Hoje é o “dia nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais”. Esse negócio de “dia” oficial me incomoda um pouco, mas se a gente usar como um marcador na agenda, pode funcionar. Vamos parar para pensar o tema e falar a respeito, mesmo que seja um tema sobre o qual deveríamos pensar todos os dias, como “direitos da criança” ou “direitos humanos”.

Como é que podemos fazer para que todos pensem o tempo todo em algum problema? Até hoje, só conhecemos um jeito: a identificação. Enquanto o outro é um “outro” entre aspas, brilhando feito um E.T. com sua alteridade em primeiro plano, não funciona. Todo mundo concorda que não é legal exterminar pessoas que estão tocando sua vida só porque não têm a mesma etnia, cor de pele, idioma ou religião que a gente. No entanto, assistir “Ruanda” ainda é uma experiência de alteridade: é aquele horror que acontece num planeta distante chamado África.

Eu proponho um exercício de reflexão sobre transgeneridade. Vamos assumir alguns pressupostos aqui:

  1. Os papéis de gênero são socialmente construídos e são difundidos pelas instâncias de educação e inculcação ideológica (escola, igreja e, hoje, sobretudo o marketing da indústria da beleza);
  2. Para funcionar, eles precisam ser “tipos ideais” bem claros: temos dois gêneros aceitáveis, cada um correspondente a um dos sexos biologicamente herdados e predominantes, cada um associado a um conjunto de elementos comportamentais e valorativos;
  3. Estes elementos comportamentais e valorativos vêm em caixinhas de repertórios estéticos, atitudinais, gestuais, ocupacionais, entre outras (caixinhas);
  4. Para funcionar mesmo, é importante que as pessoas acreditem que tudo isso foi dado  por uma divindade (“Deus fez assim”) ou pela Natureza (“a Natureza fez assim”);
  5. A transgeneridade consiste em questionar este último item, juntar com o primeiro e propor uma construção social alternativa, onde as escolhas do sujeito se superponham às imposições sociais dominantes externas.

Se assumirmos esses pressupostos, @s travestis e transgê[email protected] são as pessoas que manifestam uma expressão ao mesmo tempo mais óbvia e consciente de algo que é muito mais disseminado e comum. No fundo, ninguém consegue se adequar plenamente aos papéis de gênero, por definição: eles são tipos ideais!

Admito que é esquisita essa idéia. Requer imaginar aquele tio careta e machista sendo um transgênero: não combina. No entanto, no dia em que ele se emocionar no escritório e for repreendido pela “viadagem”, o que ele está sofrendo não é só uma ação homofóbica. Ao considerar o comportamento dele uma “viadagem”, na verdade o que as pessoas estão apontando é a transgressão da fronteira de gênero: “opa, cuidado, desse lado de cá estão os homens, lá ficam as mulheres. Pare com essa choradeira porque você está dando nó na nossa cabeça”.

Isso acontece o tempo todo, todos os dias. Se você é um cara hetero, pense nas vezes em que, mesmo de brincadeira, apontaram uma viadagem sua? E você, mulher hetero, não acredito que nunca tenham sugerido um comportamento “mais feminino” para você.

Transgeneridade é transgressão de papéis estereotipados de gênero. Quando mais gente conseguir enxergar dessa maneira, e não como uma esquisitisse de uns caras e umas minas que se vestem como palhaços, ou umas aberrações de uns caras e umas minas que se submetem a cirurgias mutilatórias, tudo entra em perspectiva (e aí eles não são palhaços e as cirurgias não são mutilatórias). Esses caras e essas minas são você e eu, sua tia e o moço da rua. Somos todos nós que, em maior ou menor grau, com maior ou menor consciência, desejo e serenidade, transgredimos a pior de todas as imposições externas: a prisão mental dos papéis de gênero.

Somos todos transgêneros e vamos dar um pau na transfobia.

  • Letícia Lanz

    Um barato o seu texto. Lúcido, breve, direto e simples. Porrada na “racionalidade” ilógica da lógica heteronormativa-cisgênera, tão contaminante que acaba sendo reproduzido dentro do próprio gueto transgênero!

  • Deise Mesquita

    Adorei sua proposta. tanto, que a compartilhei no FB, como um exercício… Vamos ver quem topa, né? Um abraço!

  • rufino,josé

    O GÊNERO É UMA CONSTRUÇÃO SOCIOCULTURAL,ELE ESTÁ PARA ALÉM DO DETERMINISMO BIOLÓGICO,NÃO SOMOS MASCULINO E FEMININOS CONSIDERANDO APENAS O NOSSO CORPO,MAS SIM SOMOS MASCULINOS E FEMININOS DIANTE DAS SUBJETIVIDADES,DA IDENTIDADE E DA AUTO-IDENTIFICAÇÃO.

  • raul

    que alegria
    que tenhas tocado em um assunto que venho remoendo,pois,numa dessas conversas com uma querida e militante,eu pedi pra ir devagar, pois estava fazendo varias coisas ao mesmo tempo e aleguei falta de feminillidade, por nao ter capacidade de multipla açao.isto foi prontamente rebatido “genero e invençao social”.engoli seco e la vou eu procurar minhas marilias livres dos preconceitos,para que consiga entendimento sem ismos.apesar de estrategicamente estar mais para o feminismo libertario,fico triste com esse nivelar por baixo e desconsiderar alguns humores proprios da sexualidade dominante no ser.pois acredito que estudos onde mostram diferenças gritantes,e mais,o enorme gosto pelo diferente,o baixo narcisismo que me cercam a personalidade, me alegram dessa diferença e possibilidade de encontros com seres que sempre me atraem mais, por uma determinaçao animal,talvez,impulso reprodutor,talvez tesao. sei la.queria transpor todos os preconceitos,mas,quero conservar o prazer sem nivelar no reles caricato. sei que pode gerar um longo debate. ate quando provoquei a nossa amiga mafe sobre esse tema sugeri que tu terias uma boa contribuiçao,nem iria tocar no assunto contigo pra nao tomar o teu precioso tempo,mas,ja que abriu este parentese… obrigado querida

    • Oi Raul,

      A gente é diferente! E vai levar muito tempo para que entendamos as diferenças biológicas que existem, sim! E é legal curtir o diferente!

      Isso não quer dizer que seja possível respeitar um estereótipo de, de natural, não tem nada. Todo mundo transgride e é legal transgredir com vontade e alegria. O que quer dizer todo mundo transgredir nem na mesma direção, nem no mesmo sentido.

      Né?

      beijo

  • julio de jesus

    Querida marilia.
    Não gosto, não acho legal que se banalize a transgeneralidade. A fórmula “somos todos transgêneros” funciona quando temos de sair em defesa de alguém, mas não me parece adequada para conceituar o transgênero, pois não é verdade que todos somos tansgêneros. Na medida que nem a masculinidade nem a feminilidade e, por extensão, a transgeneralidade são universais, não acho que as palavras de ordem “todos somos…” ajude o transgênero. Não o emancipa. A não ser que o texto já seja um manifesto político, um panfleto agitativo. Mas faltando tanta coisa para se discutir e mostrar sobre o transgênero em nosso tempo, acaba que o texto me cheira a ultra-esquerda barata, de saldo negativo.
    Beijo Marília. Desculpe minha ousadia em criticá-la. Força.

    • Oi Julio,

      Não peça desculpas, não: muito interessante a sua crítica. Acho que você tem razão em certo sentido. Talvez o que eu tenha querido evidenciar tenha sido somente a universalidade (e inevitabilidade) da transgressão do estereótipo, mesmo contra a vontade do sujeito. No entanto, de fato, o transgênero é uma pessoa que exerce essa transgressão com um sentido e uma agenda pessoal clara.

      Muito obrigada!

      Marilia

  • Eduardo Rodrigues Vianna, SP

    Pintou um Sol maravilhoso e eu ainda não fui trabalhar: antes disso, vou pitacar, do verbo dar pitaco.
    Cê vai achar gozado se eu disser que sou masculinista, não por “ideologia”, mas como estilo: eu adoro ser homem, a minha barba, as calças e meias ótimas que a minha mulher me compra, os meus imensos sapatos, os meus metros e metros de gravatas lá do João Cabral, o meu pente ordinário, mas de muito respeito, construído em plástico cor de âmbar, essas coisinhas. Mas eu também sou meio transgênero: tenho sentimentos femininos. Em relação ao gestual e coisas desse tipo, eu sou aproximadamente uma dama. E, em se tratando de paternidade, eu sou uma mãe judia, embora meio desastrada!

    • Você não é “masculinista” (esse termo já foi apropriado por um grupo nada legal), é um ser humano. Curte esse repertório estético.

      • Eduardo Rodrigues Vianna, SP

        Oi, Marilia.
        Pois é, o negócio de “masculinista” pega meio mal, mas na verdade eu nunca dei a mais mínima pelota pra essa rapaziada do masculinismo-a-sério, acho mais é graça. Então, vou usar um rótulo, de brincadeira como deve ser: hombrista! Que tal? E tem um quê todo castelhano, cheio do charme caribenho ou andino. iArriba! =)