), certamente por atletas, para garantir o aporte adequado de nutrientes que nem sempre é possível suprir apenas pela matéria prima dos alimentos. As principais classes de suplementos são:

  • Macronutrientes (proteínas, carboidratos e lipídeos)
  • Micronutrientes (vitaminas, minerais)
  • Xenobióticos (substâncias que foram produzidas por outros organismos, como plantas ou outros animais,  ou sintetizadas em laboratório, que não são naturalmente parte do metabolismo humano e são utilizadas como fármacos)

Acho que a maioria das pessoas já ouviu falar de whey protein. Whey protein é um produto da classe dos suplementos de proteínas (macro-nutriente), tirado do soro do leite. Não é UMA proteína: é um produto que contém uma mistura das proteínas solúveis do soro do leite.

Macronutrientes são utilizados pelos seguintes motivos:

  • Para complementar o que a dieta não supre
  • Para garantir fontes diferentes daquelas proporcionadas pela dieta
  • De modo a produzir proporções entre os macro-nutrientes que a dieta não proporciona

A manipulação nutricional com vistas a produzir resultados terapêuticos, em performance ou estéticos envolve tudo isso. Às vezes  é importante garantir ao organismo o aporte de substratos para a síntese de metabólitos anti-inflamatórios que a comida sozinha não dá. Usa-se um suplemento. Às vezes um atleta necessita de proteína de muito rápida absorção, então se prescreve whey protein. Às vezes é o contrário: é preciso garantir uma certa estabilidade do perfil aminoacídico da pessoa, por infinitos possíveis motivos, então se busca um conjunto de proteínas de digestão e absorção mais lenta.

A dieta que se adota, seja num tratamento ou na busca de performance (ou de resultado estético) é uma parte fundamental da estratégia, tão importante quanto o planejamento do treino.

Também existem os micronutrientes. Quem já não ouviu o famoso “vitamina C e cama” como prescrição para gripe? É anedótico, mas não deixa de ter fundamento: a vitamina C, ou ácido ascórbico, tem uma controvertida relação com a resposta imunológica. O repouso incontestavelmente tem. A prescrição de micro-nutrientes se justifica pelos seguintes motivos:

  • Carências
  • Alguns micro-nutrientes, em doses muito diferentes das RDAs, modulam respostas metabólicas de maneira a otimizar um efeito (terapêutico ou de performance)

Se eles realmente podem aumentar substancialmente a performance de um atleta (ou de um praticante qualquer), não há evidência consensual. Quase todo atleta toma.

Os xenobióticos são as “coisas de fora”, aquelas que não fazem parte do metabolismo humano. Entram aqui os fitoterápicos, os nutricêuticos derivados de animais (como a quitosana, de crustáceos, ou a controitina e glucosamina, que eram retiradas de cartilagem de tubarão), entre outros. As justificativas são:

–      Têm efeito terapêutico

–      Otimizam alguma atividade biológica

–      Minimizam algum efeito negativo causado por doença ou condição crônica ambiental

Até aqui, não há problemas. A questão é que boa parte destes suplementos são comprados e utilizados pelo seu efeito ERGOGÊNICO. O que é ergogenia? “Ergogenia” vem de  ERGO + GENIA, que produz TRABALHO. “Ergo” deriva da palavra grega ERGON, que significa TRABALHO.

O que a molecada quer é “tomar coisas” que ajudem a anabolizar, ou fazer músculo (na cabeça deles, porque anabolismo é um fenômeno bem mais complexo).

Aí é que a porca torce o rabo, pois tudo é ergogênico: suplemento, comida (sim! Comida é o maior ergogênico que existe!) e também drogas que estimulam certas funções ligadas à performance física. Vejamos quais são:

  • Esteróides anabólicos androgênicos
  • Drogas anti-estrogênicas
  • Hormônio do crescimento e drogas peptídicas
  • Termogênicos (queimadores de gordura)
  • Outras drogas otimizadoras de performance

Estas substâncias foram orginalmente produzidas para objetivos não esportivos, porém certamente para melhorar funções metabólicas e tratar condições patológicas. A realidade é a seguinte:

  1. Elas existem, são produzidas por indústrias nacionais e multinacionais legais e também de forma artesanal, ilegalmente
  2. Representam um mercado de bilhões de dólares em vendas legais e ilegais no mundo todo
  3. São comercializadas de inúmeras formas, desde as mais legais e formais (prescrição e farmácia) até o mercado negro stricto sensu
Classe Principais substâncias Principais fabricantes legais
Esteróides anabólicos androgênicos* Nandrolona, Oximetolona, metandrostenolona, boldenona, oxandrolona, cipionato de testosterona, undecanoato de testosterona, enantato de trembolona, stanozolol Sintex (Brasil), Unimed Pharm (USA), Biomax Labs, Bio-Technology General Corp, Searle, Ciba-Geigy, Roussel Uclaf, Organon
 

Drogas anti-estrogênicas

 

Anastrozol, citrato de clomifeno, citrato de tamoxifeno

 

Merck, Medley,  Sandoz, Eurofarma , Aventis

 

Hormônio do crescimento e drogas peptídicas

 

GHRP-6, HGH, IGF1, IGF-BP3 complex, insulina, MGF (mechano growth factor), PGF2A

 

Genentech,  Eli Lilly

 

Termogênicos (queimadores de gordura)

 

Albuterol, cafeina, clenbuterol, liotironina, DNP, efedrina, T3 , T4

 

Glenmark, Pharmascience, Glaxosmithkline,

 

Outras drogas otimizadoras de performance

 

Isotretinoin, dutasteride, tadalifil, selegiline, EPO, vardenafil, sildenafil

 

Pfizer,  Eli Lilly

 

Quem me conhece sabe da minha posição radicalmente crítica à hipocrisia do anti-doping. No entanto, sou igualmente crítica quanto ao uso indiscriminado e o mau uso de substâncias ergogênicas. Minha preocupação não é, nem nunca foi, o atleta. Atleta tem médico e sabe o que está fazendo. Representam menos de 6% das vítimas de mau uso destas substâncias em qualquer estudo feito no mundo.

Quem realmente paga o pato da desinformação sobre substâncias ergogênicas promovida pelas agências governamentais e mídia, com sua caça às bruxas, é o praticante recreacional, em especial os jovens. São estes meninos que, com dois meses de academia, sem ter se transformado no outdoor da Calvin Klein, aceitam a generosa oferta do vendedor de bomba de plantão e socam stanozolol na bunda sem o menor critério. São as meninas ávidas pela barriguinha seca que se entopem de estimulantes e vão parar no hospital, nas clinicas psiquiátricas ou no necrotério.

De novo, o problema é de informação: enquanto o uso de um shake de whey só vai beneficiar o garoto ou garota, inclusive melhorando sua saúde geral, seu rendimento na escola e sua imunidade, o uso de uma droga ergogênica pode destruir sua vida.

Para quem conhece, é o mesmo que falar sobre vertebrados e gimnospermas (pinheiros e outras plantas sem flores): uma classe de coisas não tem NADA a ver com a outra. Mas o menino ou menina, na mão de um vendedor de bomba oportunista, não sabe isso.

Os emails que eu recebo têm o mesmo conteúdo: “você pode me indicar ‘alguma coisa para tomar’ que me ajude a crescer/definir/emagrecer?”.

Minha resposta invariavelmente é: NÃO. Não posso indicar por inúmeros motivos. O primeiro é legal: quem prescreve dieta é um nutricionista. O segundo é que, se eu fosse nutricionista, continuaria não indicando: só se prescreve qualquer coisa conhecendo a individualidade biológica do paciente. Em terceiro lugar, não prescreveria por bom senso: o que é que um moleque com um mês de treino mal-feito pensa da vida para querer tomar um ergogênico perigoso e que não fará efeito NENHUM no chassis de borboleta (ou corpinho de gelatina) dele?

Resumo da ópera:

  1. NÃO TOME “COISAS”. Coma adequadamente, tome água e siga as orientações de bom senso. Aí embaixo vai a recomendação do melhor livro sobre o assunto, produzido quase que sob medida para você, que não tem informação e precisa dela.
  2. Não enfie nada que não seja comida ou água pela boca sem consultar um nutricionista ou médico.
  3. Aprenda a treinar direito, espere o tempo necessário para que algum resultado apareça para então pensar em tornar mais complexa sua estratégia nutricional.

Tem uma última coisa que deve convencer todo mundo: “coisas”, tomadas por quem não sabe treinar, não causam nada exceto fazer você ficar doente. “Coisas” funcionam, mas só em atletas ou praticantes com nível de atleta. “Coisas” que emagrecem piram sua cabeça.

Rodolfo Peres – Viva em Dieta, Viva Melhor (Editora Phorte, 2012)