Acho tão engraçado ver meus amigos e pares com impecável formação científica, apropriadamente materialistas, com uma atitude totalmente platônica e idealista com relação ao homem. Isso mesmo: acho que não passam de essencialistas. Grandes intelectuais, cientistas sociais, médicos, bioquímicos tratando o homem como uma “essência” que “tem” um corpo. Não vejo diferença nenhuma da idéia de espírito, alma imortal que “ganha” de alguma fonte superior uma casca material, carne perecível e externa ao ser. Assim, eles e todo o resto do mundo idealista TÊM um corpo, separado de si e associado a outro destino. Para eles, bem como para qualquer idealista, o caminho entre o nascimento e a morte é um de crescente “essencialidade” e decrescente “materialidade”. Tudo bem degenerar com a idade: estamos proporcionalmente nos tornando mais essência.
Já me enchi disso. É hipócrita demais se diferenciar e se colocar num plano superior ao discurso religioso, quando tudo que o discurso dessa elite reproduz é um pensamento igualmente maniqueísta e idealista.
Não sei muito bem onde estou agora – só sei que em nenhuma dessas categorias. Definitivamente, não tenho corpo nenhum. Eu SOU um corpo – que pensa, sente, come, transa e escreve.

Marilia


BodyStuff

  • Anônimo

    marília, sem dúvida vc é um corpo.
    Um corpo lindo, forte, muito além dos padrões impostos e impondo, hoje, uma nova forma, um novo desenho.
    Corpo aberto, me ocorre. corpo de mar, de sal, sem ser sensato que isso é muito chato… seu corpo corre, malha e escorre…meio mel…meio amargo e essa mistura garante o equilíbrio. nada de moça doce e suave, quase etérea, quase morta, quase fantasma. vc chega mesmo e senta mesmo e fala mesmo e escreve mesmo e existe mesmo. Isso faz de vc um modelo de músculos, tendões, pele, e atitude, muita atitude, que, eu juro, ainda vou seguir pelo menos “um por cento”…(assim que eu descobrir como saio da minha inércia)
    ser um corpo me parece bem melhor do que ter um corpo. o que temos, na verdade não temos e pode ser perdido a todo instante. o que somos soa forte, intenso. há um princípio nisso. ter é não ser. ter é apoderar-se do que não se é. ser é sério. ser é essência e essencial. e vc, sendo esse corpo que arrasta olhares, espalha o questionamento, acaba com o ar parado que antecede a tempestade. vc é a tempestade, de idéias e de músculos.
    acho que tudo se mistura, num batismo maravilhoso: seus neurônios malhados e seus músculos pensados.
    beijos, sua superfã de carteirinha:
    ana cardilho

    • esta foi, definitivamente, a coisa mais bonita que alguém já escreveu para mim… vindas de você, a mulher das palavras perfeitas, as quais eu espero e degusto com frequência sempre maior do que eu gostaria, isso tudo tem um gosto de reconhecimento e plenitude. não sei mais o que dizer, só que me sinto muito honrada…

  • Anônimo

    “Eu SOU um corpo – que pensa, sente, come, transa e escreve.”
    Marilia gostei muito desta tua frase final,ela sintetiza tudo que acreito!
    Eu diria -Eu sou um ser que é corpo-que pensa….Sabes,acredito que é a questão – sexualidade e saber não caminham juntos. Pois percebo que nos meios mais intelectualizados,a sexualidade é negada ou teorizada,jamais tida como ato! Se fala,se pensa,mas não se fode!(desculpe! mas é assim mesmo que penso!) E sexo pede um corpo amado e cuidado.A titulo de curiosidade,(tem justificativas p/ tal),sabias que Freud aos 40 anos parou de ter relações sexuais e passou a desenvolver a psicanálise? Então,é como se confirmasse,a inteligência p/ ser desenvolvida tem que a”atrofiar”a sexualidade e aí dizem- sublimou! rs..Sublime é reprimir a sexualidade e negar,portanto o objeto maior dela – o corpo!
    Beijos..