Você, amigo ou amiga que treina numa academia boate: você está fazendo isso errado. Você não está treinando. Está se submetendo a um programa masoquista de pentelhação progressiva que vai acabar com seu humor, seu controle de cortisol e, principalmente, com a qualidade do seu movimento.

Você quer treinar assim?

Ou assim?

Como é que você quer treinar aqui?

 

E é claro que um bando de Patty que não sua e Mauricinho sem bunda não vai entender seus movimentos e muito menos seu corpo. Querida, Patty não tem trapézio. São seres humanos inibidos em seus padrões naturais de movimento desde pequenas, a estrutura física delas é toda bizarra. A única coisa grande nelas é o silicone.

Mauricinho tem uma área onde a calça “lhe cai bem” onde estaria uma bunda, pois bunda é feita de musculatura glútea, coisa que humanos que a utilizam tem. Como ter bunda sentado o dia inteiro (inclusive para treinar)?

Esses lugares não foram feitos para treinar, amigos. Foram feitos para realizar certos rituais desse grupo que representam a antropologia mais enfadonha imaginável, por isso pouca gente tem saco até para estudar. Ninguém merece uma tese sobre a “etnografia da mediocridade da classe média”.

Treinar em salinha fitness: você está fazendo isso errado!

Vá para algum lugar onde você seja como todo mundo.

 

 

MARILIACOUTINHO.COM – idéias sobre treinamento de força, powerlifting, levantamento de peso, strongman, esportes de força, gênero e educação física. Ideas on strength training, powerlifting, weightlifting, strongman, strength sports, gender and physical education.

A vida é pentavalente: arranco, arremesso, agachamento, supino e levantamento terra. Life is a five valence unit: the snatch, the clean and jerk, the squat, the bench press and the deadlift.

  • Sandro Ueno

    Excelente Dra. Marília Coutinho!!! Por aqui não é muito diferente…nesses lugares treinam os Marketeiros do Frango Fitness, que é como chamamos por aqui…gente que não é mas tem que parecer…algumas garotas de programa com fio dental tentando chamar a sua atenção para o pós treino…kkkkkkkkkkk…aí sim queima mais calorias do que no treino e por aí vai…é mais um Mercado de Peixe do que um lugar para se treinar…porque treino de verdade a gente sabe muito bem como é que se faz…Abs e bjs!!!

    • Marilia Coutinho

      Treino de verdade é nos calabouços do Sandrão! Que são históricos: ouço falar desde antes de saber o que era power. No fundo, talvez seja o jeito mesmo, e o certo: só se cria e se inventa o novo meio escondido, meio na sobra, para trazer à luz depois a criança forte! Até a volta e me aguardem!! Brigadão! bjs

  • Denis Honda

    Marilia, concordo com você mas não acho que as academias sejam tão ruins assim. Acredito que, tirando patricinhas e mauricinhos, a academia pode ser a porta de entrada para que grande parte da população pratique uma atividade física e saia do sedentarismo. E quem sabe, de lá, partir pra outros lugares… Concorda?!?!?!

    • Marilia Coutinho

      Olá, Denis, infelizmente eu discordo – gostaria de concordar. A verdade é que a demanda reprimida do mercado de fitness é precisamente esta: a maioria das pessoas que necessita de um trabalho de força é excluida do ambiente da sala de pesos em função da perversa condição das relações sociais que lá prevalecem, além de programa de treinamento alienantes e deprimentes. Acaba sendo mais uma porta de saída do que de entrada…

      • Denis Honda

        Continuo concordando contigo mas ainda vejo pontos positivos nesse universo fitness. Em determinados períodos, o da manhã por exemplo, no qual geralmente não existe música de balada e patricinhas, vejo inúmeros exemplos de pessoas com idade mais avançada realizando seus supinos e agachamentos, e acho isto ótimo. Onde mais isso seria possível senão numa academia??? Me desculpe se o texto for para atletas de força, mas se for para a população em geral, que é a maior parcela com a qual trabalho, ainda acredito que, apesar de muita coisa ruim existente nesse mercado fitness, as “academias” ainda tenham seu espaço na sociedade.

        Talvez o problema seja que a “academia” tenha virado sinônimo de exercício físico, quando não é. Sei lá, acho meio complexo esse tema e quem sabe poderemos discutir mais no dia 29 no curso de Strong. Estarei lá!!

        • Marilia Coutinho

          Pois é, deveria. E sim, existe um espaço social para este tipo de organização. No entanto, tudo indica que, em nome do lucro e segundo a lógica do capitalismo burro tupiniquim, estas empresas não estão cumprindo seu papel (e estão deixando de ganhar um monte de grana com a demanda reprimida). Ao permitir a exclusão dessa população que foge ao estreito estereótipo dos frequentadores dominantes, as academias perdem clientes. Você mesmo observa que eles estão restritos ao período da manhã… Nos demais horários, ficarão intimidados. A mesma população “default” da beleza dominante que exclui os idosos, os adolescentes, os gordinhos e os magrelos impede que um atleta treine decentemente (e rejeita sua estética). você sabia que senhorinhas idosas adoram atletas? Porque atletas têm carinho e paciência com elas. É uma mistura benigna.

  • José maria

    Otimo texto, estudo educação física.
    Qual lugar você sugere para o treino de hipertrofia?

    • Marilia Coutinho

      Qualquer um onde você ganhe FORÇA. Hipertrofia é um RESULTADO do estímulo de força. Enquanto em casos de performance esportiva ou necessidade médica o foco seja a maior massa magra, você deve buscar FORÇA. A hipertrofia vem de graça.

  • Ricardo Bispo

    Excelente, Marilia! Normalmente nao reparo nas musicas de boate que rolam nos auto falantes mesmo quando alguem pede pra tirar. Mas continuo ouvindo os ferros…rs

  • OC

    Na academia atual, sinto-me excluído. A primeira academia que fui era um lugar diferente (há muitos anos): não tinha mais de 60 metros quadrados, escura, só tinha homens com braços gigantes que não se falavam durante o treino e suavam. Eram broncos. Mas sabiam o que era treinar com intensidade. Isso dá saudades. Na época, os grandes espaços ainda engatinhavam.
    É possível treinar com alta intensidade (ou adequada intensidade para um determinado resultado) sem suar? Vejo pessoas saírem impecáveis arrumadas tal como entraram nesses espaços de fitness.
    Acho inapropriado chamar de academia os espaços atuais de prática. Academia deveria ser um espaço de ensino e prática de ginástica. Nesses espaços, o ensino e a prática faltam. Conversei com alguns professores de academia sobre isso. Alguns não têm mais saco de ensinar, uns não sabem o que é treinar alguém (sabem repetir fórmulas em geral ditadas pelo dono da academia, por exemplo, terra não pode porque é perigoso), uns não têm saco para aprender a relacionar-se com pessoas mais difíceis e outros esperam que diante da falta de resultados que os alunos adotem um “personal” e que os escolhidos sejam eles (já que são mal pagos). Aos donos da academia, o interesse é o lucro (por isso, é interessante também que ninguém se machuque para evitar afastamentos ou processos).
    Num ambiente de música alta e pessoas jovens (com corpos bonitos que refletem mais a idade que têm do que a prática física que adotam), é triste observar que uma academia nos moldes atuais é contraproducente (quando se espera um aprimoramento contínuo do corpo, do gesto e da força) e que idosos, obesos e fracos são excluídos por conta dos corpos fora do padrão (que muda a cada verão).
    Você tem razão.
    OC

    • Belíssimo comentário. Andei um tempo baixando alguns trabalhos sobre etnografia do espaço do “gym” e não sei exatamente onde escrevi isso (em algum lugar, ou blog, ou revista, ou livro… mas minha organização não é dos meus pontos fortes). Sei que alguns deles eram estudos bem cuidados sobre essa partição espacial e relações de poder que elas implicam, criando uma exclusão interna ao espaço da instituição (gym), além da exclusão absoluta, que impede o ingresso daqueles que desviam bastante da norma (sensu curva normal). O que eu tenho ainda uma certa dificuldade para equacionar é como é que numa economia de mercado tão sofisticada, estas organizações podem se dar ao luxo de ignorar uma gigantesca demanda reprimida como essa: pessoas inativas acima de 40 anos, pessoas com sobrepeso, adolescentes, etc.
      Meu artigo foi provocativo e bem humorado, não foi na linha da análise de exclusões em geral. Que no fundo, é o que importa e comanda o fenômeno como um todo, certo?
      Abraço e mantenha contato.