Quero falar sobre meninos, aranhas, teias e as “iron arts”. Mas, antes de mais nada, este texto é sobre uma teia.
Hoje fiz uma visita à Roldan, a academia mais antiga do Brasil, que fica quase na esquina mais célebre, controversa, paradoxal e desconsertante do país: Av. Ipiranga com São João, centro de São Paulo, sítio de deslumbramento e de tragédia nas letras de Paulo Vanzolini e Caetano Veloso.
A Roldan fica no 3º andar de um edifício antigo. No segundo, há uma sex-shop. Tem todo tipo de gente por ali: prostitutas, trabalhadores do comércio pobre da região, policiais, entre milhares de outros “tipos”.
Fui lá para fotografar dumbells antigos, imagens para o projeto gráfico do meu (iron) brother Stevie, fundador da comuna-orkut Bodybuilding-brasil (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1608263). A Bodybuilding-brasil é uma comunidade virtual voltada para discutir questões sobre treino, nutrição e tudo relativo às “iron arts”. Tem se tornado cada vez mais um polo educativo, onde muitos jovens praticantes de todas as partes do país procuram informações e orientação. Digamos que o Stevie é o “nó no. 1” da teia.
Na Roldan, encontrei dumbells de todos os tipos e tamanhos, fiz muitas imagens, tudo com a ajuda do professor Marcão. Marcão é professor de muculação e Muai-Tai, mergulhador, Ph.D. na arte de viver e desenvolve projetos ligados à qualidade de vida. Enquanto ele me ajudava na “produção” das imagens, sugeria ângulos e arranjos, me falou um bocado sobre a relação entre nosso estilo de vida e a qualidade dela, e o quanto de contribuição isso representa para o mundo em geral. Marcão é o “nó no. 2” da teia.
Saí da Roldan, feliz da vida com minhas preciosas imagens e meu novo amigo, com o mp3 na orelha e mochila nas costas, uma atitude totalmente absurda para aquela região perigosíssima, violenta e hostil. Nasci e cresci em São Paulo, não sou propriamente uma retardada, e, portanto, não teria nenhum motivo para me comportar dessa meneira imbecil. Mas por algum motivo, foi assim que caminhei – e caminhei muito, usei o Metro, fui até V. Mariana e voltei.
Peguei meu carro, estacionado na Cons. Crispiniano e segui em direção à Paulista, com os vidros abertos, mp3 ainda na orelha, ouvindo rockão pesado, com a cabeça no projeto gráfico e tantos outros projetos que aquela manhã me inspirava.
Chegando na Ipiranga, fui assaltada. Era óbvio que seria: vidro aberto, mulher desatenta, som na orelha… É como se eu gritasse pela janela: “assaltem-me”. E vieram, uma penca deles. Eram uns sete ou oito meninos, eu diria que entre 12 e 18 anos, embora parecessem crianças pequenas. Seus bracinhos eram tão finos quanto meus punhos, meleca no nariz, remela nos olhos e ar assustado. Falavam baixinho, um pequenininho era o líder: “dá o dinheiro, a gente só quer o dinheiro, passa logo se não a gente te fura…” Os meninos são o “nó no. 3” da teia.
Na hora, é inevitável: quando a gente se dá conta de que estão fazendo uma proposta para a gente que implica em uma ameaça de morte, dá aquela gelada geral. Mas eu fiquei calma e pedi a eles o mesmo. Disse que faria o que eles pediam e comecei a buscar na minha mochila. Minha mochila tinha tudo: blusa, potinhos de whey, uma câmera digital de 5.1Mpixels, um celular novinho e muitas outras coisas que valiam bem mais do que a nota de 50 que eu tinha na carteira. Carteira que eu não achava na bagunça. Eles tentavam me apressar dizendo que iriam me cortar se eu não pegasse logo a grana, que o sinal ia abrir… Pensei bem e conclui que era um risco real. Mas que, diante dele, o máximo que eu podia fazer era colaborar e tentar encontrar a maldita carteira, e que, se eles se desesperassem e tivessem um ataque de ódio, eu morreria. E se morresse? Bem, azar: tinha sido um dia legal, foi uma vida legal e seria uma pena, porque estava ficando cada vez mais legal. Mas tudo bem, também, porque valeu, puxa, até que foi bom ter sido tão porra-louca, já imaginou se eu tivesse sido certinha? Ia ficar muito puta naquele momento, sabendo que iria morrer sem ter vivido a maior parte das coisas que valem a pena na vida. Que bom que não fui. Enquanto tinha esses pensamentos filosóficos, esvaziava a mochila. Cairam três objetos importantes: dois frascos de iogurte com frutas e um ingresso usado para o Instituto Butantã, que guardei pela linda ilustração de aranha, uma Loxosceles gaucho.
Me dei conta de que os bracinhos dos meninos entrando pela minha janela lembravam as pernas da Loxosceles. Meninhos-aranhas, tão magrinhos e sem força, tão sem força e sem dignidade, que só restou a eles buscar algum dinheiro com uma mulher claramente não-rica, mas descuidada. Cuja vida realmente não importa nada a eles. Cujo dinheiro talvez fosse o suficiente para supri-los do que quer que seja que eles precisem cheirar, fumar ou tomar para anestesiar a fome, a raiva e o absurdo de viver a vida que vivem.
A Loxosceles é o “nó no. 4”.
O sinal abriu, os meninos foram desencanando de mim, saindo aos poucos. Um último olhou para dentro e perguntou: “tia, você me dá pelo menos o danone?”. Não exigiu. Não ameaçou. Só pediu. Eu entreguei os frascos para ele e respondi: “mas é claro!”. E ele disse: “brigado, tia. Desculpa aí. E vai com deus, que deus te acompanhe.” Eu olhei para ele, sorri e disse: “que é isso, na boa… se cuida, e que deus acompanhe vocês também.”
Nem sei se acredito em deus. Mas pareceu a coisa certa a dizer ali. Eu não poderia acompanhá-los, os pais deles certamente haviam desistido disso há anos e o Estado… Bem, o Estado nunca acompanhou nem acompanhará nenhum deles. Sobra deus, se existir. Tomara que exista.
Aquilo ficou na minha cabeça enquanto eu dirigia, agora futilmente com os vidros fechados. Alguém precisaria acompanhar esses meninos-aranhas. Os nós da teia começaram a se alinhavar.
Pensei na Roldan e em tantas outras academias simples, algumas totalmente underground, nos segundos e terceiros andares de edifícios comerciais de regiões complicadas de São Paulo. Bem na frente de onde se reunem os grupinhos de meninos-aranhas. Pensei nos bracinhos deles, na falta de grana, dignidade e força – força em todos os sentidos. Imaginei o que aconteceria se fosse possível dar a eles um pouco disso ao que todo ser humano deveria ter direito. Sei lá… Se fosse possível dar pelo menos umas 40g a mais de proteína a eles por dia, um pouco de leite e ovo, proteína barata, e permitir que eles fizessem algo com seus bracinhos e perninhas de aranha. Que pudessem puxar os dumbells que eu acabava de fotografar.
Pensei no whey que tinha ficado no potinho na minha mochila, na minha dieta hiper-proteica, no dia em que decidi projetá-la, em que meu outro (iron) brother, Jaka, me disse que eu estava ingerindo pouca proteína. Pensei nas minhas quase 200g de proteína por dia, nas provavelmente menos de 50g de proteína semanais dos meninos-aranha, na academia-serviço-social que um dia o Jaka tocou em Novo Hamburgo. Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, gaúcho. Loxoscelles gaucho. Jaka, o “nó no. 5”.
Meninos-aranhas. Bodybuilding, uma possível porta para a dignidade. Brasil, país dos meninos-aranhas. Bodybuilding-brasil, a comuna do orkut. Orkut: “Você está conectado a 13.377.542 pessoas através de 320 amigos. Aumente sua rede agora mesmo!”, diz minha home-page. A Bodybuilding-brasil é o “nó no. 6”.
Cheguei ao meu próximo destino, a casa da minha amiga Ana, que passou por uma histerectomia. Que sofreu tanto com um longo desentendimento com seu próprio corpo e agora espera um programa de dieta e exercícios que eu prometi montar para ela. A Ana é o nó. no. 7.
E eu sou o nó no. 8. O último nó da teia.
Uma teia de responsabilidades e trajetórias, destinos, aventuras e desafios que, no fim, une os meninos-aranhas, as academias dos terceiros andares, meus iron-brothers, talvez 13.377.542 pessoas e… eu.

Marilia


BodyStuff

  • Anônimo

    Muito legal o texto…legal mesmo parabéns pelo trabalho.

  • Anônimo

    Muito bom Marilia!

    Ainda não havia lido um texto seu. Gostei muito dele em si, assim como da forma que você escreve.

    Um beijão,
    Rodrigo Prior.

  • Anônimo

    SOBRE MENINOS E ARANHAS

    Marilia parabéns pelo texto,vc mostrou que nós vivemos numa teia não importando o estado ,o país ela existe e a origem é a falta, mínima,de dignidade social.Mais uma vez PARABÉNS.de CLAUDIA PEÇANHA

    • Anônimo

      Re: SOBRE MENINOS E ARANHAS

      Jacarés não curtem muito as aranhas mas essas merecem uma certa atenção . Grande texto !

  • Anônimo

    para marília/ aranha de vidro

    ARANHA DE VIDRO (para Marília Coutinho)

    Penso em teias de aranha. A precisão dos desenhos, os pontos bem dados, a plasticidade, a força e ao mesmo tempo a fragilidade de cada uma. Teias como berços, teias como refúgios e como armadilhas. Penso em como estamos sempre tecendo ou caindo em teias. Umas nossas, internas, outras da vida. Somos meio aranhas também. Com menos astúcia e brilho mas ainda tentando capturar a mosca para o almoço, um tanto pela proteína outro tanto pela graça da caça.
    E de nó em nó vamos construindo uns nós que se envolvem com os vós e enredamos uns aos outros. Teias do bem com os amigos. Teias perversas com os sentimentos menos nobres, teias sem saída com nossos pesadelos.
    Às vezes percebemos que trocamos de lugar e caímos em teias alheias, somos o jantar que se debate no desespero dos quase já mordidos e sugados e triturados. Comidos vivos. Deve doer até podermos morrer, especialmente se houver consciência, especialmente se a aranha deixar nossa cabeça para a garfada final.
    Sigo uma aranha dessas que aparecem dentro de casa. Sem veneno, sem ovos, aranha que não oferece perigo. Aranhinha, quase um objeto de decoração. Ela é rápida. Tantas pernas… ela sobe nos móveis e se concentra em um vidro sobre a cômoda. O vidro guarda uma pedra. Pedra preciosa, forjada a sangue dentro de uma vesícula e arrancada a bisturi. Guardaram a pedra nesse vidro. Virou um troféu. Virou um símbolo de como aprisionar a dor. Antes a pedra incomodava o corpo, atrapalhava a vida. Hoje, é só uma pedra num vidro, gênio na garrafa. A aranha dorme sobre a tampa do vidro. Ela gosta da pedra. Deve cheirar a sangue e deve mexer com os instintos do aracnídeo doméstico que não vai poder romper a barreira do vidro e chegar à pedra mas pode ficar ali, como se dormisse, como se sonhasse.
    Sonhando acordadas estão as pessoas que neste momento tecem teias e pensam em ajudar os meninos-aranhas que sobem pelos carros nos faróis da grandes avenidas. Eles pedem dinheiro mas querem comida. Eles ameaçam com armas mas mandam seguir com Deus. Os meninos-aranhas grudam nos vidros, amolam, provocam medo, são perigosos e frágeis. Chegam aos bandos e somem quando o sinal se abre. Com alimentação e exercícios, os meninos deixariam de ser insetos e voltariam a uma condição humana. Mas quem se importa? Quem ajuda? No anonimato há ações, há ATITUDE. E a teia se abre um pouco mais ganhando novos nós. Norte para náufragos.
    Penso em força. Treinamento de força. Músculos definidos, desenhados, novamente teias…agora impressas no corpo, tatuagem, moldes, poder.
    Podemos ser fortes, podemos ser pedras, mas precisamos de alguma leveza, patas de aranha fora do chão, saltos ornamentais.
    E aqui o veneno. Entra quente, denso, se espalha, ganha a corrente sanguínea, inventa delírios, confunde o coração. Mas define. Impõe a decisão: vamos morrer paralisados ou vamos ter força e criar o contra-veneno? Paralisados de terror, devorados vivos ou donos de nossos dias, de nossas escolhas? A aranha escolheu o vidro com a pedra que alguém escolheu arrancar do corpo porque doía. Escolhas. Tantas quantas as pernas de uma aranha.
    Escolho: não vou ser só a mosca nem só a renda da teia, nem só meia aranha, capenga, mutilada, sem parte do corpo. Escolho ser um corpo inteiro, fortalecer o que sobrou. Ampliar minhas chances de sobrevivência. Porque um dia a teia vai se fechar e a aranha vai cansar de dormir sobre o vidro da pedra. Nada mais doméstica, ela vai me ver aqui e teremos chances iguais na luta.
    Só assim veremos quem vai ganhar… se alguém puder ganhar….
    ANA CARDILHO 22/02/2006

    • Anônimo

      Re: para marília/ aranha de vidro

      OLá MArília,

      Curiosamente estou na academia e acabo de ler sua reflexào, magnífica por sinal!

      O mundo precisa de mais pessoas como você, arraigadas de sensibilidade para valorizar as “pequenas aranhas” da vida………

      BJus e até!

      TRika