Cheguei agora a pouco da exposição “Do Corpo à Paisagem”, em exibição no Instituto Tomie Ohtake (http://www.institutotomieohtake.org.br/programacao/exposicoes/corpo_paisagem/corpo_paisagem.htm ). Entrei primeiro na sala de Marco Paulo Rolla. Cheguei perto de uma instalação onde uma escultura de porcelana quebrada expunha ossos e outros conteúdos. A escultura lembrava a figura de Napoleão Bonaparte, o que imediatamente me remeteu à imagem do louco dissociado. Este, quebrado, expunha entranhas moles e desorganizadas, caóticas. Eu tinha acabado de almoçar e me senti instantaneamente nauseada. Olhei o fundo da sala e vi esculturas de pedaços de corpos nús, desmembrados. Outras porcelanas quebradas. Não consegui entrar na sala. Esperei a Mel do lado de fora e seguimos para a exposição de Rafael Assef. Observei as fotografias de peles tatuadas e fui me aproximando de um mapa cartesiano. No espaço quadriculado, riscos vermelhos. Precisei de alguns minutos para me dar conta de que se tratava de riscos desenhados por cortes na pele, vermelhos ainda. Então não consegui mais ficar por ali e desci as escadas. Fui até o café esperar pela Mel e, com uma dor de cabeça insistente, fiquei pensando nas imagens que me perturbaram. Fiquei pensando no dia, no tempo.
Hoje de manhã acordei ao lado de alguém que tocou a área meio insensível do lado esquerdo da minha face. Foi a primeira vez que alguém fez isso nesse longo ano que decorreu desde que, em julho de 2005 abri com uma lâmina minha jugular. Não era tão cedo, chovia aqui em São Paulo e uma luz indireta entrava pela janela do meu quarto. Galahad se mexeu, virou e me abraçou por trás. Como fez ontem, me beijou o rosto e passou os dedos bem de leve pelo meu pescoço. Imóvel, deixei que ele continuasse. Fechei os olhos. A sensação é estranha, como se eu saísse de uma anestesia. Uma anestesia infindável, eterna, como aquela que eu achava que tinha imobilizado minhas emoções.
Esse foi o último de uma série de muitas dezenas de cortes que eu mesma fiz no meu corpo, ao longo de anos de convivência com minha desordem mental. Há um ano atrás, quando isso aconteceu, fui pega de surpresa. Achava que estava curada – fazia mais de um ano que eu não tinha sintoma nenhum e considerava que havia vencido a guerra contra a desordem bipolar somente através de treino. Me dei ao luxo de relaxar com o próprio treino, com a dieta e, finalmente, me permiti me envolver numa relação tóxica e parasitária. Os sintomas voltaram com uma força absurda e aconteceu o que aconteceu: fiz um profundo corte no pescoço que abriu a jugular, cortou nervos faciais e me mostrou o quão incrivelmente mais poderosa do que eu imaginava é essa doença. Viví momentos de grande perplexidade e sensação de derrota.
Aos pouquinhos, fui me dando conta de que tudo era muito mais complicado do que eu supunha e que eu fui vítima da minha própria prepotência. Simplifiquei tudo e declarei a guerra vencida. Não estava.
Eu tinha duas opções: recuar, capitular à indústria farmacêutica ou voltar à estaca zero do projeto de construir meu próprio corpo do meu jeito. Escolhi a segunda, dessa vez com muito mais cautela e respeito. Dessa vez com muito medo das pessoas. Dessa vez, completamente sozinha.
Essas cicatrizes espalhadas pelo meu corpo, bem como as que vejo em outras pessoas, me causam confusão. Me sinto muito ambivalente em relação a elas. Por um lado são os troféus de batalhas vencidas, pois em cada uma delas sobrevivi à lesão. Por outro, são sinistros sinais de que o monstro é muito poderoso e me espreita a cada esquina. Que os riscos que assumi ao tentar viver em liberdade farmacológica são imensos. É a vida, literalmente, no fio da navalha.
Os cortes fotografados acordaram uma porção de pesadelos e o louco de porcelana desintegrado, expondo entranhas moles e desordenadas, deram vida a todos eles. Tive ânsia de vômito diante desses horrores. Minha cabeça doeu.
Mas também lembrei dos dedos de Galahad sem medo percorrendo a irregularidade da pele na cicatriz do meu pescoço e de seus lábios na minha pele.
Forças tão antagônicas… Forças que quebram, rasgam, desintegram, destroem. E outras que tocam, integram, fecham. Para que coisas novas surjam, as velhas são sempre destruidas. Mas para que se desenvolvam, é preciso que a destruição seja contida.
O destino parece ter me oferecido as duas, com neutralidade. E a mim cabe administrá-las.

Marilia

BodyStuff

  • o corpo é a paisagem

    marília, acabei de ler seu texto e compartilhei, de imediato, a sensação de náusea quando vc descreveu a exposição. Não a vi. Não a verei. Preguiça em primeiro lugar, medo na essência de tudo. Como não vi a exposição, as imagens que tenho na cabeça podem ser bem piores, bem mais cruéis do que as verdadeiras. acho que uma cicatriz, de algum modo, sempre é algo que captura o olhar. ela conta uma história, troféu de batalhas vencidas, prova de que sobrevivemos, letras de uma música.
    depois de muitas cicatrizes, o corpo é uma paisagem. somos um mundo impresso na pele. tocar uma cicatriz é algo que exige carinho, dedicação, amor e respeito. Se Galahad fez isso, e vc deixou que ele fizesse, me parece um sinal claro de como ele pode ser diferente de todos, importante acima das perdas e do que já foi impresso em vc sobre relações.
    os monstros sempre estarão atrás da cortina, debaixo da cama… é da natureza deles…perseguir, assustar… Mas a marilia de hoje, com as escolhas que fez desenhando novas paisagens corporais, dispõe de outros recursos para acender a luz, abrir janelas e ver que os bichos existem sim, sempre existirão, mas hoje estão mais para pulgas que enchem o saco do que para demônios sem solução.
    anacardilho