Resultado: defina o seu

Primeira parte

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O e-mail do moço apressado que me motivou a começar esta série dizia que ele estava frustrado porque não tinha “resultados”. Perguntei a ele sobre seu treino, onde treinava, há quanto tempo treinava e, principalmente, quais eram seus objetivos.

Essa pergunta final é a mais importante: o resultado está relacionado com seu objetivo inicial. O objetivo é diferente da expectativa, que algo mais profundo, e que vamos ver a seguir. O objetivo do garoto era, como não podia deixar de ser, ficar mais gostosão. Certamente ele queria ganhar massa magra e perder gordura sub-cutânea.

No caso das garotas, o “resultado” pode ser ainda mais complicado: ela quer ficar magra, mas não seca; gostosa, mas não gorda, com a bunda grande, independente de sua estrutura óssea e distância bi-ilíaca; com os braços torneados e delicados e uma coxa grande e dura (desproporção gritante).

Enfim, vamos ver o que é esse famoso resultado.

Se o resultado é o ganho de massa magra, um mês não é um prazo pequeno, é ridículo. Vamos ver mais adiante a obrigação que vocês têm de conhecer pelo menos as bases mínimas do que são os processos fisiológicos envolvidos no treinamento. Afinal, vocês sabem que têm um coração só, um fígado só e dois rins, não sabem? Por que não devem saber que músculos aumentam em tamanho em resposta a estímulos para tanto? É tão básico quanto.

O aumento de massa muscular, ou hipertrofia, é um processo dinâmico que acontece a vida toda. Sua avó hipertrofia. Mas atrofia também – você e a sua avó. Por que? “Dinâmico” quer dizer isso mesmo: não é um ganho permanente. O ganho se dá quando o corpo responde a um ESTÍMULO HIPERTRÓFICO e a perda se dá quando não há ESTÍMULO HIPERTRÓFICO.

Vamos ver se já ficou óbvio: o que é o estímulo hipertrófico? Começa com “for” e acaba com “ça”. Mataram? Beleza. O músculo responde ao estímulo da força através de um aumento de elementos contráteis (aumentam as miofibrilas com o aumento de sarcômeros dentro da célula muscular, mas deixe isso para lá por enquanto) ou pelo conteúdo não contrátil da célula (hipertrofia sarcoplasmática). O que um profissional responsável deseja para seu aluno é a primeira forma de reação fisiológica, ou seja, a resposta hipertrófica como resultado de um aumento de capacidade de exercer força.

Você vai dizer:  “mas estou pouco ligando para a força, quero ficar bombadinho”. Depois de vomitar com essa resposta fútil, eu calmamente respondo: “menino, ficar bombadinho com hipertrofia sarcoplasmática tem duração menor do que aumentar seus músculos densamente com hipertrofia miofibrilar, ou seja, FICANDO FORTE!

Independente da minha profunda rejeição e desprezo pelo bombadinho fracote, por motivos exclusivamente estéticos e de saúde, você deveria focar em ganhar força – e seu professor também.

Isso NÃO é rápido dentro do seu cronograma de baladas. Em um mês, não tem nem cheiro de hipertrofia. Com dois meses, dependendo da sua genética, determinação, dieta e outros fatores que com o tempo vamos abordar, você pode ver algum “resultado”, ou seja: um DISCRETO aumento na sua massa magra e certamente uma redução da gordura. Mas não espere algo de claramente visível antes de seis meses de treino sério.

Você, garota, primeiro precisa curar sua síndrome de pêra, que quer uma bunda e coxas hipertrofiadas e aquela aspecto vulnerável e frágil nos membros superiores. Perdão, querida, mas o corpo humano é integrado: você nasceu integrada, vai morrer integrada. Tentar picotar seu corpo é uma estratégia inútil e perigosa. É o equivalente aos sabirilas, conhece? O moleque com tronco de gorila e perninha de sabiá?

Não seja uma pêra.

Ninguém está querendo que você seja uma fisiculturista, mas até para brincar no facebook dos amigos você precisa de força na região dorsal e membros superiores para não morrer de dor nas costas e arrumar um pinçamento de nervo. Fora que, espero, você esteja estudando. E , portanto, passando horas sentada numa cadeira, o que em si já é anti ergonômico e negativo para sua saúde articular.

Treine feito ser humano: o corpo todo.

Deixe eu adivinhar: você quer perder “peso”, aquela “barriguinha” e ficar “definida”? Wow! Eu devo ser adivinha.

Esqueça a balança. Seu peso não significa NADA. O que importa é o percentual de gordura e músculo (chama-se “composição corporal”). Duas pessoas podem ter o mesmo peso e altura e uma tem uma aparência gostosérrima, a outra é esquisitona (no seu ponto de vista, porque eu não partilho dessas idéias). Ótimo: passamos pela parte mais chata, a de desconstruir a idéia de peso.

A “barriguinha” é uma questão fisiológica: se você acumula gordura, ela vai preferencialmente para certas regiões do corpo onde ela fica esperando a próxima glaciação para se tornar necessária. Pois de onde você acha que herdou a capacidade de ficar gorda? Dos seus ancestrais, que fixaram estes genes durante duros períodos de adversidade ambiental!

Sem glaciação lá fora, com uma educação corporal show de bola em que você praticamente não saiu da frente da TV, você ficou gordinha.

Seus problemas acabaram! Faça FORÇA e seus músculos vão cuidar de tudo para você. Eles consomem muito mais substrato energético, ou seja: o que você come eles absorvem e transformam em “gostosura”, e não na gelatina sub-cutânea que tanto incomoda seu espelho.

Finalmente, é assim que se cuida da tal “definição”. “Definição”, por definição, é a perda de gordura sub-cutânea que recobre uma musculatura hipertrofiada. Por hipertrofiada eu quero dizer “de bom tamanho”, e não uma fisiculturista. Mas, minha querida, os fiapos de músculo que você tem não podem ser “definidos”. Se você definir isso, vira um fantasma anoréxico e isso nenhum de nós quer.

Treine! Exatamente como os meninos!

Faça força!

O famoso resultado virá. Em não menos de seis meses. Até lá, leia, entenda-se consigo mesma, aproveite o tempo para refletir sobre futilidade, a ditadura da indústria da beleza e aumente sua auto-estima. Tudo isso junto só pode lhe fazer bem.

 

Nos próximos capítulos, veremos os itens abaixo. Por que você não aproveita e comenta suas dúvidas em cada um deles?

 

“Tomar coisas”: o que, quando e de que jeito

 

Aquilo que ninguém fala a si mesmo: o que você está fazendo ali?

 

Força, hipertrofia, definição e emagrecimento: está na hora de você entender o que é isso

Nos próximos capítulos, veremos os itens abaixo. Por que você não aproveita e comenta suas dúvidas em cada um deles?

 

Sua única arma: a INFORMAÇÃO

 

Armadilhas: fóruns com gente com Nicks esquisitos, receitas milagrosas e gente muito enturmada

 

O tempo, esse mistério

  • Kátia de almeida

    Oi Marília, muito bom seu artigo. Fui eu quem comentou o primeiro e disse que emagreci muito. Continuo com minhas séries e treino ( viu como aprendo rápido!) 5 dias na semana várias modalidades. Intuo que não estou fazendo certo, mas moro numa cidade pequena, com baixo poder aquisitivo, apesar de ser ao lado de uma universidade federal, a rural do rj, onde sou professora, o nível de informação deixa muito a desejar. Faço ginástica localizada 3x, Jump 2x, lambaeróbica 3x e musculação 5x. Acaba que o treino com peso fic prejudicado. O que eu devo fazer? Beijos.

    • Putz, Kátia, à distância, tudo que eu posso oferecer é minha consultoria… Não saberia quem indicar assim de longe. Eu acho todas essas aulinhas uma enorme perda de tempo. Eu faria um treino baseada no que quer que exista de peso livre dentro da sala de musculação.

      • Kátia de Almeida

        Então eu vou investir meu tempo em força, vou ter que aprender a fazer da forma correta! Beijos e obrigada!! Vou continuar acompanhando a série.

  • Viviam Santos

    Olá Marília! Tudo bem? Conheci seu blog agora e já devorei seus 2 textos dessa série “academia”. Adorei e estou encontrando algumas respostas, a fim de encontrar primeiro a “força” de vontade pra depois conseguir fazer a força física para me manter em forma, saudável.

    Estou procurando textos que possam me ajudar a criar coragem e conhecimento para reiniciar as atividades físicas – fiz academia por 2 anos, parei, mais 6 meses, e parei de novo. Sempre odiei academia, acho entediante, chato, etc. Nesse meio tempo mudei de cidade (pra Sampa) e aqui não encontrei academias de bom preço – sem contar a falta de tempo.

    Tenho guardado em casa o TRX – cordas de suspensão que podem ser colocadas em parede ou penduradas em porta. Para que a pessoa faça exercício com o peso do próprio corpo.

    Foi um “investimento” que fiz pra tentar – após assistir o DVD e tentar não me machucar por algum exercício mal feito. Ainda nem comecei! A força de vontade está chegando muito aos poucos, quase parando.

    Enfim! Gostaria de saber num post futuro seu, o que você acha de exercícios de suspensão do corpo. Os prós, contras, etc. Que o TRX propõe.

    Parabéns pelo site e posts!

    • Oi Viviam, prometo que vou dar uma estudada na coisa – minha amiga Monica tem no studio dela e vejo o que se pode fazer, ok? É difícil alguém que não tem isso como hábito há anos se disciplinar para treinar sozinha. Tem uns videos meus para “cérebros com perninhas” que você pode gostar – veja no meu canal do youtube.

      • Viviam Santos

        Obrigada! 🙂
        Vou ver o vídeo e continuar te visitando.

  • Luciane Alberto

    Marilia, adorei o seu artigo. Sou fisioterapeuta e trabalho com atletas, mas também com sedentários. E como é dificil introjetar na cabeça dos “paradões” o quão importante para a saúde é fazer exercícios para ganho de força e resistência, pois dizem não querer ficar bombados…
    Explico que ficarão mais fortes e se machucarão menos… E terão mais disposição no dia a dia e envelhecerão muito melhor.

    Gostaria de pedir autorização para publicar o seu artigo no meu blog (colocando a sua referência, claro)

    Se quiseres acessar para ver como é: lucianealbertofisioterapia.blogspot.com.

    Abraço

    • Que bom que você gostou! Tem a parte 1 e a parte 3 já. As partes finais, eu vou deixar para o ebook que será brevemente publicado.

      Pode reproduzir sim, com os créditos e coloque no final o link para o meu site – tudo certo! 🙂

  • Evelin Ribeiro

    Oi, Marilia!
    Estou adorando seus posts dessa série! Aguardo ansiosamente os próximos tópicos!!! Vc escreve muito bem, direta e reta. Parabéns!

    Bjs

  • uma Michelle

    Muito bom o texto! Tenho uma pergunta um pouco fora das questões do texto (mas ta dentro rs): Sempre que começamos a treinar – não só pessoas que nunca pisaram em uma academia, mas todos que ficara um tempo sem treinar – os professores passam as famosas séries 3×15, com o mesmo peso em todas e com 1min de interlavo!
    Eu entendo quando falam que é pra começar “re-acostumar” o músculo pras próximas semanas e tal… Mas sempre fico curiosa se seria possível e aconselhável começar com outros tipos de séries, alterações de carga e intervalos. Pode? Você pode dar alguns exemplos?