Hoje será um post curto, apenas um comentário sobre o que agora me parece regra na psiquiatria, que é patologizar todo e qualquer comportamento que seus praticantes considerem “desviante”. São as chamadas “new adictions” e novas compulsões. Anteontem, uma colega de trabalho me chamou atenção para a “ortorexia”, que seria o disturbio obsessivo de observar a qualidade nutricional do alimento. Ainda estou examinando os artigos originais publicados sobre “dependência de fisiculturismo” (bodybuilding dependence) para comentar. Cada parágrafo me impressiona com o grau de naivité preconceituosa. Me dou conta de que esses pesquisadores se aproximaram da cultura bodybuilder como eu me aproximaria de uma sociedade inuit: sem a menor familiaridade com seus hábitos culturais. Mas se eu me aproximasse de uma cultura inuit, teria consciência dessa incomensurabilidade e teria um olhar generoso quanto à minha própria ignorância. Me recusaria a “traduzir” para o “equivalente ocidental” cada hábito ou comportamento e procuraria observar, mais que entender, cada hábito dentro de seu contexto. É o mínimo que poderia fazer para fazer justiça com o esforço que meus professores de antropologia fizeram para nos oferecer o legado dessa grande disciplina.
Mas a psiquiatria sofre de uma miopia e pobreza de elementos analíticos desconsertante, associada a uma insuportável arrogância quanto a seu status médico. É patético observar o quanto o mainstream psiquiátrico não se dá conta de estar penetrando na seara antropológica, armada de todos os instrumentos do preconceito e intelectualmente desprovida de ferramentas para dar conta dos problemas que se coloca. Não se dá conta de que é ridículo patologizar comportamentos socialmente construídos e compartilhados e não percebe que a compulsão por arrancar cabelos não tem nenhuma, mas nenhuma relação com a preocupação de um atleta quanto ao ganho simétrico ou não de massa muscular, que faz com que ele se observe no espelho da academia.
É como se a psiquiatria entrasse, ela mesma, num surto obsessivo pela defesa inútil de uma sociedade pasteurizada e homogênea. Enquanto isso, a nossa se diversifica e se complexifica a extremos que desafiam ciências mais sofisticadas, como as cognitivas, a antropologia e outras que enfrentam as novas realidades sociais.
Eu acharia apenas patético, se não considerasse perigoso. Perigoso porque existe poder concentrado nas mãos dessa comunidade que, cientificamente, é tão obscurantista e conservadora.

Marilia


BodyStuff